segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Diabettic (adesivo antidiabetes): não caia nesse golpe!

A  suposta "bala mágica"...

Há poucos dias, viralizou na internet um anúncio sobre um adesivo capaz de curar o diabetes. O dispositivo, batizado de Diabettic, seria supostamente capaz de “estabilizar definitivamente o quadro de diabetes tipo 1 e 2”. Ainda de acordo com o site, “através de sua fórmula exclusiva, combinando compostos 100% naturais, Diabettic foi testado e 'unanimemente' aprovado”.

O site também prometia a cura da neuropatia diabética (uma complicação do diabetes nos nervos), efeitos rápidos (em 15 dias), 100% de eficácia e o fim da dependência de medicamentos e de seus efeitos nocivos ao organismo. Esses efeitos foram atestados por um suposto médico endocrinologista chamado de Gerônimo Telmann, cuja foto foi divulgada no site. Tudo isso, por um preço que variava de R$ 9,90-24,50 por adesivo, a depender do pacote comprado (com 6, 18 ou 30 adesivos).

Imagem veiculada no anúncio do suposto tratamento

...é somente mais um golpe!

Infelizmente, tudo não passava de um GIGANTESCO golpe. As substâncias listadas no adesivo não têm respaldo científico para o tratamento do diabetes ou de qualquer uma de suas complicações. Não há registros de estudos clínicos que corroborem a utilização desse dispositivo em seres humanos. O suposto Dr. Gerônimo Telmann também não consta no site do Conselho Federal de Medicina, tampouco nos registros da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.

Outros pontos merecem comentários sobre o site: o registro é “.com” e não “.com.br”, sugerindo que é criado numa conta fora do Brasil. Não existe nenhum nome de empresa ou CNPJ na divulgação. Não existe um endereço para correspondência; apenas um número de telefone celular. Todos os indicativos de que a pessoa por trás desse golpe não quer ser identificada.


Não é a primeira vez que um "produto natural" promete benefícios milagrosos

Esta não é a primeira vez que supostos produtos naturais com benefícios milagrosos para o diabetes viralizam nas redes sociais. Substâncias como água de quiabo, suco de maxixe, farinha da casca do maracujá e os mais variados chás (chá verde, camomila, hibisco, supervit, pata de vaca, ban-chá, carqueja, sálvia e chá preto)[1] já foram apontados como remédios ou curas para o diabetes em sites de origem duvidosa. Muitas vezes, esses produtos são também colocados à venda na internet.


Pacientes com diabetes são alvos frequentes de charlatões

Mas quais as motivações para as práticas de charlatanismo relacionadas ao diabetes? Sem dúvida, a principal delas é a existência de um mercado favorável. Pense bem: quantas pessoas você conhece que se interessariam por comprar uma possível cura para o diabetes?

A Sociedade Brasileira de Diabetes estima que existam mais de 14 milhões de pessoas com diabetes no Brasil.[2] De acordo com o VIGITEL BRASIL 2018, a frequência do diagnóstico médico de diabetes em adultos nas 27 capitais brasileiras é de 7,7%, sendo maior entre as mulheres (8,1%) do que entre os homens (7,1%).[3] Ou seja: é muita gente! Somado a isso o fato do diabetes ser uma doença crônica cujos custos associados ao tratamento são frequentemente elevados, a venda de qualquer “cura” para esse problema se torna uma alternativa atrativa para o público e extremamente lucrativa para os charlatões.


Tratamentos falsos podem causar prejuízos graves

Em um mercado onde faltam escrúpulos, precisamos estar atentos. A interrupção do tratamento com insulina em pacientes com diabetes tipo 1 (forma mais comum de diabetes em crianças) pode levar à morte por cetoacidose diabética em poucos dias. Efeitos desastrosos podem ocorrer também em pacientes com diabetes tipo 2 (forma mais comum da doença). Por isso, diante de qualquer informação sobre novas alternativas de tratamento para qualquer doença, todo cuidado é pouco. Aqui, vale a máxima “quando a esmola é demais, o santo desconfia”.


Aprenda a identificar anúncios falsos e fake news

Com um pouco de atenção, é possível se identificar diversos elementos que sugerem que o Diabettic se trate de um golpe. São evidentes a “polarização” (“remédio natural barato” x “remédio caro da indústria”), a “promessa de cura de doença crônica”, a “falta de rigor científico” etc. Para auxiliá-los nesse processo, sugiro a leitura das doze dicas para identificar charlatanismo,[4] aqui no blog.
É inegável o enorme potencial das redes sociais para o compartilhamento de informações relacionadas à saúde. Infelizmente, as informações compartilhadas nem sempre são confiáveis. Tome muito cuidado com esses produtos “milagrosos” vendidos pela Internet. Não coloque sua vida ou de seus familiares em risco. Antes de tomar qualquer atitude relacionada à sua saúde ou ao tratamento de qualquer doença sua ou de seus familiares, consulte um médico de sua confiança. Esse ainda é o melhor remédio para não cair nas armadilhas criadas pelos charlatões!

Referências:
1- Sociedade Brasileira de Diabetes. Chás e ervas são capazes de auxiliar no tratamento e combate do diabetes? Coluna Diabetes em Debate; 2019. Disponível em: <https://www.diabetes.org.br/publico/diabetes-em-debate/1828-coluna-verdadeiro-ou-falso-4-chas-e-ervas-sao-capazes-de-auxiliar-no-tratamento-e-combate-do-diabetes>.
2- Sociedade Brasileira de Diabetes. Mais de 14 milhões de pessoas têm diabetes no Brasil e 72 mil morrem todos os anos no país. SBD na Imprensa; 2016. Disponível em: <https://www.diabetes.org.br/publico/para-voces/sbd-na-imprensa/1413-mais-de-14-milhoes-de-pessoas-tem-diabetes-no-brasil-e-72-mil-morrem-todos-os-anos-no-pais>.
3- Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Análise em Saúde e Vigilância de Doenças não Transmissíveis. Vigitel Brasil 2018: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico: estimativas sobre frequência e distribuição sociodemográfica de fatores de risco e proteção para doenças crônicas nas capitais dos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal em 2018 / Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Análise em Saúde e Vigilância de Doenças não Transmissíveis. – Brasília: Ministério da Saúde, 2019. Disponível em: <https://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2019/julho/25/vigitel-brasil-2018.pdf>.
4- Severo MD. Doze dicas para identificar charlatanismo. Blog da Comissão de Valorização de Novas Lideranças da SBEM; 2019. Disponível em: <https://novasliderancassbem.blogspot.com/2019/06/doze-dicas-para-identificar.html>.

Dr. Wellington Santana da Silva Júnior
Endocrinologista e Metabologista
Professor da Disciplina de Endocrinologia da UFMA
Doutor em Ciências pela UERJ 
Presidente da CVNL da SBEM - Biênio 2019/2020
CRM-MA 5188 - RQE 2739

Texto revisado pelo Presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Dr. Rodrigo O. Moreira.

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