domingo, 22 de março de 2020

Diabetes e a pandemia de COVID-19

A pandemia do novo coronavírus (SARS-CoV-2), o agente causador da doença COVID-19, começou na China, em dezembro de 2019, por provável consumo de animais silvestres. Fatos que demandaram atenção especial das autoridades de saúde mundiais foram a rápida disseminação e a evolução dos surtos iniciais, com 13,8% de casos graves e 6,1% de casos críticos (1).



Dada a alta taxa de transmissibilidade do novo coronavírus e o impacto da COVID-19 nos sistemas de saúde, informar adequadamente a população sobre as medidas de contenção da doença é urgentemente necessário, particularmente, as pessoas dos grupos de risco que têm propensão de evoluir gravemente e com maior chance de óbito. É o caso de pessoas acima de 60 anos (sobretudo idosos com mais de 80 anos), com doenças crônicas (especialmente o diabetes e a hipertensão arterial), imunocomprometidas e gestantes (2).

Em relação ao diabetes e à pandemia de COVID-19, ressaltam-se as seguintes informações (3,4):

Pessoas com diabetes não parecem apresentar risco aumentado de contrair o novo coronavírus. Entretanto, uma vez infectado, quem tem diabetes tem mais chance de complicações graves de COVID-19, incluindo maior risco de morte;
O risco de agravamento de COVID-19 está aumentado tanto para o diabetes tipo 1 (DM1) quanto para o tipo 2 (DM2);
Contudo, o bom controle da glicose pode atenuar o risco de complicações na pessoa com diabetes;
Assim, seja DM1 ou DM2, o risco de agravamento relaciona-se à maior idade e tempo de duração da doença, estado do controle metabólico, presença de doenças como hipertensão arterial e complicações do diabetes, especialmente doença renal – a COVID-19 pode causar insuficiência renal independentemente de diabetes (1);
Vale ressaltar que pessoas com DM1 podem ter outras doenças imunológicas, como artrite reumatoide, que adiciona um estado de maior comprometimento da função imune.

Como enfaticamente tem sido recomendado pelas autoridades de saúde e seguindo os exemplos de outros países, o isolamento social é essencial para conter a epidemia do novo coronavírus:

É fundamental ficar em casa, evitando contato físico com outras pessoas e reduzindo o número de saídas ao mínimo possível e ao estritamente necessário; 
Orientar pessoas idosas para pedir ajuda a familiares ou amigos para compras e outras tarefas;
Deve-se evitar multidões ou aglomerados e, especialmente, contato com pessoas doentes ou com sintomas respiratórios.

Sobre higienização:

Lavar frequentemente as mãos e a face com água e sabão ou higienizar as mãos com álcool gel 70% regularmente é importante para evitar a propagação do novo coronavírus – não comprar produto sem certificação;
Recomenda-se também não partilhar comida, nem utensílios de uso pessoal, se tiver com quadro suspeito;
Máscaras devem ser usadas apenas por pessoas com sintomas, como coriza, espirros ou tosse;
Ao tossir ou espirrar, cubra o nariz e a boca com lenço ou com o braço (não utilize as mãos);
Se você estiver apresentando sintomas gripais leves (mal-estar, coriza, espirros e tosse), mantenha o isolamento social em domicílio por 14 dias e reagende a sua consulta de rotina ou verifique a possibilidade de orientação por telemedicina (telefone, WhatsApp, vídeo, Skype);
Entretanto, se estiver apresentando desconforto respiratório (dificuldade para respirar), busque assistência hospitalar e contacte os centros de referência da sua cidade;

Em relação a medicamentos (5-7): 

Não utilize anti-inflamatório nem corticoide para controle de sintomas de COVID-19. Usar essas medicações pode piorar a função renal e o controle da glicose (5);
Outros medicamentos, como ibuprofeno, foram recentemente liberados para uso pela Organização Mundial de Saúde, mas o Ministério da Saúde mantém a recomendação de usar outra opção como analgésico (5-7);
Não altere suas medicações para tratar o diabetes e não suspenda o uso de medicamentos para a pressão arterial sem orientação médica (7);
Não há, até o momento, nenhuma recomendação para usar o medicamento hidroxicloroquina para prevenir ou tratar COVID-19. Portanto, não faça automedicação e não estoque em casa, pois haverá prejuízo para as pessoas que realmente precisam, como pacientes com lúpus e artrite reumatoide (8).

Faça a sua parte! O isolamento será necessário para que você possa se reunir com a família e amigos ainda mais forte e saudável, em breve!

Referências:
1- Organização Mundial de Saúde (OMS). Report of the WHO-China Joint Mission on Coronavirus Disease 2019 (COVID19). 2020. Disponível em: <https://www.who.int/docs/default-source/coronaviruse/who-china-jointmission-on-covid-19-final-report.pdf>.
2- European Centre for Disease Prevention and Control. Information on COVID-19 for specific groups: the elderly, patients with chronic diseases, people with immunocompromising condition and pregnant women.  Publicado em 13/03/2020. Disponível em: <https://www.ecdc.europa.eu/en/news-events/information-covid-19-specific-groups-elderly-patients-chronic-diseases-people>.
3- Sociedade Portuguesa de Diabetologia, Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo, Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar. Documento de consenso e abordagem do doente diabético integrado no plano nacional de preparação e de resposta para a doença por coronavírus (COVID-19). Publicado em 14/03/2020. Disponível em: <https://www.spmi.pt/nedm-diabetes-covid-19/>.
4- American Diabetes Association. COVID-19 (Coronavirus). 2020. Disponível em: <https://www.diabetes.org/diabetes/treatment-care/planning-sick-days/coronavirus>.
5- Day M. Covid-19: ibuprofen should not be used for managing symptoms, say doctors and scientists. BMJ 17 March 2020;368:m1086.
6- Ministério da Saúde – Twiter/@minsaude. Publicado em 17/03/2020.
7- Sociedade Brasileira de Diabetes. Disponível em: <https://www.diabetes.org.br>.
8. Empresa Brasil de Comunicação. ANVISA alerta sobre uso de hidroxicloroquinina e cloroquina. 2020. Disponível em: <https://agenciabrasil.ebc.com.br>.

Dr. Wellington Santana da Silva Júnior 
Médico Endocrinologista, Doutor em Ciências
Professor Adjunto do Curso de Medicina da UFMA
Presidente da CVNL da SBEM 2019/2020
CRM-MA 5188 - RQE 2739

Colaboração
Departamento de Diabetes / Departamento de Campanhas – SBEM 2019/2020

terça-feira, 17 de março de 2020

Quais as possíveis causas do hipotireoidismo?

hipotireoidismo - diminuição da secreção de hormônio pela tireoide - pode ter diversas causas. Vamos conhecê-las:


Imagem: MedicalGraphics

Tireoidite autoimune crônica

Também conhecida como tireoidite de Hashimoto, é a principal causa de hipotireoidismo. Nesta doença o nosso sistema imunológico ataca indevidamente a tireoide causando sua destruição e, consequentemente, diminuição progressiva na produção hormonal.


Iatrogênico

Algumas vezes o tratamento de outras doenças acaba afetando a produção hormonal da tireoide. Por exemplo, um paciente que recebe indicação de cirurgia tireoidiana por nódulos que causam sintomas compressivos pode necessitar de reposição hormonal após o procedimento.
Também podem desenvolver hipotireoidismo pacientes que fazem tratamento de HIPERtireoidismo com iodo radioativo, ou que precisam fazer radioterapia na região da cabeça e pescoço.


Deficiência ou excesso de iodo

Nossa tireoide usa iodo para produzir o T4 e o T3 (hormônios tireoidianos). Deficiência - pouco comum no Brasil - ou excesso de iodo podem desregular a produção hormonal e induzir hipotireoidismo.
O uso de gotas de lugol ou solução SSKI por serem extremamente concentradas em iodo muitas vezes acabam desencadeando quadros de hipotireodismo em pessoas predispostas através da inibição do organificação do iodo (efeito Wolff-Chaikoff).


Medicamentos

Alguns medicamentos podem desencadear hipotireoidismo por diversos mecanismos. Destacam-se: tionamidas (propiltiuracil e metimazol), lítio, amiodarona, interferon alfa, interleucina 2, inibidores da tirosina quinase e alguns imunoterápicos (estes dois últimos são usados no tratamento de alguns tipos de câncer).


Doenças infiltrativas

Hemocromatose, tireoidite fibrosante e sarcoidose, felizmente, são causas raras de hipotireoidismo.


Hipotireoidismo transitório

Em algumas situações o quadro de hipotireoidismo é autolimitado, isto é, melhora sem tratamento após período de tempo variável.
As tireoidites silenciosa, subaguda e pós-parto são doenças que lesam o tecido tireoidiano. Como consequência, os estoques hormonais são liberados na corrente sanguínea causando HIPERtireoidismo no início do quadro. Após alguns dias ou semanas, os níveis hormonais caem e se instala o HIPOtireoidismo, que costuma ir melhorando a medida que a tireoide recupera sua capacidade de produção hormonal.


Hipotireoidismo congênito

Algumas crianças já nascem com hipotireoidismo. Má formação da tireoide ou defeitos na produção hormonal são possíveis causas. Felizmente, o teste do pezinho detecta precocemente estes casos, permitindo que o tratamento seja precoce e que se evite sequelas como retardo mental.


Hipotireoidismo central e resistência generalizada aos hormônios tireoidianos

São as causas mais raras de hipotireoidismo. No hipotireoidismo central, a hipófise ou o hipotálamo não enviam a ordem (TSH ou TRH) para que a tireoide produza seus hormônios.
Já na resistência generalizada aos hormônios tireoidianos, a tireoide costuma produzir níveis elevados de hormônios. Porém os receptores hormonais localizados nos diferentes tecidos não funcionam direito. É como se a chave (T4 e T3) não encaixasse na fechadura (células do nosso organismo).

Referência:
1- Ross DS. Disorders that cause hypothyroidism. UpToDate.

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Doutor e Mestre em Endocrinologia pela UFRGS
CRM-RS 30.576 - RQE 22.991

www.facebook.com/drmateusendocrino

Texto revisado pelo Departamento de Tireoide.

quarta-feira, 11 de março de 2020

Vitamina D e coronavírus (COVID-19)

Desde tempos remotos, aproveitadores usam o medo e o pânico para tirarem vantagem. Surtos e epidemias, como a do coronavírus (COVID-19), são um prato cheio para charlatões. Em meio à desinformação, maus profissionais oferecem tratamentos sem evidência de eficácia, fúteis e até mesmo deletérios, com a única pretensão de lucrar.


É verdade que existem evidências experimentais de que a vitamina D possa ter efeito modulatório sobre o sistema imunológico. Células de defesa, como macrófagos e linfócitos, expressam receptores para vitamina D. Além disso, existe a hipótese de que a diminuição nos níveis de vitamina D, que acontece nos meses de inverno, poderia explicar o aumento no número de infecções respiratórias virais. Porém, defender o uso de vitamina D como estratégia de prevenção ao coronavírus ainda é um grande equívoco! Explico...
Em 2017, o British Medical Journal publicou uma revisão de 25 estudos sobre o uso do vitamina D como estratégia de prevenção de doenças respiratórias agudas. No total, foram avaliados mais de 10.000 pacientes. O uso de vitamina D reduziu em 1,9% a incidência de infecções, especialmente naqueles com níveis basais abaixo de 10 ng/mL. No entanto, o uso da vitamina D não foi capaz de reduzir eventos adversos graves como pneumonias, necessidade de hospitalização ou morte. Esse estudo é frequentemente citado pelos enganadores, que o interpretam de forma equivocada ou tendenciosa. Vamos por partes...
O uso da vitamina D não foi 100% eficaz. Aliás, ficou bem longe disso! Para cada 52 pacientes que fizeram uso do tratamento, apenas 1 se beneficiou. E esse benefício se restringiu a sintomas leves como coriza, tosse e febre. Outro detalhe: o uso de doses de ataque ou megadoses, frequentemente oferecidas pelos picaretas, não foi tão eficaz quanto a suplementação diária em doses habituais.
Vale ressaltar que o uso da vitamina D ainda não foi estudado no contexto da epidemia do coronavírus. Logo, os resultados do estudo acima não podem ser extrapolados para essa condição específica. Não podemos afirmar que a vitamina D possa ajudar, ou mesmo que possa fazer mal neste contexto. Por isso, seu uso não é recomendado.
Pesquisadores sérios estão testando antivirais e vacinas contra o COVID-19 neste momento. Até que tenhamos os resultados destes estudos, as melhores estratégias de prevenção são evitar o contato com pessoas doentes, lavar as mãos e manter medidas de higiene respiratória (como cobrir a boca ao tossir). Vitamina D ainda não é (e talvez nunca seja) uma opção para o tratamento do COVID-19!

Referências:
1- World Health Organization. Director-General's remarks at the media briefing on 2019-nCoV on 11 February 2020. https://www.who.int/dg/speeches/detail/who-director-general-s-remarks-at-the-media-briefing-on-2019-ncov-on-11-february-2020 (Accessed on February 12, 2020).
2- Martineau AR, Jolliffe DA, Hooper RL, et al. Vitamin D supplementation to prevent acute respiratory tract infections: systematic review and meta-analysis of individual participant data. BMJ 2017; 356:i6583.
3- Martineau AR, Jolliffe DA, Greenberg L, et al. Vitamin D supplementation to prevent acute respiratory infections: individual participant data meta-analysis. Health Technol Assess 2019; 23:1.

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Doutor e Mestre em Endocrinologia pela UFRGS
CRM-RS 30.576 - RQE 22.991

Hipertireoidismo durante a gravidez

Doença pouco frequente em gestantes O hipertireoidismo é o estado de hiperfuncionamento da glândula tireoide, isto é, de produção aumentada ...