segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Hipertireoidismo durante a gravidez

Doença pouco frequente em gestantes


O hipertireoidismo é o estado de hiperfuncionamento da glândula tireoide, isto é, de produção aumentada de hormônios. Felizmente, não é uma doença frequente em grávidas. Estima-se que no máximo 4 de cada mil gestantes tenham a gravidez complicada por hipertireoidismo.



Atenção aos sintomas!


Durante a gravidez, os sintomas de hipertireoidismo podem se confundir com os sintomas da gestação, já que taquicardia, intolerância ao calor e excesso de suor são frequentes nas futuras mamães. Contudo, sintomas como ansiedade, tremores, perda de peso, bócio e olhos saltados, sugerem doença na tireoide com maior probabilidade.



Complicações da gestação podem acontecer


Entre as complicações associadas ao hipertireoidismo durante a gestação estão aborto espontâneo, trabalho de parto prematuro, baixo peso ao nascer, prematuridade, pré-eclampsia e insuficiência cardíaca.



Exames de sangue fazem o diagnóstico


O diagnóstico de hipertireoidismo durante a gravidez é facilmente estabelecido através de exame de sangue. Níveis de TSH menores que 0,1 mU/L, acompanhados de níveis elevados de T4 livre ou T3 livre para o período gestacional, confirmam o diagnóstico.



O tratamento não é o mesmo para todas as gestantes


O tratamento é individualizado e depende da gravidade do caso e do período gestacional. Habitualmente são usados medicamentos que bloqueiam a produção de hormônios pela tireoide, já que o iodo radioativo está contraindicado.



Referências:

1- Ross DS. Hyperthyroidism during pregnancy: Clinical manifestations, diagnosis, and causes. UpToDate.

2- Alexander EK, Pearce EN, Brent GA, et al. 2017 Guidelines of the American Thyroid Association for the Diagnosis and Management of Thyroid Disease During Pregnancy and the Postpartum. Thyroid 2017; 27:315.



Dr. Mateus Dornelles Severo

Médico Endocrinologista

Doutor e Mestre em Endocrinologia pela UFRGS

CRM-RS 30.576 - RQE 22.991



Texto revisado pelo Departamento de Tireoide.

sábado, 20 de junho de 2020

Testosterona em mulheres: dosar ou não dosar?

A dosagem e reposição de testosterona nas mulheres é um tema bastante atual e um dos motivos que as fazem procurar atendimento médico. Embora ainda existam lacunas na literatura médica, muitos dados já estão bem definidos.

Um dos pontos que gera muita confusão e custos desnecessários em grande parte dos casos é a dosagem laboratorial da testosterona. A dosagem da testosterona no sangue, em laboratórios comerciais, é sujeita a diversos “erros” provocados pelos métodos que são utilizados, o que tornam valores abaixo de 150 ng/dL muito imprecisos, situação na qual se encontram, habitualmente, mulheres e crianças.
Pesquisa realizada pelo Colégio Americano de Patologistas procurou avaliar a precisão diagnóstica da dosagem de testosterona por métodos comercialmente disponíveis. Uma mesma amostra de sangue foi enviada a diversos laboratórios e o coeficiente de variação entre os laboratórios utilizando uma mesma metodologia variou de 13-32% em mulheres normais. Esses números demonstram uma confiabilidade inaceitável na dosagem de testosterona na mulher normal, o que compromete de fato a sua utilidade clínica. 

Imagem: Wikimedia Commons

Se existe tanta possibilidade de erros e imprecisão, por que dosar? Vamos fazer algumas perguntas para responder essa questão:


Seriam erros laboratoriais ou laboratórios sem competência?

Não, todos foram feitos em laboratórios de ponta. Essa diferença se dá pela limitação própria dos métodos que usamos para fazer as dosagens. Existem métodos mais acurados para a dosagem de testosterona, mas são caros e frequentemente não disponíveis na maioria dos laboratórios


Se existe tanta imprecisão, por que dosar a testosterona em mulheres?

As únicas indicações da dosagem de testosterona em mulheres estão ligadas à possibilidade de excesso de testosterona ou no acompanhamento da terapia com testosterona, quando indicada e instituída.

Suspeitamos de excesso de testosterona quando há excesso de oleosidade de pele, acne, calvície, aumento de pelos, aumento de massa muscular, irregularidade ou parada da menstruação, atrofia mamária, aumento do libido, alteração no tom da voz e aumento do tamanho do clitóris.  Esses sinais e sintomas podem ser encontrados nas doenças e nos tumores de adrenal e de ovários que produzem testosterona em excesso.

Nos casos onde há sintomas clínicos, frequentemente as dosagens da testosterona são elevadas e podem ultrapassar o valor de 200 ng/dL, o que aumenta a precisão da avaliação laboratorial a qual, aliada à clínica, nos traz o diagnóstico de uma síndrome hiperandrogênica.


Toda mulher deve dosar testosterona?

Não, a dosagem da testosterona na mulher deve ser realizada apenas naquelas onde há suspeita de ter seus níveis aumentados, ou seja, no contexto de sintomas clínicos sugestivos de hiperandrogenismo.


O custo do exame é irrelevante?

Não. Surpreendentemente, uma avaliação realizada por uma operadora de saúde na cidade de Curitiba verificou que se gastou mais com a dosagem de testosterona nas mulheres do que com os homens - valores na cifra de R$ 2.400.000,00 no período de avaliação de 1 ano.



Este problema de precisão ocorre somente com a testosterona ou com outros hormônios também?

Em geral, quanto menor o nível de circulação do hormônio, menor a precisão da sua análise. Sendo assim, qualquer hormônio de ação masculinizante (androgênios), na mulher, só deve ser dosado na suspeita de excesso dele, e não na falta. Exemplos de dosagens hormonais de androgênios que não devem ser realizadas sem uma indicação precisa: DHEA, sulfato de DHEA, androstenediona, 17-OH progesterona, di-hidrotestosterona.


Se não dá para dosar níveis baixos, como definir se devo ou não repor testosterona?

A reposição de testosterona na mulher é ponto bastante controverso. Não há uma correlação direta entre os sintomas de hipogonadismo e os níveis séricos de testosterona. Por esse motivo e pela baixa acurácia da dosagem, a mesma não deve ser dosada.

O diagnóstico presumível de deficiência deve ser feito com base unicamente na história clínica. Dados relevantes como queixas sexuais, história reprodutiva/menopausa, sintomas sugestivos de insuficiência adrenal e passado de cirurgias em adrenal e ovários são informações que devem sempre ser questionadas.

As sociedades científicas divergem quanto à utilidade da reposição de testosterona na mulher. Os estudos são limitados em número de pacientes, demonstram resultados discordantes e os efeitos a longo prazo da reposição da testosterona ainda são desconhecidos, fazendo com que a indicação de repor esteja reservada para casos bastante específicos. Para o Departamento de Endocrinologia Feminina e Andrologia da SBEM, o “Transtorno da Excitação e do Desejo Sexual Hipoativo” é a única indicação para uso da terapia com testosterona na mulher. É uma entidade clínica que precisa ser bem caracterizada através de um escore de sintomas. Tais manifestações precisam estar associadas a sofrimento pessoal e por um período superior a 6 meses. Caso se opte pelo tratamento, essa escolha deve ser individualizada com o seu médico, já que não existem formulações específicas para a população feminina no mercado brasileiro. Desencoraja-se o uso de implantes hormonais nesse contexto. Se benefícios clínicos não forem observados em um período de uso de 3-6 meses, a terapia deve ser interrompida.


Concluindo

Nos casos em que existe a suspeita de excesso de testosterona, a dosagem de testosterona e eventualmente algum outro andrógeno deve sempre ser considerada, com o intuito de se identificar a causa dessa alteração hormonal.

Já nos casos em que se suspeita de baixos níveis de testosterona ou andrógenos, a dosagem, além de ser inútil, gera custos desnecessários e pode levar a um diagnóstico incorreto com tratamentos que podem ser prejudiciais.


Referências:

1- Endocrine Society. Utility, limitations, and pitfalls in measuring testosterone: an Endocrine Society Position Statement. J Clin Endocrinol Metab. Feb 2007;92(2):405–13.
2- Endocrine Society. Androgen therapy in women - a reappraisal: an Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. Oct 2014;99(10):3489–510.
3- Weiss RV et al. Testosterone therapy for women with low sexual desire: a position statement from the Brazilian Society of Endocrinology and Metabolism. Arch Endocrinol Metab. 2019;63(3):190-8.
4- Davis SR et al. Global Consensus Position Statement on the use of testosterone therapy for women. Climacteric. 2019;22(5):429-34.
5- Testosterone therapy for menopausal women. Drug Ther Bull. 2017;55(5):57-60.

Dr. Emerson Cestari Marino
Médico Endocrinologista
CRM-PR 31.440 - RQE 17.221

Texto revisado pelo DEFA.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

O uso de anabolizantes interfere na sexualidade?

Testosterona, seus derivados e libido

A resposta para esta pergunta é sim, porém esta interferência tem aspectos bastante antagônicos.

Se, por um lado, os esteroides anabolizantes, principalmente representados pelo hormônio testosterona e seus derivados sintéticos, podem ter efeito estimulatório sobre a libido, por outro trazem consequências que, em longo prazo, podem reduzi-la, além de outros efeitos deletérios ao organismo que serão listados a seguir:



Efeitos dos anabolizantes no organismo

O uso de anabolizantes pode provocar dependência química e psíquica, assim como outras drogas, ainda provocar disfunções em outros órgãos, como coração, fígado, rins, pele e órgãos sexuais.

Levando em consideração a sexualidade, vamos especificar a ação dos anabolizantes na parte física, comportamental, no sistema reprodutor e o cardiovascular.

O efeito androgênico dos anabolizantes provoca aumento da oleosidade da pele, acne e queda de cabelo, como principais efeitos colaterais, além da masculinização que ocorre nas mulheres, representada principalmente e pelo aumento do clitóris e do timbre vocal. Nos homens podemos ter aumento das mamas, chamado de ginecomastia.

No comportamento, temos um aumento dos transtornos de humor, como depressão, da agressividade e impulsividade, com registros até de aumento da criminalidade e casos de violência, além da dependência química e psíquica, com demandas por doses cada vez maiores, buscando sentir os mesmos efeitos do início do uso, assim como acontece, por exemplo,  com uso  de drogas como cocaína e crack. Alterações do sono como apneia obstrutiva também podem ser identificados.

No sistema reprodutor temos a inibição da liberação de hormônios chamados gonadotrofinas, que são liberados pela glândula hipófise, e controlam o funcionamento dos testículos e ovários, podendo levar desde distúrbios menstruais, prejudicando a fertilidade nas mulheres até interrupção definitiva da produção de testosterona e espermatozoides nos homens, levando à impotência e também infertilidade, e ainda sintomas do aumento da glândula prostática.

A função sexual está diretamente ligada e dependente da integridade do sistema cardiovascular (coração e vasos sanguíneos), neste caso, o uso de anabolizantes, tanto os similares à testosterona, quanto do hormônio do crescimento, trazem consequências drásticas ao coração e artérias.

No músculo cardíaco especificamente, diversos estudos mostram disfunção, com aumento do tamanho cardíaco, perda de força e desenvolvimento de insuficiência cardíaca no longo prazo.

Já nas artérias, pode ocorrer aumento da pressão arterial, do estímulo a deposição das placas de gordura (aterosclerose) devido a piora do perfil lipídico (colesterol), que levam ao aumento de risco para infarto agudo do miocárdio, AVE (AVC/derrame), além de eventos em membros inferiores e rins.  Outra alteração fisiopatológica com o uso da testosterona é o estímulo à eritrocitose, que leva ao aumento da viscosidade do sangue, podendo contribuir para os fenômenos tromboembólicos.


Mais prejuízos do que benefícios

Portanto, a busca pelo corpo ideal, maior vigor físico e melhor desempenho sexual através do uso de anabolizantes, passa a ser contraditório quando temos conhecimento dos efeitos deletérios destas substâncias em nosso organismo em longo prazo. Nos restringindo a sexualidade, alertamos que o uso pode provocar a perda de libido, infertilidade e outras alterações físicas e mentais não desejadas. 

Referências: 
1- Off-label use and misuse of testosterone, growth hormone, thyroid hormone, and adrenal supplements: risks and costs of a growing problem. Endocrine Practice vol 26 no. 3 march 2020.
2- Compounded Bioidentical Hormones in Endocrinology Practice: An Endocrine Society Scientific Statement. J Clin Endocrinol Metab 101:1318-1343, 2016.

Dr. Emerson Cestari Marino
Médico Endocrinologista
CRM-PR 31.440 - RQE 17.221

Texto revisado pelo DEFA.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Hipogonadismo masculino tardio

Hipogonadismo masculino refere-se a uma síndrome clínica que resulta da incapacidade dos testículos de produzirem concentrações normais de testosterona e/ou de produzirem quantidade adequada de espermatozoides. No homem, os níveis de testosterona, que é o principal hormônio sexual masculino, reduzem com a idade, porém geralmente permanecem dentro do valor de normalidade e não promovem sinais ou sintomas clínicos.

O diagnóstico do hipogonadismo masculino é realizado quando há sinais e sintomas clínicos compatíveis + baixos níveis de testosterona no sangue. O rastreamento de rotina do hipogonadismo masculino na população geral não é recomendado. As dosagens hormonais não devem ser realizadas em homens que estiverem na vigência ou em recuperação de uma doença aguda, ou em uso temporário de medicações que interferem no eixo gonadal 

A coleta de sangue para dosagem de testosterona, quando indicada, deve ser feita entre 7 e 10 horas da manhã em jejum. Em caso de níveis diminuídos, a dosagem deve ser repetida em uma segunda amostra com no mínimo 15 a 30 dias.

Os sinais e sintomas de deficiência de testosterona não são específicos e modificam com a idade, outras doenças, gravidade e duração da deficiência hormonal, características individuais e uso prévio de terapia hormonal com testosterona. Os principais sinais e sintomas são descritos abaixo.

A falta deste hormônio sexual pode ter várias causas e, algumas delas podem ser reversíveis. Entre as causas comuns estão: obesidade, diabetes mellitus, uso de medicamentos, uso de esteroides anabolizantes, doenças específicas e até tumores do sistema endócrino, sendo fundamental não somente tratar a falta do hormônio, como tratar a causa desta falta.

A testosterona tem importância em diversas funções do organismo, além da sexual. A falta ou o excesso deste hormônio podem trazer consequências graves como alterações na produção de glóbulos vermelhos, na força e massa muscular e óssea, além das funções do coração, artéria e veias.

Imagem: Pixabay

Para auxiliar você em suas dúvidas, vou responder a algumas perguntas frequentes:

1 - Qual o nome correto: Andropausa, DAEM ou hipogonadismo tardio?

No homem, diferentemente da mulher, não existe parada da produção de hormônio sexual, portanto o termo “andropausa” não é adequado. Com o envelhecimento ocorre diminuição da produção hormonal podendo, em alguns casos, atingir níveis considerados inadequados e promover sintomas de falta do hormônio masculino. Os termos DAEM (deficiência androgênica do envelhecimento masculino) e hipogonadismo masculino tardio são os mais adequados e frequentemente utilizados na prática clínica. 

2 - Quem precisa dosar a testosterona?

Não se recomenda a dosagem rotineira de testosterona na população geral masculina. Indica-se a investigação naqueles homens com sinais e sintomas de baixos níveis de testosterona como:
- Desenvolvimento sexual atrasado ou incompleto
- Perda de pelos corporais, como axilares e pubianos
- Testículos muito pequenos (geralmente inferiores a 6 ml)
- Redução da atividade e do desejo sexual (libido) 
- Diminuição das ereções espontâneas
- Disfunção erétil
- Aumento do volume mamário (ginecomastia)
- Infertilidade
- Sensação de “calorões” e suor excessivo
- Redução da: energia, motivação, iniciativa e autoconfiança (não justificada por outras causas)
- Sensação de tristeza, mudança de humor e sintomas depressivos persistentes
- Aumento da gordura corporal
- Fraturas ósseas por baixo trauma e redução da densidade mineral óssea
- Redução da massa muscular
Também devem ser avaliados individualmente os pacientes com histórico de uso de medicamentos que possam interferir nos níveis hormonais masculinos como opioides e corticoides e aqueles que suspenderam o uso de esteroides anabolizantes e apresentem sinais e sintomas de falta do hormônio.

3 - Somente a falta de testosterona pode dar estes sintomas?

Não, os sinais e sintomas de deficiência de testosterona não são específicos e a avaliação médica especializada é imprescindível para definir a causa e descartar outras situações como: estresse, problemas no relacionamento e outras doenças ou situações que podem causar os mesmos sintomas.

4 - Se eu não tiver falta de hormônio e usar testosterona, pode fazer mal?

Sim, os estudos específicos têm demostrado que os indivíduos que utilizam testosterona em excesso ou sem necessidade apresentam riscos importantes à saúde, tais como maior risco de: morte, infartos, AVC (derrame), trombose, hepatite por uso de medicamento, reações alérgicas, aumento do tamanho da próstata, redução da produção de espermatozoides, redução do tamanho dos testículos, aumento da oleosidade da pele e acne, roncos e apneia do sono.

5 - Com apenas 1 dosagem de testosterona e sintomas, posso iniciar tratamento?

Não é indicado.
A dosagem de testosterona, como as de outros hormônios, pode sofrer diversas interferências de medicamentos, situações pessoais, estresse e doenças recentes, assim, sempre deve ser repetida antes de tratar. Um simples resfriado pode alterar a dosagem de diversos hormônios e os sintomas da deficiência não são específicos.

6 - Se eu iniciar o tratamento, devo tratar por toda a vida?

Não necessariamente. 
Caso tenha a causa revertida, como por exemplo o controle do diabetes mellitus, a perda de peso ou o controle de um tumor endócrino, existe uma chance grande de seus níveis de testosterona voltarem ao normal e seu médico poderá avaliar a possibilidade de suspender do tratamento. Por isso é imprescindível tratar a causa da falta de hormônio e realizar o acompanhamento corretamente.

7 - Qual o melhor tratamento?

No Brasil, há a disponibilidade de formulações de testosterona em gel para aplicação na pele e de injeções intramusculares com diferentes intervalos de aplicação e duração do efeito. Cada formulação tem a sua indicação e deve ser avaliada de forma rigorosa e individualizada com o seu médico. Não é indicado o uso de testosterona em forma de comprimidos via oral e não é aconselhado o uso das formulações manipuladas. O uso via oral aumenta muito a chance de hepatite por medicamento e a manipulação pode sofrer diversas interferências, sendo recomendadas as formulações já prontas. Alguns casos específicos podem ser utilizados outros medicamentos com efeito no eixo hormonal masculino com o intuito de melhorar a fertilidade e/ou a produção interna da testosterona. Medicações ditas naturais não mostraram benefício claro e segurança no tratamento até o momento e o seu uso deve ser desencorajado.
Não existem implantes aprovados para reposição de testosterona.

8 - A reposição de testosterona interfere na fertilidade?

Sim. Com o uso exógeno de testosterona, existe a possibilidade de diminuição e até mesmo a parada de produção de espermatozoides, que pode ser temporária ou permanente. Caso exista o desejo de fertilidade, o tratamento deve ser discutido com seu médico e optado pela melhor abordagem terapêutica para você. 

Referências:
1- Endocrinologia Feminina e Andrologia – 2ª Edição – Ruth Clapauch – Editora Guanabara Koogan – Rio de Janeiro – 2016
2- Manual de Condutas Práticas em Endocrinologia e Metabologia – Rômulo Augusto dos Santos, Emerson Cestari Marino, Renata Gonçalves Campos – THS Editora – São José do Rio Preto – 2013
Testosterone Therapy in Men With Hypogonadism: An Endocrine Society* Clinical Practice Guideline, J Clin Endocrinol Metab, May 2018, 103(5):1–30

Dr. Emerson Cestari Marino
Médico Endocrinologista
CRM-PR 31.440 - RQE 17.221

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Coronavírus e tireoide

Considerando a pandemia COVID-19 e a procura frequente de informações confiáveis por pacientes e familiares de portadores de doenças tireoidianas, o Departamento de Tireoide da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia sente-se no dever de prestar alguns esclarecimentos, conforme abaixo:



I. Os pacientes com doenças de tireoide devem seguir as mesmas orientações do Ministério da Saúde destinadas à população geral, ressaltando-se a necessidade de manter o bom controle, tanto do hipotireoidismo quanto do hipertireoidismo. Se necessário, recomenda-se procurar auxílio do seu endocrinologista para atualizações necessárias.

II. Pacientes com doenças tireoidianas, como hipotireoidismo ou hipertireoidismo, não fazem parte do grupo de risco para a infecção COVID-19, mesmo se a causa do transtorno for de natureza autoimune, como a tireoidite de Hashimoto e a doença de Graves. Somente se essas condições estiverem descompensadas ou não tratadas é que devemos procurar um médico.

III. O tratamento do hipotireoidismo e do hipertireoidismo não deve sofrer nenhuma alteração no caso de contágio com o coronavírus. Recomenda-se que os pacientes mantenham o uso de seus medicamentos e atualizem as medidas de controle clínico, de acordo com as orientações do seu médico.

IV. Nos casos de maior gravidade, em que for necessária a internação hospitalar, é importante que a equipe médica responsável seja informada sobre o tratamento utilizado, com nome e doses dos medicamentos em uso.

V. Referente aos pacientes com Câncer de Tireoide, a maioria (aqueles tratados com cirurgia seguidos ou não de terapia com iodo radioativo e sem doença ativa) não está no grupo de risco para gravidade da infecção COVID-19 e não necessita de nenhum cuidado adicional referente às medidas de proteção ao contágio da infecção, além das orientações do Ministério da Saúde e/ou de outras autoridades competentes previamente divulgadas à população.

VI. Pacientes com Câncer de Tireoide avançado, com metástases para outros órgãos, especialmente aos pulmões, ou em uso de medicamentos específicos para o câncer (sorafenibe, lenvatinibe, vandetanibe) podem apresentar maior risco para a gravidade da infecção, tanto pela extensão da doença quanto pelos possíveis efeitos adversos dos medicamentos. Esses pacientes devem tomar mais cuidado, manterem o isolamento social e seguirem todas as demais medidas já divulgadas pelas autoridades competentes para pessoas de alto risco. Recomendamos ainda, que entrem em contato com seu médico para uma orientação individualizada.

VII. Neste momento de aflição e sofrimento coletivo, é importante mantermos a calma, a serenidade e o otimismo. Projetos de vida devem ser mantidos, embora temporariamente adiados. Estaremos mais seguros se seguirmos as orientações das autoridades e profissionais da saúde. Estabeleçam rotinas diárias em casa, mantenham atividade física mínima, alimentação saudável e evitem bebidas alcoólicas.

Prof. Dr. José Augusto Sgarbi
Presidente do Departamento de Tireoide
Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia 

domingo, 22 de março de 2020

Diabetes e a pandemia de COVID-19

A pandemia do novo coronavírus (SARS-CoV-2), o agente causador da doença COVID-19, começou na China, em dezembro de 2019, por provável consumo de animais silvestres. Fatos que demandaram atenção especial das autoridades de saúde mundiais foram a rápida disseminação e a evolução dos surtos iniciais, com 13,8% de casos graves e 6,1% de casos críticos (1).



Dada a alta taxa de transmissibilidade do novo coronavírus e o impacto da COVID-19 nos sistemas de saúde, informar adequadamente a população sobre as medidas de contenção da doença é urgentemente necessário, particularmente, as pessoas dos grupos de risco que têm propensão de evoluir gravemente e com maior chance de óbito. É o caso de pessoas acima de 60 anos (sobretudo idosos com mais de 80 anos), com doenças crônicas (especialmente o diabetes e a hipertensão arterial), imunocomprometidas e gestantes (2).

Em relação ao diabetes e à pandemia de COVID-19, ressaltam-se as seguintes informações (3,4):

Pessoas com diabetes não parecem apresentar risco aumentado de contrair o novo coronavírus. Entretanto, uma vez infectado, quem tem diabetes tem mais chance de complicações graves de COVID-19, incluindo maior risco de morte;
O risco de agravamento de COVID-19 está aumentado tanto para o diabetes tipo 1 (DM1) quanto para o tipo 2 (DM2);
Contudo, o bom controle da glicose pode atenuar o risco de complicações na pessoa com diabetes;
Assim, seja DM1 ou DM2, o risco de agravamento relaciona-se à maior idade e tempo de duração da doença, estado do controle metabólico, presença de doenças como hipertensão arterial e complicações do diabetes, especialmente doença renal – a COVID-19 pode causar insuficiência renal independentemente de diabetes (1);
Vale ressaltar que pessoas com DM1 podem ter outras doenças imunológicas, como artrite reumatoide, que adiciona um estado de maior comprometimento da função imune.

Como enfaticamente tem sido recomendado pelas autoridades de saúde e seguindo os exemplos de outros países, o isolamento social é essencial para conter a epidemia do novo coronavírus:

É fundamental ficar em casa, evitando contato físico com outras pessoas e reduzindo o número de saídas ao mínimo possível e ao estritamente necessário; 
Orientar pessoas idosas para pedir ajuda a familiares ou amigos para compras e outras tarefas;
Deve-se evitar multidões ou aglomerados e, especialmente, contato com pessoas doentes ou com sintomas respiratórios.

Sobre higienização:

Lavar frequentemente as mãos e a face com água e sabão ou higienizar as mãos com álcool gel 70% regularmente é importante para evitar a propagação do novo coronavírus – não comprar produto sem certificação;
Recomenda-se também não partilhar comida, nem utensílios de uso pessoal, se tiver com quadro suspeito;
Máscaras devem ser usadas apenas por pessoas com sintomas, como coriza, espirros ou tosse;
Ao tossir ou espirrar, cubra o nariz e a boca com lenço ou com o braço (não utilize as mãos);
Se você estiver apresentando sintomas gripais leves (mal-estar, coriza, espirros e tosse), mantenha o isolamento social em domicílio por 14 dias e reagende a sua consulta de rotina ou verifique a possibilidade de orientação por telemedicina (telefone, WhatsApp, vídeo, Skype);
Entretanto, se estiver apresentando desconforto respiratório (dificuldade para respirar), busque assistência hospitalar e contacte os centros de referência da sua cidade;

Em relação a medicamentos (5-7): 

Não utilize anti-inflamatório nem corticoide para controle de sintomas de COVID-19. Usar essas medicações pode piorar a função renal e o controle da glicose (5);
Outros medicamentos, como ibuprofeno, foram recentemente liberados para uso pela Organização Mundial de Saúde, mas o Ministério da Saúde mantém a recomendação de usar outra opção como analgésico (5-7);
Não altere suas medicações para tratar o diabetes e não suspenda o uso de medicamentos para a pressão arterial sem orientação médica (7);
Não há, até o momento, nenhuma recomendação para usar o medicamento hidroxicloroquina para prevenir ou tratar COVID-19. Portanto, não faça automedicação e não estoque em casa, pois haverá prejuízo para as pessoas que realmente precisam, como pacientes com lúpus e artrite reumatoide (8).

Faça a sua parte! O isolamento será necessário para que você possa se reunir com a família e amigos ainda mais forte e saudável, em breve!

Referências:
1- Organização Mundial de Saúde (OMS). Report of the WHO-China Joint Mission on Coronavirus Disease 2019 (COVID19). 2020. Disponível em: <https://www.who.int/docs/default-source/coronaviruse/who-china-jointmission-on-covid-19-final-report.pdf>.
2- European Centre for Disease Prevention and Control. Information on COVID-19 for specific groups: the elderly, patients with chronic diseases, people with immunocompromising condition and pregnant women.  Publicado em 13/03/2020. Disponível em: <https://www.ecdc.europa.eu/en/news-events/information-covid-19-specific-groups-elderly-patients-chronic-diseases-people>.
3- Sociedade Portuguesa de Diabetologia, Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo, Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar. Documento de consenso e abordagem do doente diabético integrado no plano nacional de preparação e de resposta para a doença por coronavírus (COVID-19). Publicado em 14/03/2020. Disponível em: <https://www.spmi.pt/nedm-diabetes-covid-19/>.
4- American Diabetes Association. COVID-19 (Coronavirus). 2020. Disponível em: <https://www.diabetes.org/diabetes/treatment-care/planning-sick-days/coronavirus>.
5- Day M. Covid-19: ibuprofen should not be used for managing symptoms, say doctors and scientists. BMJ 17 March 2020;368:m1086.
6- Ministério da Saúde – Twiter/@minsaude. Publicado em 17/03/2020.
7- Sociedade Brasileira de Diabetes. Disponível em: <https://www.diabetes.org.br>.
8. Empresa Brasil de Comunicação. ANVISA alerta sobre uso de hidroxicloroquinina e cloroquina. 2020. Disponível em: <https://agenciabrasil.ebc.com.br>.

Dr. Wellington Santana da Silva Júnior 
Médico Endocrinologista, Doutor em Ciências
Professor Adjunto do Curso de Medicina da UFMA
Presidente da CVNL da SBEM 2019/2020
CRM-MA 5188 - RQE 2739

Colaboração
Departamento de Diabetes / Departamento de Campanhas – SBEM 2019/2020

terça-feira, 17 de março de 2020

Quais as possíveis causas do hipotireoidismo?

hipotireoidismo - diminuição da secreção de hormônio pela tireoide - pode ter diversas causas. Vamos conhecê-las:


Imagem: MedicalGraphics

Tireoidite autoimune crônica

Também conhecida como tireoidite de Hashimoto, é a principal causa de hipotireoidismo. Nesta doença o nosso sistema imunológico ataca indevidamente a tireoide causando sua destruição e, consequentemente, diminuição progressiva na produção hormonal.


Iatrogênico

Algumas vezes o tratamento de outras doenças acaba afetando a produção hormonal da tireoide. Por exemplo, um paciente que recebe indicação de cirurgia tireoidiana por nódulos que causam sintomas compressivos pode necessitar de reposição hormonal após o procedimento.
Também podem desenvolver hipotireoidismo pacientes que fazem tratamento de HIPERtireoidismo com iodo radioativo, ou que precisam fazer radioterapia na região da cabeça e pescoço.


Deficiência ou excesso de iodo

Nossa tireoide usa iodo para produzir o T4 e o T3 (hormônios tireoidianos). Deficiência - pouco comum no Brasil - ou excesso de iodo podem desregular a produção hormonal e induzir hipotireoidismo.
O uso de gotas de lugol ou solução SSKI por serem extremamente concentradas em iodo muitas vezes acabam desencadeando quadros de hipotireodismo em pessoas predispostas através da inibição do organificação do iodo (efeito Wolff-Chaikoff).


Medicamentos

Alguns medicamentos podem desencadear hipotireoidismo por diversos mecanismos. Destacam-se: tionamidas (propiltiuracil e metimazol), lítio, amiodarona, interferon alfa, interleucina 2, inibidores da tirosina quinase e alguns imunoterápicos (estes dois últimos são usados no tratamento de alguns tipos de câncer).


Doenças infiltrativas

Hemocromatose, tireoidite fibrosante e sarcoidose, felizmente, são causas raras de hipotireoidismo.


Hipotireoidismo transitório

Em algumas situações o quadro de hipotireoidismo é autolimitado, isto é, melhora sem tratamento após período de tempo variável.
As tireoidites silenciosa, subaguda e pós-parto são doenças que lesam o tecido tireoidiano. Como consequência, os estoques hormonais são liberados na corrente sanguínea causando HIPERtireoidismo no início do quadro. Após alguns dias ou semanas, os níveis hormonais caem e se instala o HIPOtireoidismo, que costuma ir melhorando a medida que a tireoide recupera sua capacidade de produção hormonal.


Hipotireoidismo congênito

Algumas crianças já nascem com hipotireoidismo. Má formação da tireoide ou defeitos na produção hormonal são possíveis causas. Felizmente, o teste do pezinho detecta precocemente estes casos, permitindo que o tratamento seja precoce e que se evite sequelas como retardo mental.


Hipotireoidismo central e resistência generalizada aos hormônios tireoidianos

São as causas mais raras de hipotireoidismo. No hipotireoidismo central, a hipófise ou o hipotálamo não enviam a ordem (TSH ou TRH) para que a tireoide produza seus hormônios.
Já na resistência generalizada aos hormônios tireoidianos, a tireoide costuma produzir níveis elevados de hormônios. Porém os receptores hormonais localizados nos diferentes tecidos não funcionam direito. É como se a chave (T4 e T3) não encaixasse na fechadura (células do nosso organismo).

Referência:
1- Ross DS. Disorders that cause hypothyroidism. UpToDate.

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Doutor e Mestre em Endocrinologia pela UFRGS
CRM-RS 30.576 - RQE 22.991

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Texto revisado pelo Departamento de Tireoide.

quarta-feira, 11 de março de 2020

Vitamina D e coronavírus (COVID-19)

Desde tempos remotos, aproveitadores usam o medo e o pânico para tirarem vantagem. Surtos e epidemias, como a do coronavírus (COVID-19), são um prato cheio para charlatões. Em meio à desinformação, maus profissionais oferecem tratamentos sem evidência de eficácia, fúteis e até mesmo deletérios, com a única pretensão de lucrar.


É verdade que existem evidências experimentais de que a vitamina D possa ter efeito modulatório sobre o sistema imunológico. Células de defesa, como macrófagos e linfócitos, expressam receptores para vitamina D. Além disso, existe a hipótese de que a diminuição nos níveis de vitamina D, que acontece nos meses de inverno, poderia explicar o aumento no número de infecções respiratórias virais. Porém, defender o uso de vitamina D como estratégia de prevenção ao coronavírus ainda é um grande equívoco! Explico...
Em 2017, o British Medical Journal publicou uma revisão de 25 estudos sobre o uso do vitamina D como estratégia de prevenção de doenças respiratórias agudas. No total, foram avaliados mais de 10.000 pacientes. O uso de vitamina D reduziu em 1,9% a incidência de infecções, especialmente naqueles com níveis basais abaixo de 10 ng/mL. No entanto, o uso da vitamina D não foi capaz de reduzir eventos adversos graves como pneumonias, necessidade de hospitalização ou morte. Esse estudo é frequentemente citado pelos enganadores, que o interpretam de forma equivocada ou tendenciosa. Vamos por partes...
O uso da vitamina D não foi 100% eficaz. Aliás, ficou bem longe disso! Para cada 52 pacientes que fizeram uso do tratamento, apenas 1 se beneficiou. E esse benefício se restringiu a sintomas leves como coriza, tosse e febre. Outro detalhe: o uso de doses de ataque ou megadoses, frequentemente oferecidas pelos picaretas, não foi tão eficaz quanto a suplementação diária em doses habituais.
Vale ressaltar que o uso da vitamina D ainda não foi estudado no contexto da epidemia do coronavírus. Logo, os resultados do estudo acima não podem ser extrapolados para essa condição específica. Não podemos afirmar que a vitamina D possa ajudar, ou mesmo que possa fazer mal neste contexto. Por isso, seu uso não é recomendado.
Pesquisadores sérios estão testando antivirais e vacinas contra o COVID-19 neste momento. Até que tenhamos os resultados destes estudos, as melhores estratégias de prevenção são evitar o contato com pessoas doentes, lavar as mãos e manter medidas de higiene respiratória (como cobrir a boca ao tossir). Vitamina D ainda não é (e talvez nunca seja) uma opção para o tratamento do COVID-19!

Referências:
1- World Health Organization. Director-General's remarks at the media briefing on 2019-nCoV on 11 February 2020. https://www.who.int/dg/speeches/detail/who-director-general-s-remarks-at-the-media-briefing-on-2019-ncov-on-11-february-2020 (Accessed on February 12, 2020).
2- Martineau AR, Jolliffe DA, Hooper RL, et al. Vitamin D supplementation to prevent acute respiratory tract infections: systematic review and meta-analysis of individual participant data. BMJ 2017; 356:i6583.
3- Martineau AR, Jolliffe DA, Greenberg L, et al. Vitamin D supplementation to prevent acute respiratory infections: individual participant data meta-analysis. Health Technol Assess 2019; 23:1.

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Doutor e Mestre em Endocrinologia pela UFRGS
CRM-RS 30.576 - RQE 22.991

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Incongruência de gênero - terapia hormonal no transgênero feminino (male to female – MTF, mulher transgênero)

Para a boa compreensão deste texto, é importante a compreensão dos seguintes termos:
1- Identidade de gênero: a percepção do indivíduo em sentir-se pertencente ao gênero masculino, feminino ou de nenhum (gênero não binário).
2- Sexo biológico: determinado ao nascimento em função do aspecto da genitália externa ou pelo sexo cromossômico (masculino, feminino ou intersexo) 
3- Expressão do gênero: como o indivíduo expressa seu gênero no mundo real, por meio da forma de agir, de se vestir, de se comportar.
4- Incongruência ou disforia de gênero: desconforto ou sofrimento que pode ocorrer quando existe uma incompatibilidade entre o sexo determinado ao nascimento e o gênero de identificação.
5- Orientação sexual: relaciona-se ao desejo sexual, atração física (homossexual, heterossexual, bissexual ou assexual). 
6- Mulher transgênero: indivíduo com sexo biológico masculino que se identifica com o gênero feminino.
7- Homem transgênero: indivíduo com sexo biológico feminino que se identifica com gênero masculino.
8- Cisgênero: Quando existe congruência entre o sexo biológico e o de identificação.

Imagem: Joint Base San Antonio

Após o diagnóstico apropriado da incongruência de gênero e discussão dos riscos e benefícios do tratamento, a mulher transgênero poderá iniciar a terapia hormonal com o endocrinologista. O tratamento consiste basicamente na supressão dos androgênios produzidos pelos testículos e administração de estrogênio, com a pretensão de tornar este corpo mais feminino e com níveis hormonais mais próximos daqueles encontrados nas mulheres cisgênero em fase reprodutiva. Desta forma, podemos perceber redução do crescimento dos pelos corporais, da oleosidade da pele, da produção de espermatozoides, aumento do volume mamário, redistribuição da gordura corporal com aumento do depósito em regiões como os quadris e redução da massa muscular. Vamos entender, passo a passo, como funciona.

A terapia hormonal com estrogênios usualmente é feita através da administração de 17ß estradiol por via oral ou transdérmica. O 17ß estradiol é especialmente útil por permitir que os níveis no sangue sejam monitorados, além de apresentar menor risco de trombose, quando comparado ao etinilestradiol (este, não recomendado). A terapia com estrogênio, além de ser responsável pelas mudanças corporais desejadas pela mulher transgênero, também é capaz de suprimir a produção de androgênios. A administração do 17 ß estradiol sozinha já é capaz de inibir a produção das gonadotrofinas (LH e FSH), assim diminuindo a produção de testosterona pelos testículos. A paciente é monitorada regularmente para que os níveis de estradiol sejam mantidos entre 100-200 pg/mL de testosterona, abaixo de 50 ng/dL. Em grande parte dos casos, além do uso de estrogênios, também são usados medicamentos para inibir a secreção ou a ação dos androgênios. Para "combater" os androgênios, cujo principal é a testosterona, temos à disposição como primeira linha de tratamento a espironolactona e a ciproterona. A espironolactona é um antagonista estruturalmente semelhante aos progestógenos. Ela compete com a diidrotestosterona no receptor androgênico, inibindo a 5 α-redutase e, também, compete com o androgênio na ligação à SHBG (Globulina Ligadora dos Hormônios Sexuais). Desta forma é capaz de bloquear tanto a produção quanto a ação da testosterona. Também, pode ter uma pequena atividade estrogênica. Já a ciproterona tem efeito de suprimir a produção de gonadotrofinas, devido ao seu efeito progestágeno, além de bloquear a ação dos androgênios. Como segunda linha, temos os agonistas do GnRH, medicamentos injetáveis e de alto custo, que inibem a produção do FSH/LH e consequentemente de testosterona. Estas modalidades de tratamento podem ser usadas enquanto a paciente ainda tiver os testículos. O uso da progesterona para desenvolvimento mamário ainda é controverso, não sendo advogado por falta de evidências na literatura. 

Os efeitos esperados da terapia hormonal da mulher transgênero são:

Pelos (início do efeito em 3 a 6 meses - efeito máximo a partir de 3 anos): alguns pelos como os da barba podem ser resistentes à terapia hormonal, necessitando do uso de medidas complementares como o laser.

Mamas (início do efeito em 3 a 6 meses - efeito máximo em 2 a 3 anos): pode haver queixa de aumento da sensibilidade durante o desenvolvimento mamário. A adequada inibição dos androgênios potencializa o efeito do 17 ß estradiol. As pacientes precisam participar de exames de rastreamento de câncer de mama como qualquer mulher.

Pele (início do efeito em 3 a 6 meses): com o tratamento a pele costuma ficar menos oleosa e mais macia. 

Composição corporal (início do efeito em 3 a 6 meses - efeito máximo em 1 a 3 anos): é esperada uma redução no volume e na força muscular com acúmulo de gordura nos quadris, tornando as medidas corporais mais femininas.

Voz: as alterações da voz são praticamente imperceptíveis com o tratamento. A paciente deve ser aconselhada a fazer terapia da fala com fonoaudiólogo ou se submeter a procedimento cirúrgico nas cordas vocais.

Testículos e próstata (início do efeito em 3 a 6 meses - efeito máximo com muitos anos): o tratamento leva a atrofia progressiva dos testículos e redução do volume da próstata. Logo, pacientes que desejem manter a fertilidade devem ser devidamente aconselhados antes do início do tratamento. Paciente que permanecem com a próstata também devem fazer exames periódicos de prevenção como qualquer paciente do sexo masculino.

Função sexual (início do efeito em 1 a 3 meses - efeito máximo em 3 a 6 meses): a terapia hormonal da mulher transgênero leva a redução da libido, das ereções e da ejaculação em graus variados. Algumas pacientes, que desejam manter a função sexual, precisam ter as doses da terapia ajustadas. Nas pacientes que fazem cirurgia genital, a função sexual é variável e dependente da função sexual antes do procedimento, do tipo da cirurgia realizada e dos níveis hormonais.

Por fim, o acompanhamento regular com endocrinologista familiarizado com este tipo de tratamento deve ser frequente e regular para que se evite consequências tanto do excesso quanto da deficiência hormonal, tais como: problemas na libido, fragilidade óssea, aumento no risco de trombose ou mesmo de câncer.

Fonte: 
1- Hembree WC, Cohen- Kettenis PT, Gooren L et al. Endocrine Treatment of Gender-disforic/Gender-Incongruence Persons: An Endocrine Society Clinical Practice Guidelines. J Clin Endocrinol Metab 2017; 102:3869-3903. 

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Doutor e Mestre em Endocrinologia pela UFRGS
CRM-RS 30.576 - RQE 22.991

Texto revisado pelo Departamento de Endocrinologia Feminina e Andrologia.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Rastreamento do diabetes: quando é apropriado fazer o exame

Por que pessoas sem sintomas precisam fazer exames diagnósticos para diabetes?

Entende-se por rastreamento, a procura ativa de uma doença em pessoas ainda sem sintomas. Para que um agravo de saúde mereça ser rastreado, deve preencher os seguintes requisitos:
- ser um problema de saúde pública;
- ter um período inicial assintomático;
- ter um exame diagnóstico fácil e barato;
- ter tratamento apropriado;
- existir evidência de que o tratamento precoce diminua complicações.
O diabetes mellitus tipo 2 preenche todos estes critérios.

Imagem: Flickr

Quem é candidato aos exames?

Pelos menos um em cada 9 brasileiros tem diabetes e muitos desconhecem o diagnóstico apesar dos exames serem baratos e estarem disponíveis da rede pública, por não apresentarem sintomas.
Os exames para o diagnóstico do diabetes tipo 2 são a dosagem da glicemia em jejum, o teste de tolerância oral à glicose e a hemoglobina glicada e estão recomendados para qualquer pessoa com 45 anos ou mais, além das pessoas com fatores de risco. Estes são:
- sobrepeso (IMC maior ou igual a 25 kg/m2);
- familiares de primeiro grau com diabetes;
- sedentarismo;
- etnias afrodescendente ou indígena;
- ter dado a luz a bebê com mais de 4,1 kg;
- pressão alta;
- colesterol HDL baixo e triglicerídeos elevados;
- exames de glicemia e hemoglobina glicada previamente elevados;
- síndrome dos ovários policísticos;
- ter tido doenças vasculares com infarto ou isquemias;
- presença de acanthosis nigricans.


Como é feito o diagnóstico de diabetes?

Quando a glicemia em jejum é 126 mg/dL ou mais, o teste de tolerância oral a glicose é 200 mg/dL ou mais ou a hemoglobina glicada 6,5% ou mais, o exame deve ser repetido. Confirmado os valores elevados, o paciente recebe o diagnóstico de diabetes mellitus e recebe o seguimento apropriado. Quando dois destes exames estão alterados ao mesmo tempo, o diagnóstico também está confirmado. 
Glicemia em jejum menor que 100 mg/dL, teste de tolerância a glicose menor que 140 mg/dL e hemoglobina glicada menor de 5,7% são considerados normais e o paciente deve ser novamente rastreado dentro de 3 anos.
O testo oral de tolerância à glicose deve ser feito com a ingestão de solução padronizada contendo 75 gramas de glicose. A dosagem da glicemia pós prandial, comumente solicitada, não serve para diagnóstico de diabetes.

Existe ainda uma faixa de valores intermediários para estes exames. Os pacientes que se enquadram nesta categoria têm risco aumentado para o diabetes, isto é, pré-diabetes, e devem perder peso além de mudar seus hábitos de vida para evitar a doença. Neste caso, os exames devem ser repetidos dentro de no máximo um ano.

Referência:
1- McCulloch DK, Hayward RA. Screening for type 2 diabetes mellitus. UpToDate.
2- Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes 2019-2020.

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Doutor e Mestre em Endocrinologia pela UFRGS
CRM-RS 30.576 - RQE 22.991

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Vale a pena usar hormônios ditos “bioidênticos”?

Nada de novo

Alguns conceitos básicos de como funciona o sistema capitalista podem nos ajudar a entender melhor a “questão dos hormônios bioidênticos”. Imagine que você queira entrar no extremamente concorrido mercado farmacêutico. Seu capital inicial é pequeno tanto para produção quanto para desenvolvimento de novas moléculas. Com pouco dinheiro, é mais sensato investir em substâncias consagradas e que não sejam protegidas por patentes. Espertamente você escolhe alguns hormônios esteroides, o estradiol e a testosterona. Porém, substâncias pouco inovadoras costumam ser amplamente comercializadas por mais de uma empresa. Quando a oferta de um produto é ampla, seu preço despenca. Mas você não está disposto a ganhar pouco. Como diferenciar seus produtos dos demais? Marketing! E pior, marketing não ético! Estratégia infelizmente muito comum em diversos ramos no mercado…

Imagem: Flickr


Jogada de marketing

O termo “hormônio bioidêntico” é uma jogada de markentig! Essa expressão foi cunhada para soar de forma mais suave que “quimicamente biossimilar” ou “quimicamente idêntico” ao hormônio encontrado na natureza ou que circula no nosso organismo. A geração das pessoas nascidas nas décadas de 1960 e 1970, também conhecidas como “geração granola”, tende a interpretar que coisas ditas “naturais” são boas e coisas ditas “sintéticas” são más. Muitas mulheres dessa geração estão agora enfrentando algum sintoma do período perimenopausa. Conhecendo o potencial mercado consumidor, fica fácil de entender a sacada do “hormônio bioidêntico que é mais natural, igualzinho ao que circula no meu organismo”, não é? Outro ponto propagado é que seria um hormônio “customizado” de acordo com a necessidade de cada paciente. Mas não se engane! Os hormônios ditos “bioidênticos”, representados principalmente por esteroides (estradiol, testosterona, DHEA, progesterona e mesmo a vitamina D), são produzidos pela mesma indústria farmacêutica que fabrica os hormônios convencionais. Aliás, no mundo todo, devem existir apenas 6 ou 7 empresas capazes de produzir estes tipos de substâncias em grande quantidade dentro de um padrão de qualidade minimamente aceitável.


Dúvidas quanto ao perfil de segurança

Mas se a grande maioria dos hormônios convencionais também são iguais ao que nosso corpo produz por que os endocrinologistas se preocupam tanto com os “hormônios bioidênticos”? Por um motivo muito importante: segurança.
O problema é que os ditos “hormônios bioidênticos” costumam ser manipulados ou colocados em implantes. A manipulação de uma substância por si só não é o ponto crucial.  O problema é a prescrição de doses e combinações não avaliadas em estudos clínicos, isto é, com perfil de segurança desconhecido, ou pior, já avaliadas nos mesmos estudos e com perfil de segurança deletério. Quando compramos qualquer medicamento em uma farmácia, ao abrirmos a caixinha, encontramos uma bula. A bula é um documento importante. Nela estão contidas as indicações, doses, interações e perfil de efeitos adversos daquela substância. Para possuir uma bula, o medicamento precisa ter passado por estudos clínicos e estar devidamente registrado nas agências regulatórias, no caso do Brasil, a ANVISA.


Modismo potencialmente prejudicial

A “moda dos bioidênticos” não é coisa nova. Outros países, especialmente os Estados Unidos através do FDA, sua agência regulatória, têm se mostrado preocupados com os possíveis riscos associados ao seu uso. A forma mais apropriada de garantir um tratamento seguro, barato e “natural” ainda é procurando profissionais sérios e com amplo conhecimento.
As modas passam, mas complicações de tratamentos indevidos podem ficar pra sempre…

Fonte: 
1- Bioidentical Hormone Therapy: Whats Is It, Might It Have Advantages? – Medscape.
2- Santoro N, Braunstein GD, Butts CL, et al. Compounded Bioidentical Hormones in Endocrinology Practice: An Endocrine Society Scientific Statement. J Clin Endocrinol Metab 2016; 101:1318-1343. Reissued October 2, 2019.

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Doutor e Mestre em Endocrinologia pela UFRGS
CRM-RS 30.576 - RQE 22.991

Texto revisado pelo Departamento de Endocrinologia Feminina e Andrologia.

Hipertireoidismo durante a gravidez

Doença pouco frequente em gestantes O hipertireoidismo é o estado de hiperfuncionamento da glândula tireoide, isto é, de produção aumentada ...