quinta-feira, 21 de maio de 2020

O uso de anabolizantes interfere na sexualidade?

Testosterona, seus derivados e libido

A resposta para esta pergunta é sim, porém esta interferência tem aspectos bastante antagônicos.

Se, por um lado, os esteroides anabolizantes, principalmente representados pelo hormônio testosterona e seus derivados sintéticos, podem ter efeito estimulatório sobre a libido, por outro trazem consequências que, em longo prazo, podem reduzi-la, além de outros efeitos deletérios ao organismo que serão listados a seguir:



Efeitos dos anabolizantes no organismo

O uso de anabolizantes pode provocar dependência química e psíquica, assim como outras drogas, ainda provocar disfunções em outros órgãos, como coração, fígado, rins, pele e órgãos sexuais.

Levando em consideração a sexualidade, vamos especificar a ação dos anabolizantes na parte física, comportamental, no sistema reprodutor e o cardiovascular.

O efeito androgênico dos anabolizantes provoca aumento da oleosidade da pele, acne e queda de cabelo, como principais efeitos colaterais, além da masculinização que ocorre nas mulheres, representada principalmente e pelo aumento do clitóris e do timbre vocal. Nos homens podemos ter aumento das mamas, chamado de ginecomastia.

No comportamento, temos um aumento dos transtornos de humor, como depressão, da agressividade e impulsividade, com registros até de aumento da criminalidade e casos de violência, além da dependência química e psíquica, com demandas por doses cada vez maiores, buscando sentir os mesmos efeitos do início do uso, assim como acontece, por exemplo,  com uso  de drogas como cocaína e crack. Alterações do sono como apneia obstrutiva também podem ser identificados.

No sistema reprodutor temos a inibição da liberação de hormônios chamados gonadotrofinas, que são liberados pela glândula hipófise, e controlam o funcionamento dos testículos e ovários, podendo levar desde distúrbios menstruais, prejudicando a fertilidade nas mulheres até interrupção definitiva da produção de testosterona e espermatozoides nos homens, levando à impotência e também infertilidade, e ainda sintomas do aumento da glândula prostática.

A função sexual está diretamente ligada e dependente da integridade do sistema cardiovascular (coração e vasos sanguíneos), neste caso, o uso de anabolizantes, tanto os similares à testosterona, quanto do hormônio do crescimento, trazem consequências drásticas ao coração e artérias.

No músculo cardíaco especificamente, diversos estudos mostram disfunção, com aumento do tamanho cardíaco, perda de força e desenvolvimento de insuficiência cardíaca no longo prazo.

Já nas artérias, pode ocorrer aumento da pressão arterial, do estímulo a deposição das placas de gordura (aterosclerose) devido a piora do perfil lipídico (colesterol), que levam ao aumento de risco para infarto agudo do miocárdio, AVE (AVC/derrame), além de eventos em membros inferiores e rins.  Outra alteração fisiopatológica com o uso da testosterona é o estímulo à eritrocitose, que leva ao aumento da viscosidade do sangue, podendo contribuir para os fenômenos tromboembólicos.


Mais prejuízos do que benefícios

Portanto, a busca pelo corpo ideal, maior vigor físico e melhor desempenho sexual através do uso de anabolizantes, passa a ser contraditório quando temos conhecimento dos efeitos deletérios destas substâncias em nosso organismo em longo prazo. Nos restringindo a sexualidade, alertamos que o uso pode provocar a perda de libido, infertilidade e outras alterações físicas e mentais não desejadas. 

Referências: 
1- Off-label use and misuse of testosterone, growth hormone, thyroid hormone, and adrenal supplements: risks and costs of a growing problem. Endocrine Practice vol 26 no. 3 march 2020.
2- Compounded Bioidentical Hormones in Endocrinology Practice: An Endocrine Society Scientific Statement. J Clin Endocrinol Metab 101:1318-1343, 2016.

Dr. Emerson Cestari Marino
Médico Endocrinologista
CRM-PR 31.440 - RQE 17.221

Texto revisado pelo DEFA.

Um comentário:

  1. Dr. Emerson,
    O CFM e a SBEM condenam a administração de testosterona em pacientes com intuito de elevar seu nível para fins estéticos (ganho de massa muscular) e de melhorar a performance nas atividades físicas. Ambas as instituições classificam como ilegal tal iniciativa dizendo que os médicos que adotarem a prática podem sofrer sanções dos conselhos de medicina e mesmo processos na esfera jurídica. Ambas as instituições alegam que os prejuízos à saúde superam os eventuais benefícios, por isso sua proibição. A hormonização só deverá ser adotada em casos clínicos comprovados de deficiência do hormônio.
    Pois bem...
    O CFM e a SBEM, ao passo que condenam a hormonização de homens (e também mulheres) cisgênero para fins estéticos, liberam a hormonização de pacientes transgênero. Não tenho trânsito em questões médicas dessa natureza, mas observando de fora, na posição de paciente, tal atitude me parece um contrassenso. Eu, homem cisgênero, que já produzo testosterona sou proibido por essas instituições de aumentá-la por razões estéticas, mas um homem transgênero que biologicamente produz testosterona em quantidades muito menores que eu, tem o aval dessas instituições para aumentá-la. Como assim?
    O homem transgênero precisa ter sua testosterona aumentada quantas vezes mais para gerar caracteres masculinos como crescimento da barba, pelos e anabolismo muscular? 100, 200x?
    O homem cisgênero precisa ter sua testosterona aumentada quantas vezes mais para gerar anabolismo muscular? 2, 3x?
    Se meu raciocínio matemático estiver correto, fica evidente que o homem transgênero necessitará de doses muito mais altas do hormônio, uma vez que seu organismo é biologicamente feminino. Não é justamente essa a razão que a SBEM emprega para negar a hormonização em homens cisgênero para fins estéticos? Que altas doses de testosterona são prejudiciais à saúde? Mas, se houve a liberação da hormonização em pacientes transgênero esse raciocínio fica prejudicado! Ou altas doses de testosterona somente serão prejudiciais aos homens cisgênero?
    O homem transgênero nada sofrerá? Não terá problemas cardiovasculares, desenvolvimento de cânceres, problemas hepáticos? Não? Somente o homem cisgênero sofrerá toda a sorte de horrores?
    A endocrinologista dra. Juliana Gabriel Ribeiro de Andrade (CRM-SP 127584), em canal no Youtube, comenta que a terapia de hormonização em pacientes transgênero é perfeitamente segura e que existem protocolos internacionais de utilização que garantem sua segurança e eficácia. Alguns endocrinologistas que me consultei se recusaram a aumentar minha testosterona para ganho de massa muscular alegando não existir segurança no uso de hormônios para essa finalidade. Então, só existe protocolo de utilização e segurança para pacientes trans? A medicina não tem um protocolo de utilização e segurança para homens cisgênero que desejam aumentar sua massa muscular por meio da testosterona? Se não existe tal protocolo, porque ele ainda não foi desenvolvido? Estaríamos diante de um julgamento de valor?
    A medicina reconhece o sofrimento psicológico e mesmo físico de pacientes transgênero e nesse sentido o tratamento hormonal estaria liberado. Como no caso dos homens cisgênero a questão rondaria o campo da estética, portanto, seria vista como algo menor? Um anseio que mereça ser vetado? Não teria o aval das instituições competentes por não se aplicar primordialmente ao tratamento de uma doença? Seria a medicina fazendo avaliações morais, subjetivas?
    Acredito que a medicina precisa e deva se pautar por critérios objetivos de avaliação. A modificação corporal é um direito de qualquer paciente, independentemente de ser cis ou transgênero. Reconheço o conforto psicológico, físico e emocional que a hormonização representa na vida de alguns homens transgênero da mesma forma que reconheço a melhora da saúde emocional e o aumento da auto-estima que a hormonização estética representa à alguns homens cisgênero. Mas, se o excesso de hormônio traz prejuízos à saúde deveria ser vetado nos dois casos!

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