segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Dieta da tireoide – dá pra engolir?

O que comemos ou deixamos de comer tem impacto na nossa saúde

“Que teu alimento seja teu remédio”. Atire a primeira pedra quem nunca viu esta frase atribuída a Hipócrates sendo usada em uma rede social para justificar os mais variados tipos de dietas. É verdade que bons hábitos alimentares auxiliam bastante na prevenção e no tratamento de doenças. Obesidade, diabetes mellitus, hipertensão arterial e até mesmo o câncer estão entre elas. Talvez por isso, sempre que um paciente é diagnosticado com qualquer problema na tireoide, vem a pergunta: “O que eu devo comer ou deixar de comer para ajudar no tratamento?” Que orientações o endocrinologista costuma fazer quando recebe este tipo de questionamento?

Imagem: Wikipedia

Iodo

A tireoide usa iodo para produzir seus hormônios. De cara, já dá pra perceber que na deficiência deste micronutriente, a produção hormonal pode diminuir. Isto é, a baixa ingesta de iodo pode ser causa de hipotireoidismo.
Precisamos de uma alimentação que nos forneça 150 mcg de iodo todos os dias. Gestantes e mulheres amentando, precisam um pouco mais. A principal fonte de iodo alimentar é o sal de cozinha, seguido por frutos do mar e de alguns pães e cereais. No Brasil, toda dona de casa tem acesso ao sal iodado. Logo, para nós brasileiros, o hipotireoidismo por deficiência de iodo não é uma doença prevalente. Entre as poucas pessoas que apresentam maior risco de deficiência de iodo estão os veganos, especialmente se além da restrição de produtos de origem animal, também restringirem sal.
Se por um lado, a deficiência é um problema, o excesso é igualmente prejudicial à saúde. Em pessoas predispostas, o iodo a mais pode desencadear quadros tanto de hiper quanto de hipotireoidismo. Por isso, suplementos como o lugol ou o SSKI costumam fazer mais mal do quem bem à saúde.
E quanto a couve e a soja? Dá pra comer à vontade? Existe um grupo de substâncias conhecidas como goitrogênicas, isto é, com potencial de causar bócio (aumento da tireoide). Os exemplos alimentares mais comuns são os vegetais crucíferos (família da couve) e os produtos derivados da soja.


Crucíferas

Os vegetais crucíferos, que pertencem ao gênero Brassica, incluem couve, brócolis, couve-flor, couve-de-bruxelas e repolho entre outros. São ricos em glicosinolatos, compostos que produzem sulforafano e isotiocianatos, substâncias com propriedades anticancerígenas. Porém, os glicosinolatos também incluem o metabólito tiocinato, que é capaz de inibir a síntese de hormônio tireoidiano. Ou seja, teoricamente, o consumo excessivo desses vegetais poderia causar hipotireoidismo.
Felizmente, na prática, o consumo de crucíferas precisa ser enorme para causar disfunção tireoidiana. Em um estudo, o consumo de 1 litro de suco de couve por dia por 7 dias diminuiu a captação de iodo em cerca de 2% sem efeito significativo nos níveis hormonais (2). Em um relato de caso, uma senhora chinesa de 88 anos, que consumiu cerca de 1,5 kg de acelga por dia por vários meses, acabou entrando em coma pelo hipotireoidismo (3). Exemplo extremo! O consumo moderado não tem impacto significativo no funcionamento da tireoide.


Soja

As isoflavonas, encontradas nos derivados de soja, podem inibir a atividade da enzima peroxidase tireoidiana, atrapalhando a síntese hormonal. Mais uma vez, teoricamente, a ingestão de grandes quantidades de derivados de soja poderia causar hipotireoidismo. Mas não é o que vemos na prática. Mesmo populações que consomem muita soja, como os asiáticos, não apresentam maior risco de hipotireoidismo (4).


Selênio

Por fim, existem alguns estudos associando níveis baixos de micronutrientes (selênio, cobre, zinco e magnésio) a doenças autoimunes e ao câncer de tireoide. No entanto, até o momento, não existe evidência mostrando que a suplementação com estes minerais seja capaz de prevenir ou tratar doenças tireoidianas. Exceção para o uso do selênio na doença ocular leve associada a casos de hipertireoidismo (orbitopatia de Graves) (5).


Não existe padrão alimentar específico para prevenir ou tratar doenças da tireoide

Em resumo, frente à evidência atual, apesar de algumas substâncias e nutrientes terem alguma importância na fisiologia tireoidiana, não podemos afirmar que exista um padrão alimentar específico para prevenir ou tratar doenças da tireoide. Em situações muito específicas – gestante vegana, por exemplo –, ajustes na alimentação ou suplementação podem ter algum impacto, embora  não existam estudos robustos avaliando a custo-efetividade deste tipo de estratégia. Se você apresentou alteração em exames tireoidianos, antes de aderir à qualquer dieta ou fazer uso de suplementos, procure um bom endocrinologista. Felizmente, na maioria das vezes, o tratamento é simples e não exige modificação nos hábitos alimentares. 

Fontes:
1 - Leung AM. The Thyroid Diet: Is There Such a Thing? Medscape.
2 - Kim SSR, He X, Braverman LE, Narla R, Gupta PK, Leung AM. Letter to the Editor. Endocr Pract.  2017; 23(7):885-886.
3 - Chu M, Seltzer TF. Myxedema coma induced by ingestion of raw bok choy. N Engl J Med.  2010; 362(20):1945-6.
4 - Messina M, Redmond G. Effects of soy protein and soybean isoflavones on thyroid function in healthy adults and hypothyroid patients: a review of the relevant literature.
Thyroid.  2006; 16(3):249-58.
5 - Marcocci C, Kahaly GJ, Krassas GE, Bartalena L, Prummel M, Stahl M, Altea MA, Nardi M, Pitz S, Boboridis K, Sivelli P, von Arx G, Mourits MP, Baldeschi L, Bencivelli W, Wiersinga W. Selenium and the course of mild Graves' orbitopathy. N Engl J Med.  2011; 364(20):1920-31.

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Doutor e Mestre em Endocrinologia pela UFRGS
CRM-RS 30.576 - RQE 22.991

Texto revisado pelo Departamento de Tireoide.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Termogênicos - vale a pena investir?

Termogênicos prometem...

Os termogênicos, também conhecidos como “fat burners”, são substâncias que alegam propriedades auxiliadoras no processo de emagrecimento. As suas possíveis ações descritas são:
a) aumento da lipólise (quebra das moléculas de gordura);
b) aumento do metabolismo basal (maior gasto energético);
c) desenvolvimento do tecido adiposo marrom (considerado um tecido que aumenta o consumo de energia);
d) redução da resistência insulínica (reduzindo risco de diabetes);
e) redução da lipogênese (redução do acumulo de moléculas de gordura), entre outras.



...porém, não cumprem.

Através de distintas vias metabólicas, essas diversas ações aconteceriam. As explicações bioquímicas muitas vezes são lógicas e fazem todo o sentido. O grande problema é que essas informações são obtidas, na imensa maioria, de modelos experimentais (células isoladas ou animais). Os resultados favoráveis em seres humanos, quando existentes,  costumam ser pífios e em pequeno numero de indivíduos.
Não existe, hoje, evidência científica suficiente que nos habilite a recomendar o uso de termogênicos como uma abordagem efetiva e segura na obesidade.


Efeitos adversos podem ocorrer

Outro grande problema consiste na própria segurança dos produtos em si. Muitas formulações termogênicas (os chamados blends ou pré-treinos) são constituídos por um conjunto de inúmeras substâncias. É frequente a incerteza quanto a totalidade dos componentes presentes e de suas concentrações. Dessa forma, o risco de toxicidade e interações químicas é imprevisível.
Casos de arritmia cardíaca, taquicardia, crises de pânico, ansiedade, crises hipertensivas e até morte súbita já foram descritos com o uso de termogênicos. Também já foram relatados a presença de contaminantes biológicos e químicos com potencial de nefro e hepatotoxicidade elevados.  E, consequentemente, com alto risco de letalidade.


Termogênicos  não têm função no tratamento da obesidade

Infelizmente, o consumo de termogênicos apresenta um crescimento preocupante entre a população brasileira. A busca pela “solução mágica rápida e efetiva”. A procura da “bala de prata” para a obesidade pode seduzir. Precisamos advertir que a obesidade é um grave problema de saúde pública. É uma patologia crônica, progressiva e que precisa ser tratada com seriedade.
Procure um profissional endocrinologista qualificado. Saiba como no vídeo explicativo: https://youtu.be/W4kzNHOMc54

Dr. Fúlvio Clemo Santos Thomazelli
Medico Endocrinologista
CRM-SC 7031 - RQE 12343
Vice-presidente SBEM SC
Membro da CTEEE da SBEM

Texto revisado pela Comissão Temporária de Endocrinologia do Esporte e do Exercício.

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Eficácia e segurança de estatinas utilizadas em crianças por um período de 20 anos

Estatinas são alvo frequente de fake news

Em um texto publicado recentemente em nossas mídias sociais, falamos da forte relação entre hipercolesterolemia e doenças cardiovasculares (infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral). Já está bem estabelecido na literatura médica que as estatinas (um grupo de drogas que reduzem o colesterol) são drogas seguras e eficazes em pacientes adultos, principalmente naqueles com risco aumentado para esses eventos. Mesmo assim, falsas afirmações a respeito desta classe de fármacos vêm sendo propagadas na internet, assustando as pessoas que precisam usar estas medicações de forma contínua. Estudo publicado recentemente numa das maiores revistas médicas do mundo (The New England Journal of Medicine) mostra dados muito importantes, que corroboram a eficácia e segurança das estatinas em pacientes com hipercolesterolemia familiar acompanhados por um período de 20 anos. Nas próximas linhas faremos um breve resumo do estudo e a que conclusões podemos obter com seus dados.

Imagem: Pixabay

Por que estudar o uso de estatinas em portadores de hipercolesterolemia familiar (HF)?

A HF é um grupo de condições genéticas causadas por mutações que impedem que o mau colesterol (LDL-c) seja removido do sangue de forma eficaz, fazendo com que ele se acumule. Pelo fato deste aumento ser intenso e iniciado precocemente (na infância), o risco de doenças cardiovasculares é elevado. O artigo em questão faz o seguimento de um grupo de mais de 200 crianças (isso mesmo, CRIANÇAS), que foram diagnosticadas com HF e selecionadas num primeiro estudo, entre 1997 e 1999. Durante este período foram tratadas com pravastatina (um tipo de estatina) e sua eficácia e segurança foram demonstradas neste primeiro trabalho. 


Como este estudo foi desenvolvido?

Essas crianças foram acompanhadas por um período de 20 anos e comparadas com seus respectivos irmãos sem a doença. Isso foi muito importante, pois eles compartilham muitas outras características semelhantes sendo os altos valores do LDL-c uma das poucas diferenças. A análise feita em ambos os grupos foi o que chamamos de espessura da camada média das carótidas. O aumento desta medida é um dos primeiros eventos na formação da placa aterosclerótica. E o que foi visto? No grupo com a doença, onde a maioria estava em uso de estatinas, a taxa de progressão desta espessura foi muito semelhante ao grupo controle. Ou seja, tudo leva a crer que o uso da medicação reduziu a velocidade de formação da placa de gordura.
O outro braço deste estudo foi a que comparou o número de eventos e morte cardiovascular. Neste caso o grupo controle foi formado por familiares que tinham o diagnóstico de HF. Como eles não participaram do estudo original a maioria não usava estatinas. Aqui novamente temos dados muito importantes: as crianças que utilizaram as estatinas por um longo período de tempo tiveram uma redução significativa de eventos cardiovasculares (infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral).


Quais os principais pontos positivos deste trabalho? 

1. Foi feito inicialmente com crianças, grupo onde ainda temos um número menor de informações a respeito das indicações e possíveis efeitos colaterais das estatinas. Aqui tivemos pouquíssimos efeitos colaterais e quando houveram, foram leves. 
2. Os participantes foram acompanhados por 20 anos, um longo período de observação.
3. Mostrou que, além de segura, a medicação foi eficaz em reduzir a velocidade de progressão da espessura média de carótidas (um evento inicial da aterosclerose) bem como uma redução no número de eventos cardiovasculares.
4. A maior parte dos indivíduos não atingiu as metas de LDL-c preconizados atualmente (a média nos portadores de HF foi de 160 mg/dl) e apenas 20% obtiveram valores abaixo de 100 mg/dl. Mesmo assim os efeitos das estatinas foram benéficos quando iniciadas precocemente. Isso corrobora a hipótese de que seu efeito positivo vai além de simplesmente reduzir o colesterol. A redução das doenças cardiovasculares é inquestionável com as estatinas.
5. Reforça duas ideias em relação ao LDL-c que ganham cada vez mais força na literatura atual: “the lower, the better” (quanto menor, melhor) e também, “the younger, the better” (quanto mais jovem, melhor). É provável que muito em breve iremos rever as indicações de início de tratamento das crianças com HF (atualmente é entre 8 e 10 anos).


Estatinas são seguras, mesmo em crianças

Como conclusão, este é mais um estudo que demostra não só a eficácia como a segurança das estatinas. Não resta mais nenhuma dúvida quanto ao seu papel fundamental na prevenção de doenças cardiovasculares – tanto em crianças como em adultos. Os possíveis efeitos colaterais não são frequentes e na maior parte dos casos, são leves. Portanto, uma vez corretamente indicada a droga deve ser utilizada de forma contínua e desta forma trará diversos benefícios a estes pacientes.  

Referência:
1- Luirink, I. K., Wiegman, A., Kusters, D. M., Hof, M. H., Groothoff, J. W., de Groot, E., Hutten, B. A. (2019). 20-Year Follow-up of Statins in Children with Familial Hypercholesterolemia. New England Journal of Medicine, 381(16), 1547–1556.

Dr. Ricardo Mendes Martins
Médico Endocrinologista
CRM-RJ 778.559 - RQE 15.753
Professor de Medicina da Unigranrio
Professor de Medicina da UFF 
Médico do Instituto Nacional de Cardiologia

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Avaliação dos incidentalomas de adrenal através de exames de imagem

Os incidentalomas são lesões descobertas ao acaso em exames solicitados por outro motivo que não seja a avaliação das glândulas adrenais. Por exemplo: o médico solicita uma tomografia para avaliar o fígado e o exame acaba mostrando um nódulo na adrenal esquerda do qual não se desconfiava (figura abaixo).
Feocromocitoma em adrenal direita
Imagem: Wikimedia Commons

A descoberta de um incidentaloma levanta duas questões que vão determinar o tipo de avaliação e a necessidade de tratamento:
1 - A lesão é maligna?
2 - A lesão secreta hormônios?
Neste texto, vamos responder ao primeiro questionamento.

Felizmente, a grande maioria dos incidentalomas de adrenal são benignos. Estima-se que apenas  2 a 5 por cento dos nódulos sejam carcinomas (câncer) de adrenal e 0,7 a 2,5 por cento sejam metástases de outros tumores para esta glândula.
Os exames de imagem, com destaque para a tomografia computadorizada, podem ajudar a estimar o risco de uma lesão na adrenal ser maligna. Através do chamado fenótipo da imagem, isto é, das características mostradas pelo exame, dá para ter ideia da natureza do nódulo. A seguir, as principais características de imagem das massas adrenais mais importantes.


Adenomas benignos

Costumam ser homogêneos e com contorno liso e bem delimitado. O diâmetro normalmente é menor que 4 centímetros. Por serem ricos em gordura, apresentam densidade baixa na tomográfica (< 10 HU) antes da injeção do contraste, além de eliminarem rapidamente o contraste (washout rápido).


Feocromocitomas

São lesões originárias das camadas mais profundas da adrenal e podem produzir adrenalina e seus derivados causando pressão alta de difícil controle. Por serem lesões altamente vascularizadas, apresentam densidade alta (> 20 HU) mesmo antes da injeção do contraste e eliminação lenta do contraste na tomografia. O tamanho é bastante variável e podem acometer ambas as adrenais ao mesmo tempo. Em alguns casos, a ressonância magnética pode ajudar no diagnóstico.


Carcinoma adrenocortical

O câncer de adrenal costuma ser unilateral, ter tamanho maior que 4 centímetros, além de ser irregular na forma e heterogêneo. Podem ser vistas áreas de necrose, hemorragia ou calcificações neste tipo de tumor. Assim como os feocromocitomas, também apresentam densidade alta e washout lento  na tomografia. Em alguns casos, também podem ser vistos invasão de órgãos próximos e/ou evidência de metástases.


Metástases na adrenal

Frequentemente acometem ambas as glândulas e são bastante heterogêneas. A alta intensidade e eliminação lenta do contraste são evidenciados pela tomografia, já que são lesões bastante vascularizadas. A maioria dos pacientes com metástases adrenais apresentam um antecedente de algum tipo de câncer avançado (principalmente de pulmão, mama e rim). Em alguns casos, a ressonância magnética e a tomografia por emissão de pósitrons podem ser necessários para ajudar no diagnóstico, especialmente quando não o tumor de onde as metástases se originaram não foi localizado.

De uma maneira geral, as lesões com características de adenomas benignos e que não são produtoras de hormônios podem ser acompanhadas clinicamente. Já os tumores suspeitos de feocromocitoma ou de carcinoma adrenal, além dos adenomas com produção de hormônio, são tratados através de cirurgia.

Referências:
1- The adrenal incidentaloma - UpToDate On Line
2- Fassnacht et al. Management of adrenal incidentalomas: European Society of Endocrinology Clinical Practice Guideline in collaboration with the European Network for the Study of Adrenal Tumors. European J Endocrinol 2016.

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Doutor e Mestre em Endocrinologia pela UFRGS
CRM-RS 30.576 - RQE 22.991

Texto revisado pelo Departamento de Adrenal e Hipertensão.

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Óleo de coco baseado em evidências

Que cuidados tomar ao ler textos científicos?

A internet é uma grande fonte de informação, e isso é inegável. No entanto, nem tudo que lemos em sites, blogs ou redes sociais passa por crivo científico criterioso. A literatura médica é vasta. E os diferentes estudos são hierarquizados de acordo com sua qualidade metodológica e com a força das evidências. Por exemplo, um estudo pequeno que disse que determinado tratamento em ratinhos pode baixar o colesterol não deve ser interpretado da mesma maneira que outro estudo que avaliou a mesma intervenção em um grande número de seres humanos e observou que este tratamento não serviu para reduzir infartos ou mortes. Em outras palavras, estudos que replicam as situações da vida real de maneira mais apropriada “pesam mais” na balança da ciência. Dito isto, vamos ao óleo de coco...

Imagem: Wikimedia Commons

Existe grande quantidade de material com pouco embasamento disponível na internet

Basta digitarmos “óleo de coco” no Google para nos maravilharmos com efeitos positivos no colesterol e no risco cardiovascular, além de potencial antioxidante e até mesmo emagrecedor. Contudo, ao fazermos a mesma pesquisa na base de dados médicos Pubmed, podemos perceber que o óleo de coco ainda precisa provar muita coisa...


O processo de produção do óleo de coco tem impacto nas suas propriedades

O óleo de coco virgem, que é obtido através da prensagem a frio do coco, retém grande quantidade de fitoesteróis, tocotrienóis, tocoferóis, além de outros compostos bioativos, substâncias que realmente têm potencial de redução do colesterol e efeito antioxidante. Contudo, aqui cabem duas ressalvas. O processo de fabricação do óleo de coco é bastante variável na indústria. Quando o processo de extração do óleo não controla a temperatura de forma apropriada, perde-se grande parte dos antioxidantes. Além disso, o potencial efeito benéfico dos fitoesteróis contidos em sua composição é contrabalanceado pelo alto teor de gordura saturada (92%).


Faltam evidências robustas de qualquer benefício com o óleo de coco

Os defensores do óleo de coco argumentam que a gordura saturada nele presente é diferenciada. Os ácidos láurico e mirístico, por representarem ácidos graxos de cadeia média, seriam rapidamente metabolizados no fígado favorecendo a elevação do colesterol HDL (bom), menor oxidação do colesterol LDL (ruim) e queima de gordura, com potencial redução do risco cardiovascular e do peso. No entanto, os estudos que evidenciaram estes possíveis benefícios foram  realizados em ratos (1) ou apresentam apresentam sérias limitações metodológicas (2). Como vimos no início deste texto, a Medicina Baseada em Evidências hierarquiza a pesquisa clínica. Até o presente momento, o óleo de coco permanece no nível mais baixo de evidência, precisando, no mínimo, ser melhor estudado.


Os efeitos do consumo de óleo de coco ainda não foram estudados dentro do padrão alimentar Ocidental 

Em março de 2016, um grupo de pesquisadores da Nova Zelândia compilou toda a literatura disponível sobre os potenciais benefícios do óleo de coco e publicou na revista Nutrition Reviews o artigo intitulado “Coconut oil consumption and cardiovascular risk factors in humans” (3). Foram localizados 21 estudos (8 controlados e 13 observacionais). Segundo os autores, o óleo de coco aumentou os níveis de colesterol total e colesterol LDL (ruim). Apesar de aumentar os níveis de colesterol, o óleo de coco aparentemente não aumentou o risco de doenças cardiovasculares, pelo menos em populações que culturalmente o consomem. Ou seja, o óleo de coco parece não aumentar o risco de problemas cardíacos dentro da dieta dos povos polinésios, mas não podemos dizer o mesmo dentro da dieta Ocidental.


Óleo de coco não é suplemento. Muito menos remédio!

Em resumo, não existem provas definitivas de que o óleo de coco ajude a melhorar a imunidade e o metabolismo ou ajude a reduzir o risco de doenças cardíacas. Não deve ser considerado um suplemento, muito menos um remédio. A preferência pelo seu uso restringe-se mais a uma opção culinária do que uma indicação médica, e deve ser feita com moderação. 


Fica a dica...

Aos interessados em aumentar o consumo de antioxidantes e fitoesteróis, a sugestão é consumir a polpa do coco - que também é rica em fibras – e, idealmente, inserida no contexto de uma alimentação equilibrada, com atividades físicas regulares e... sem esperar milagres!

Referências:
1 - Nevin KG, Rajamohan T. Beneficial effects of virgin coconut oil on lipid parameters and in vitro LDL oxidation. Clin Biochem. 2004 Sep;37(9):830-5.
2 - Cardoso DA, Moreira AS, de Oliveira GM, Raggio Luiz R, Rosa GA. COCONUT EXTRA VIRGIN OIL-RICH DIET INCREASES HDL CHOLESTEROL AND DECREASES WAIST CIRCUMFERENCE AND BODY MASS IN CORONARY ARTERY DISEASE PATIENTS. Nutr Hosp. 2015;32(5):2144.
3 - Eyres L, Eyres MF, Chisholm A, Brown RC. Coconut oil consumption and cardiovascular risk factors in humans. Nutr Rev. 2016 Apr;74(4):267-80.

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Doutor e Mestre em Endocrinologia pela UFRGS
CRM-RS 30.576 - RQE 22.991

Texto revisado pelo Departamento de Dislipidemia e Aterosclerose.

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Nódulos de adrenal descobertos ao acaso - incidentalomas

As adrenais secretam hormônios importantes

Acima de cada um dos nossos rins, localizam-se as glândulas adrenais. São estruturas responsáveis pela produção de hormônios esteroides e catecolaminas. O cortisol, também conhecido com "hormônio do estresse", é um dos principais esteroides produzidos pelas adrenais, assim como a aldosterona, hormônio que participa da regulação da pressão arterial. Na camada mais interna das adrenais é produzida ainda a adrenalina, substância conhecida por preparar nosso organismo para estados de "luta e fuga".


Exames de imagem solicitados por outros motivos às vezes encontram lesões nas adrenais

Com o desenvolvimento de exames de imagem cada vez mais sofisticados, algumas vezes um exame pedido por um motivo pode mostrar outros problemas. No caso das adrenais, 4,4 porcento das tomografias de abdome solicitadas por motivos diversos mostram algum nódulo. Chamamos estes nódulos descobertos ao acaso de incidentalomas.

Feocromocitoma em adrenal direita
Imagem: Wikimedia Commons

Avaliação do incidentaloma adrenal 

Na avaliação do incidentaloma adrenal, o médico endocrinologista deve se preocupar em responder 2 perguntas: 1- O nódulo é maligno? 2- O nódulo produz algum hormônio? As respostas para estas questões vêm através dos exames de imagem e das dosagens hormonais.


A imagem ajuda a estimar o risco de malignidade

O principal exame de imagem na avaliação do incidentaloma adrenal é a tomografia de abdome de cortes finos para visualizar as adrenais. Através deste exame, consegue-se avaliar detalhadamente a anatomia das glândulas adrenais. Nódulos maiores que 4 centímetros são suspeitos de malignidade, assim como lesões invasivas, heterogêneas, com margens pouco definidas, calcificadas e com sinais de vascularização intensa. Lesões menores de 4 centímetros, com margens bem definidas, homogêneas, pouco vascularizadas e hipodensas, isto é, com alto teor de gordura, costumam ser benignas.


Os exames de laboratório servem para avaliar se há secreção hormonal

A avaliação dos incidentalomas adrenais continua com as dosagens hormonais. Apesar de 8 em cada 10 pacientes com nódulo adrenal não apresentar sinais e sintomas de hormônios em excesso, todo incidentaloma deve ser investigado para produção de cortisol e de metanefrinas, pois existem casos de síndrome de Cushing (aproximadamente 20%) e de feocromocitoma (3% dos casos) subclínicos, isto é, com pouco ou nenhum sintoma. Além disso, pacientes com pressão alta ou com baixos níveis de potássio devem fazer avaliação para a produção excessiva de  aldosterona.


O manejo depende da avaliação diagnóstica

Quanto ao manejo, incidentalomas adrenais maiores de 4 centímetros devem ser retirados através de cirurgia devido ao risco de câncer de cerca de 25%. Além destes, os feocromocitomas, ou tumores produtores de adrenalina e seus derivados, também devem ser retirados, pois aumentam o risco de arritmias e crises hipertensivas. Os tumores produtores de aldosterona também devem ser removidos cirurgicamente, já que o excesso de aldosterona aumenta o risco de doenças cardíacas e acidente vascular cerebral. O tratamento com medicação no caso dos tumores produtores de aldosterona deve ser reservado para os indivíduos sem condições clínicas de operar. Já os tumores produtores de cortisol são manejados de acordo com a gravidade dos sinais e sintomas do excesso de produção hormonal: pacientes com síndrome de Cushing devem ser tratados com cirurgia, enquanto pacientes com síndrome de Cushing subclínica são tratados com cirurgia somente se tiverem doenças possivelmente relacionadas ao excesso de cortisol, como osteoporose, dislipidemia, diabetes e hipertensão. Os incidentalomas ditos não funcionantes, isto é, que não produzem hormônios, devem ser acompanhados através de exames de imagem e de laboratório em intervalos de 6 a 12 meses por pelo menos 4 anos, não havendo necessidade de tratamento imediato.

Referências:
1- The adrenal incidentaloma - UpToDate On Line
2- Fassnacht et al. Management of adrenal incidentalomas: European Society of Endocrinology Clinical Practice Guideline in collaboration with the European Network for the Study of Adrenal Tumors. European J Endocrinol 2016.

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Doutor e Mestre em Endocrinologia pela UFRGS
CRM-RS 30.576 - RQE 22.991

Texto revisado pelo Departamento de Adrenal e Hipertensão.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

hCG e emagrecimento – vale a pena correr o risco?

Epidemia de excesso de peso e a busca por opções terapêuticas

Que vivemos em uma epidemia de excesso de peso e obesidade, não há dúvidas. A crescente consciência de que os quilos a mais não trazem somente prejuízo estético, mas também problemas de saúde como diabetes mellitus tipo 2, pressão alta, colesterol alto, risco aumentado de morte por doenças cardiovasculares e câncer, tem feito com que se procure alternativas para o tratamento. Um método que volta e meia reaparece como possível solução é o uso da gonadotrofina coriônica humana ou hCG. Mas será um tratamento válido? Vejamos o que nos dizem as evidências científicas...

Imagem: Wikimedia Commons

O hCG já foi estudado, mostrou ausência de benefício...

Ao contrário do que se imagina, a controvérsia sobre o uso do hCG para o emagrecimento já tem mais de 60 anos. Em 1954, o Dr. Simeons publicou na revista Lancet o artigo intitulado “The action of chorionic gonadotrophin in the obese”. Neste estudo, o hCG era usado em conjunto com uma dieta altamente restritiva, de apenas 500 calorias por dia, com o objetivo de se fazer perder peso sem fome e mantendo a massa muscular. Contudo, estudos melhor desenhados realizados a partir da década de 1970 não mostraram esse efeito benéfico do hCG. No ano de 1995, o Dr. Lijensen publicou na revista British Journal of Clinical Pharmacology uma extensa revisão de todos os estudos científicos realizados com hCG para o emagrecimento até o momento. O artigo “The effect of human chorionic gonadotropin (HCG) in the treatment of obesity by means of the Simeons therapy: a criteria-based meta-analysis” avaliou 16 estudos e concluiu que não existe qualquer evidência de que o hCG seja efetivo no tratamento da obesidade. Além de não auxiliar na perda do peso, o hCG não é melhor que o placebo em manter a massa magra, reduzir a fome ou manter o bem-estar. Em outras palavras, este estudo diz que usar hCG ou injeções de água dá na mesma, ou seja, é um tratamento sem efeito.


...além de potenciais efeitos adversos graves

Como se isso já não bastasse, começaram a aparecer relatos na literatura associando o uso do hCG para emagrecimento com efeitos adversos graves como trombose: artigo publicado em 2013 pelo Dr. Goodbar na revista Annals of Pharmacotherapy: "Effect of the human chorionic gonadotropin diet on patient outcomes".


Não é ético prescrever tratamentos que não funcionam visando o lucro 

Mas se o hCG não funciona e pode fazer tão mal, por que alguns médicos defendem seu uso e o prescrevem? Chegamos aqui a um ponto extremamente delicado...
Segundo os artigos 14, 112, 113 e 114 do Código de Ética Médica é vetado ao médico: praticar ou indicar atos médicos desnecessários ou proibidos pela legislação vigente no País; divulgar informação sobre assunto médico de forma sensacionalista, promocional ou de conteúdo inverídico; divulgar, fora do meio científico, processo de tratamento ou descoberta cujo valor ainda não esteja expressamente reconhecido cientificamente por órgão competente; anunciar títulos científicos que não possa comprovar e especialidade ou área de atuação para a qual não esteja qualificado e registrado no Conselho Regional de Medicina. Um profissional que esteja disposto a ser tão anti-ético só pode ter um conflito de interesse muito grande com a prescrição do hCG, isto é, está ganhando muito dinheiro com isso.


O tratamento da obesidade exige trabalho sério e ético

Não existe milagre no tratamento do excesso de peso e da obesidade. Existe trabalho sério! Medidas como modificação da dieta baseada em protocolos calóricos e nutricionais seguros; programas de exercício adaptados as capacidades e limitações de cada paciente; e aconselhamento comportamental, incluindo desenvolvimento de hábitos alimentares adequados, como lidar com o estresse e ansiedade, e como adaptar a dieta e o estilo de vida dentro do contexto familiar; geralmente demandam trabalho de equipe multidisciplinar responsável e competente.


Fique de olho! Não caia no papo de aproveitadores

Modismos e aproveitadores existem e sempre existirão. Quando você for ler qualquer texto na internet ou em revistas, ou mesmo quando for assistir alguma entrevista na TV, sempre procure conhecer as fontes. Certifique-se de que sejam pessoas sensatas e atualizadas, se são ligadas a centros acadêmicos ou a produção científica. Vá atrás das referências citadas e consulte as sociedades médicas e agências de vigilância sanitária. Cuide-se!

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Doutor e Mestre em Endocrinologia pela UFRGS
CRM-RS 30.576 - RQE 22.991

Texto revisado pelo Departamento de Obesidade da SBEM.

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Mitos sobre a pregnenolona: neuroesteroide com função cognitiva?

O que é a pregnenolona afinal?

A pregnenolona é um esteroide que se origina a partir da clivagem do colesterol dentro de um compartimento celular denominado mitocôndria. A pregnenolona é um precursor dos principais hormônios esteroides, ou seja, vai sofrer uma série de reações enzimáticas e pode dar origem ao cortisol, aldosterona, progesterona e a um tipo de andrógeno (hormônio masculino) mais fraco denominado dehidroepiandrosterona (DHEA). A formação do cortisol e da aldosterona ocorre somente nas glândulas suprarrenais, já a formação da progesterona e do DHEA pode ocorrer nas adrenais e no ovário.


Hormônio com ação no sistema nervoso central

Recentemente, estudos em ratos demonstraram que a pregnenolona tem ação no sistema nervoso central, sendo então denominada de neuroesteroide. A pregnenolona age nos receptores do neurotransmissor ácido gama-aminobutírico (GABA), o principal neurotransmissor inibitório no sistema nervoso central. A ativação do sistema GABA leva a redução da atividade cerebral. Já a pregnenolona inibe a ligação do GABA aos seus receptores, impedindo a sua ação em inibir a atividade cerebral.


Ainda faltam evidências de benefício

Por causa desse efeito da pregnenolona em inibir o sistema GABA, muito tem sido falado sobre potenciais benefícios da pregnenolona em melhorar memória, atenção e em impedir a perda cognitiva durante o envelhecimento. Apesar disso, os estudos em humanos mostram, até o momento, que os benefícios citados acima ainda não foram confirmados. Em humanos, o tratamento com pregnenolona já foi realizado em pacientes com doenças neuropsiquiátricas, como esquizofrenia, transtorno de ansiedade generalizada, fobia social, entre outras. O único benefício foi demonstrado em indivíduos com esquizofrenia, que apresentaram melhora dos sintomas negativos e da função cognitiva (principalmente atenção) após 8 semanas de tratamento com pregnenolona, mas sem nenhum efeito na memória.


A pregnenolona não deve ser usada para melhorar a memória nem prevenir o envelhecimento

Não existem até o momento, estudos bem conduzidos que avaliem os benefícios da pregnenolona em melhorar os déficits cognitivos e a perda de memória em pessoas durante o processo normal de envelhecimento. Dessa forma, o uso da pregnenolona não está indicado com o propósito de melhorar a memória e atenuar as perdas cognitivas do processo de envelhecimento.

Referência:
1- Ratner et al. Neurosteroid Actions in Memory and Neurologic/Neuropsychiatric Disorders. Frontiers in Endocrinology 2019; 10:169.

Dr. Madson Queiroz de Almeida
Médico Endocrinlogista
Professor Livre-Docente da Disciplina de Endocrinologia e Metabologia do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Presidente do Departamento de Adrenal e Hipertensão da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (biênio 2019/2020)
CRM-SP 102.257

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Uso de anabolizantes para melhorar a massa muscular em idosos: vale a pena?

O paciente idoso deve usar anabolizantes para melhorar a massa muscular?
A resposta é simples: NÃO.
Vejamos detalhadamente as razões para essa resposta:

Imagem: FE Warren Air Force Base

1) Não há evidências na literatura científica que confirmem que substâncias anabolizantes consigam melhorar a força muscular.

Nem esteroides semelhantes a testosterona - como ésteres de testosterona (Deposteron, por exemplo) ou nandrolona (Decadurabolin) – nem o hormônio do crescimento são considerados efetivos no tratamento da perda muscular. Eles aumentam o músculo, provocam retenção de água, mas não tornam o músculo mais forte e potente. Sem a força muscular adequada, o idoso perde a própria autonomia e se torna muito dependente da ajuda de outras pessoas para realizar suas atividades habituais. Além disso, ele corre grande risco de quedas e consequentemente de fraturas, hospitalizações e morte.
A perda de massa e de força musculares constitui uma doença denominada sarcopenia frequentemente associada a problemas cardíacos, respiratórios, e problemas de cognição. O diagnóstico dessa doença é facilmente realizado pela aplicação de um questionário prático e accessível composto por 5 perguntas sobre a capacidade do indivíduo de levantar peso, de se levantar de uma cadeira, de caminhar, de subir escadas e sobre a ocorrência de quedas. A presença de uma circunferência de panturrilha inferior a 31 cm aumenta a probabilidade de sarcopenia.
Recentemente, foi publicado o Consenso Europeu de Sarcopenia que salientou a importância da avaliação não apenas da massa muscular, mas também da força muscular, especialmente em indivíduos idosos. Sendo assim, medicamentos que não melhoram consistentemente a força muscular, não podem ser considerados eficazes e consequentemente não devem ser usados pelos pacientes portadores de sarcopenia.


2) Anabolizantes podem causar efeitos colaterais indesejáveis, múltiplos, graves e muito prejudiciais para o sistema cardíaco e vascular, especialmente. 

Eles aumentam os níveis do LDL colesterol (“colesterol ruim”) e reduzem os níveis de HDL colesterol (“colesterol bom”). Também elevam a pressão arterial e podem aumentar a quantidade de gordura dentro do fígado o que aumenta o risco de várias doenças como diabetes e infarto.


3) O melhor tratamento da sarcopenia é a prevenção. 

A perda de massa muscular é mais precoce do que se imaginava! A partir dos 50 anos, já começa a ocorrer uma mudança na composição corporal com perda substancial de massa magra. A sarcopenia acomete 5-13% dos indivíduos com 60 a 70 anos e até 50% dos indivíduos com mais de 80 anos. Portanto, durante a infância e a adolescência, é fundamental maximizar o ganho de força muscular. Na fase adulta, ao menos, se deve manter a força muscular para então prevenir a perda na fase do envelhecimento.


4) A adoção de uma dieta equilibrada é fundamental para a saúde muscular.

Uma dieta com teor adequado de calorias, de proteínas, vitaminas e minerais minimiza a perda muscular. Os anabolizantes não substituem uma dieta adequada e bem equilibrada!


5) O anabolizante não substitui o exercício resistido!

Com cargas ou com a sustentação do próprio corpo, o exercício resistido, quando é adequadamente orientado, promove ganhos efetivos de massa e de força musculares. Durante a contração, o músculo libera substâncias denominadas miocinas fundamentais para a preservação do ganho de massa e força musculares. Além disso, essas substâncias exercem vários benefícios: previnem perda óssea, melhoram o metabolismo da glicose e transformam o tecido adiposo branco que passa a ser mais ativo ou seja passa a liberar energia, ao invés de acumular gordura. Em repouso, por outro lado, o músculo produz miostatina que impede o crescimento muscular. Sendo assim, quando não praticamos exercício, passamos a ter uma grande doença – o sedentarismo que piora, e muito, nossa massa e força musculares.

Portanto, caro portador de sarcopenia, adote uma dieta equilibrada, pratique exercício e assim, trate adequadamente a sarcopenia

Referências:
1- Barbosa-Silva TG, Menezes AMB, Bielemann RM, Malmstrom TK, Gonzalez MC. Enhancing SARC-F: Improving Sarcopenia Screening in the Clinical Practice. JAMDA, 2016: 17, Issue 12, Pages 1136–1141.doi: https://doi.org/10.1016/j.jamda.2016.08.004
2- Cruz-Jentoft AJ, Baeyens JP, Bauer JM et al. Sarcopenia: European consensus on definition and diagnosis: report of the European working group on sarcopenia in older people. Age Ageing 2010; 39: 412–23.
3- Cruz-Jentoft AJ, Bahat G JP, Bauer JM et al. Sarcopenia: revised European consensus on definition and diagnosis. Age and Ageing 2019; 48: 16–31 doi: 10.1093/ageing/afy169 39: 412–23.
4- Dent JE, j.e. Morley JE, Cruz-Jentoft AJ, Arai H, Kritchevsky SB, Guralnik J, International Clinical Practice Guidelines for Sarcopenia (ICFSR): screening, diagnosis and management. Nutr Health Aging. 2018;22(10):1148-1161
5- Hittel, DS., Axelson M, Sarna N, Shearer J, Huffman KM, Kraus WE. Myostatin Decreases with Aerobic Exercise and Associates with Insulin . Med. Sci. Sports Exerc, 2010; 42(11): 2023–2029.

Dra. Andréa Messias Britto Fioretti
Médica Endocrinologista – CRM-SP 61414 - RQE 65.451
Mestrado em Endocrinologia Clínica pela Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP
Especialista em Medicina do Exercício e do Esporte pela Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP
Coordenadora do Ambulatório de Endocrinologia do Exercício, junto ao Serviço de Medicina do Esporte da UNIFESP
Membro do Departamento de Diabetes, Exercício e Esportes da Sociedade Brasileira de Diabetes
Membro da Comissão Temporária de Estudos em Endocrinologia do Exercício da SBEM

Texto revisado pela Comissão Temporária de Estudos em Endocrinologia do Exercício.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Diabettic (adesivo antidiabetes): não caia nesse golpe!

A  suposta "bala mágica"...

Há poucos dias, viralizou na internet um anúncio sobre um adesivo capaz de curar o diabetes. O dispositivo, batizado de Diabettic, seria supostamente capaz de “estabilizar definitivamente o quadro de diabetes tipo 1 e 2”. Ainda de acordo com o site, “através de sua fórmula exclusiva, combinando compostos 100% naturais, Diabettic foi testado e 'unanimemente' aprovado”.

O site também prometia a cura da neuropatia diabética (uma complicação do diabetes nos nervos), efeitos rápidos (em 15 dias), 100% de eficácia e o fim da dependência de medicamentos e de seus efeitos nocivos ao organismo. Esses efeitos foram atestados por um suposto médico endocrinologista chamado de Gerônimo Telmann, cuja foto foi divulgada no site. Tudo isso, por um preço que variava de R$ 9,90-24,50 por adesivo, a depender do pacote comprado (com 6, 18 ou 30 adesivos).

Imagem veiculada no anúncio do suposto tratamento

...é somente mais um golpe!

Infelizmente, tudo não passava de um GIGANTESCO golpe. As substâncias listadas no adesivo não têm respaldo científico para o tratamento do diabetes ou de qualquer uma de suas complicações. Não há registros de estudos clínicos que corroborem a utilização desse dispositivo em seres humanos. O suposto Dr. Gerônimo Telmann também não consta no site do Conselho Federal de Medicina, tampouco nos registros da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.

Outros pontos merecem comentários sobre o site: o registro é “.com” e não “.com.br”, sugerindo que é criado numa conta fora do Brasil. Não existe nenhum nome de empresa ou CNPJ na divulgação. Não existe um endereço para correspondência; apenas um número de telefone celular. Todos os indicativos de que a pessoa por trás desse golpe não quer ser identificada.


Não é a primeira vez que um "produto natural" promete benefícios milagrosos

Esta não é a primeira vez que supostos produtos naturais com benefícios milagrosos para o diabetes viralizam nas redes sociais. Substâncias como água de quiabo, suco de maxixe, farinha da casca do maracujá e os mais variados chás (chá verde, camomila, hibisco, supervit, pata de vaca, ban-chá, carqueja, sálvia e chá preto)[1] já foram apontados como remédios ou curas para o diabetes em sites de origem duvidosa. Muitas vezes, esses produtos são também colocados à venda na internet.


Pacientes com diabetes são alvos frequentes de charlatões

Mas quais as motivações para as práticas de charlatanismo relacionadas ao diabetes? Sem dúvida, a principal delas é a existência de um mercado favorável. Pense bem: quantas pessoas você conhece que se interessariam por comprar uma possível cura para o diabetes?

A Sociedade Brasileira de Diabetes estima que existam mais de 14 milhões de pessoas com diabetes no Brasil.[2] De acordo com o VIGITEL BRASIL 2018, a frequência do diagnóstico médico de diabetes em adultos nas 27 capitais brasileiras é de 7,7%, sendo maior entre as mulheres (8,1%) do que entre os homens (7,1%).[3] Ou seja: é muita gente! Somado a isso o fato do diabetes ser uma doença crônica cujos custos associados ao tratamento são frequentemente elevados, a venda de qualquer “cura” para esse problema se torna uma alternativa atrativa para o público e extremamente lucrativa para os charlatões.


Tratamentos falsos podem causar prejuízos graves

Em um mercado onde faltam escrúpulos, precisamos estar atentos. A interrupção do tratamento com insulina em pacientes com diabetes tipo 1 (forma mais comum de diabetes em crianças) pode levar à morte por cetoacidose diabética em poucos dias. Efeitos desastrosos podem ocorrer também em pacientes com diabetes tipo 2 (forma mais comum da doença). Por isso, diante de qualquer informação sobre novas alternativas de tratamento para qualquer doença, todo cuidado é pouco. Aqui, vale a máxima “quando a esmola é demais, o santo desconfia”.


Aprenda a identificar anúncios falsos e fake news

Com um pouco de atenção, é possível se identificar diversos elementos que sugerem que o Diabettic se trate de um golpe. São evidentes a “polarização” (“remédio natural barato” x “remédio caro da indústria”), a “promessa de cura de doença crônica”, a “falta de rigor científico” etc. Para auxiliá-los nesse processo, sugiro a leitura das doze dicas para identificar charlatanismo,[4] aqui no blog.
É inegável o enorme potencial das redes sociais para o compartilhamento de informações relacionadas à saúde. Infelizmente, as informações compartilhadas nem sempre são confiáveis. Tome muito cuidado com esses produtos “milagrosos” vendidos pela Internet. Não coloque sua vida ou de seus familiares em risco. Antes de tomar qualquer atitude relacionada à sua saúde ou ao tratamento de qualquer doença sua ou de seus familiares, consulte um médico de sua confiança. Esse ainda é o melhor remédio para não cair nas armadilhas criadas pelos charlatões!

Referências:
1- Sociedade Brasileira de Diabetes. Chás e ervas são capazes de auxiliar no tratamento e combate do diabetes? Coluna Diabetes em Debate; 2019. Disponível em: <https://www.diabetes.org.br/publico/diabetes-em-debate/1828-coluna-verdadeiro-ou-falso-4-chas-e-ervas-sao-capazes-de-auxiliar-no-tratamento-e-combate-do-diabetes>.
2- Sociedade Brasileira de Diabetes. Mais de 14 milhões de pessoas têm diabetes no Brasil e 72 mil morrem todos os anos no país. SBD na Imprensa; 2016. Disponível em: <https://www.diabetes.org.br/publico/para-voces/sbd-na-imprensa/1413-mais-de-14-milhoes-de-pessoas-tem-diabetes-no-brasil-e-72-mil-morrem-todos-os-anos-no-pais>.
3- Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Análise em Saúde e Vigilância de Doenças não Transmissíveis. Vigitel Brasil 2018: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico: estimativas sobre frequência e distribuição sociodemográfica de fatores de risco e proteção para doenças crônicas nas capitais dos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal em 2018 / Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Análise em Saúde e Vigilância de Doenças não Transmissíveis. – Brasília: Ministério da Saúde, 2019. Disponível em: <https://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2019/julho/25/vigitel-brasil-2018.pdf>.
4- Severo MD. Doze dicas para identificar charlatanismo. Blog da Comissão de Valorização de Novas Lideranças da SBEM; 2019. Disponível em: <https://novasliderancassbem.blogspot.com/2019/06/doze-dicas-para-identificar.html>.

Dr. Wellington Santana da Silva Júnior
Endocrinologista e Metabologista
Professor da Disciplina de Endocrinologia da UFMA
Doutor em Ciências pela UERJ 
Presidente da CVNL da SBEM - Biênio 2019/2020
CRM-MA 5188 - RQE 2739

Texto revisado pelo Presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Dr. Rodrigo O. Moreira.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Câncer medular de tireoide: quando suspeitar e como avaliar

O câncer medular de tireoide (CMT) é responsável por 3-4% das neoplasias malignas da glândula tireoide. O CMT apresenta-se na forma esporádica ou hereditária (20-25%). Na forma hereditária, é um dos componentes da síndrome genética neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (NEM 2). Mutações no gene RET são responsáveis pela forma hereditária da neoplasia e o diagnóstico molecular é fundamental no manejo do CMT. No texto abaixo vamos responder algumas dúvidas frequentes relacionadas a este câncer.

Imgem: Flickr

1. Quando devemos suspeitar do CMT?

A manifestação clínica mais comum do CMT é o nódulo tireoidiano. Deve-se suspeitar especificamente de CMT quando houver história familiar de câncer de tireoide e/ ou mutação no gene RET e/ou associação com outros tumores como feocromocitoma, hiperparatireoidismo, e/ou achados típicos ao exame físico, como o líquen amiloide cutâneo e neuromas de mucosa.


2. Quais os indivíduos com CMT que devem realizar o exame molecular do gene RET?

O rastreamento genético deve ser realizado em todos os pacientes com diagnóstico CMT. Aproximadamente 4-10% dos pacientes com CMT sem historia familiar apresentam mutações germinativas do RET. A pesquisa de mutações do gene RET é fundamental na avaliação diagnóstica e no planejamento terapêutico nos indivíduos com CMT.


3. Em quais casos os familiares de um paciente com CMT devem ser avaliados? Qual a importância da avaliação molecular do RET nesses indivíduos?

O CMT hereditário possui transmissão autossômica dominante, assim, a probabilidade de transmissão entre as gerações é de 50%. Após a identificação de um paciente portador de mutação no RET (caso índice), todos seus familiares de primeiro grau devem ser submetidos à avaliação genética. A análise molecular do RET nos familiares é mandatória, pois possibilita o diagnóstico e tratamento precoce, com consequente melhora no prognóstico.


4. Como é feito o exame genético para pesquisa de mutação no gene RET?

A análise é feita através de um exame de sangue, com coleta de uma amostra de sangue como qualquer outro exame. Diversos centros no Brasil fazem essa análise sem custo para os pacientes, com recursos de pesquisa. Para maiores informações, os médicos podem acessar e se cadastrar no site da Conexão Brasileira de Câncer de Tireoide (http://www.conexaotireoide.com.br/).


Referências: 
1 - Maia AL, Siqueira DR, Kulcsar MA, Tincani AJ, Mazeto GM, Maciel LM. Diagnóstico, tratamento e seguimento do carcinoma medular de tireoide: recomendações do Departamento de Tireoide da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Arq Bras Endocrinol Metabol. 2014 Oct;58(7):667-700.
2 - Wells SA Jr, Asa SL, Dralle H, Elisei R, Evans DB, Gagel RF, Lee N, Machens A, Moley JF, Pacini F, Raue F, Frank-Raue K, Robinson B, Rosenthal MS, Santoro M, Schlumberger M, Shah M, Waguespack SG; American Thyroid Association Guidelines Task Force on Medullary Thyroid Carcinoma. Revised American Thyroid Association guidelines for the management of medullary thyroid carcinoma. Thyroid. 2015 Jun;25(6):567-610.
3 - Maciel RMB, Camacho CP, Assumpção LVM, Bufalo NE, Carvalho AL, de Carvalho GA, Castroneves LA, de Castro FM Jr, Ceolin L, Cerutti JM, Corbo R, Ferraz TMBL, Ferreira CV, França MIC, Galvão HCR, Germano-Neto F, Graf H, Jorge AAL, Kunii IS, Lauria MW, Leal VLG, Lindsey SC, Lourenço DM Jr, Maciel LMZ, Magalhães PKR, Martins JRM, Martins-Costa MC, Mazeto GMFS, Impellizzeri AI, Nogueira CR, Palmero EI, Pessoa CHCN, Prada B, Siqueira DR, Sousa MSA, Toledo RA, Valente FOF, Vaisman F, Ward LS, Weber SS, Weiss RV, Yang JH, Dias-da-Silva MR, Hoff AO, Toledo SPA, Maia AL. Genotype and phenotype landscape of MEN2 in 554 medullary thyroid cancer patients: the BrasMEN study. Endocr Connect. 2019 Mar 1;8(3):289-298.  

Dra. Ana Luiza Silva Maia
CRM-RS 21.605 – RQE 25.839
Pesquisadora líder do Grupo de Pesquisa Bócios e Neoplasias da Tireoide, com projetos aprovados nas diversas agências de fomento nacional (CNPq, PPSUS/FAPERGS, FIPE/HCPA) e internacional (NIH). Membro/Coordenadora do Comitê Assessor de Medicina do CNPq (2012-2015). Membro da task force para elaboração dos guidelines para o Diagnóstico e Manejo do Hipertireoidismo 2016 da American Thyroid Association e membro do Annual Meeting Steering Committee da Endocrine Society (2016-2018).

Divisão de Tireoide do Serviço de Endocrinologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre

Texto revisado pelo Departamento de Tireoide em setembro de 2019.

Dieta da tireoide – dá pra engolir?

O que comemos ou deixamos de comer tem impacto na nossa saúde “Que teu alimento seja teu remédio”. Atire a primeira pedra quem nunca vi...