Mostrando postagens com marcador medicamentos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador medicamentos. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

DHEA e envelhecimento

A deidroepiandrosterona (DHEA) e sua forma sulfatada, o sulfato de deidroepiandrosterona (SDHEA), são produzidos predominantemente pelas glândulas adrenais, que estão localizadas acima de cada um dos rins. A DHEA é frequentemente citada como um androgênio fraco, isto é, um hormônio com propriedades masculinizantes. Entretanto, não há evidência de que ela se ligue ao receptor androgênico e, assim, DHEA têm pouca ou nenhuma atividade androgênica intrínseca. Ela é convertida em hormônios ativos para exercer suas funções biológicas.
A produção da DHEA atinge seu pico por volta dos 25 anos. Ela diminui à medida que envelhecemos. Por volta dos 80 anos, a concentração de DHEA é cerca de 80% menor.

Imagem: Wikimedia Commons

Pequenas quantidades da DHEA são convertidas em androgênios mais ativos (androstenediona, androstenediol, testosterona e 5-dihidrotestosterona) ou mesmo em estrogênios (estradiol e estrona) nas glândulas adrenais, nos folículos pilosos (locais onde crescem os pelos), próstata, gônadas e no tecido adiposo (gordura). Nas mulheres, DHEA e SDHEA são fontes importantes de efeito androgênico, o que não acontece nos homens.
O interesse em suplementar DHEA é crescente. Na mídia leiga, vários efeitos benéficos têm sido defendidos, como ação vasodilatadora, antidepressiva, anti-inflamatória, antiaterosclerótica e mesmo antienvelhecimento. Logo, DHEA é uma panaceia, cujos efeitos aventados são oriundos, em sua maioria, de estudos experimentais, sobretudo em roedores. Entretanto, roedores são modelos experimentais inadequados para o estudo da DHEA. Diferentemente dos seres humanos, esses animais apresentam baixas concentrações endógenas de DHEA, cuja origem é predominante gonadal. Além disso, as doses testadas nesses estudos são, via de regra, suprafarmacológicas, inviabilizando a possibilidade de qualquer extrapolação de resultados. Mas será a DHEA a tão procurada "fonte da juventude"?
A primeira associação entre DHEA e aumento de longevidade ocorreu em um estudo realizado em macacos Rhesus machos. Esses animais foram submetidos à restrição calórica, uma intervenção sabidamente capaz de aumentar a sua sobrevida, e foram pesquisados possíveis biomarcadores de longevidade. Dentre esses biomarcadores, o SDHEA foi associado a um aumento na sobrevida dos macacos e esses resultados foram verificados também em seres humanos. Esse paralelismo entre um biomarcador de longevidade em macacos e em seres humanos levantou a hipótese de que a DHEA ou o SDHEA pudessem ter alguma ação relacionada ao aumento da expectativa de vida, hipótese que nunca foi comprovada.
Em mulheres com insuficiência adrenal, doença caracterizada pela redução na produção de corticoides, o uso da DHEA pode ser útil em situações limitadas. Doses entre 25 e 50 mg por dia podem melhorar o bem-estar e sintomas psicológicos. É possível que haja também melhora na função sexual, massa óssea e massa magra. Vale lembrar que esses efeitos benéficos foram observados em mulheres com doença adrenal grave, mas não na redução hormonal relacionada à idade.
Quando utilizada como estratégia "antiaging", a DHEA não mostra resultados tão animadores. Ensaios clínicos randomizados têm resultados conflitantes com relação ao bem-estar. Com relação ao aumento de massa magra, os estudos são categóricos em afirmar que o uso da DHEA para aumento da massa magra não funciona. Apesar de estudos em animais evidenciarem redução de gordura abdominal, a maioria dos estudos com seres humanos não evidenciou esse efeito. Outras propriedades não observadas foram prevenção da perda de memória e prevenção de doenças cardiovasculares.  Por fim, o uso de DHEA pode aumentar, de maneira muito discreta, a densidade mineral óssea, principalmente no fêmur. Contudo, é provável que esta ligeira melhora no tecido ósseo não seja suficiente para determinar prevenção de fraturas.
O uso da DHEA não é isento de efeitos adversos. Aumento da oleosidade da pele, crescimento excessivo de pelos, redução do colesterol HDL ("colesterol bom"), palpitações e surtos maníacos podem acontecer, já que estamos falando de um precursor de androgênios potentes. Outro problema é com relação à sua pureza. Como a DHEA é importada e, nos Estados Unidos, é considerada um suplemento alimentar, muitas vezes as apresentações comerciais têm origem duvidosa e concentrações diferentes das informadas no rótulo. Para exemplificar, um estudo americano evidenciou variações de 0-150% nas quantidades de DHEA em relação ao rótulo dos produtos.
Em resumo, com base nas evidências, há um potencial limitado para o uso da DHEA. Ele restringe-se a mulheres com insuficiência adrenal primária e sintomas depressivos e/ou baixos níveis de energia apesar das reposições otimizadas de glicocorticoides e mineralocorticoides. Associados à eficácia limitada, os raros, porém potencialmente graves efeitos adversos e o controle insatisfatório de qualidade dos suplementos restringem ainda mais o uso da DHEA na prática clínica. Além disso, os estudos que avaliaram esse tipo reposição envolveram poucos participantes e não duraram mais do que 2 anos. Isto compromete muito a capacidade de generalização dos resultados, principalmente em relação à segurança do tratamento.
Ainda não foi desta vez que a ”modulação hormonal” mostrou-se capaz de combater o processo de envelhecimento...

Fontes: 
1- UpToDate On Line - DHEA and its sulfate.
2- Dhatariya KK, Nair KS. Dehydroepiandrosterone: is there a role for replacement? Mayo Clin Proc. 2003 Oct;78(10):1257-73.
3- Roth GS, Lane MA, Ingram DK, Mattison JA, Elahi D, Tobin JD et al. Biomarkers of caloric restriction may predict longevity in humans. Science. 2002 Aug 2;297(5582):811.
4- Alkatib AA, Cosma M, Elamin MB, Erickson D, Swiglo BA, Erwin PJ et al. A systematic review and meta-analysis of randomized placebo-controlled trials of DHEA treatment effects on quality of life in women with adrenal insufficiency. J Clin Endocrinol Metab. 2009 Oct;94(10):3676-81.
5- Bornstein SR, Allolio B, Arlt W, Barthel A, Don-Wauchope A, Hammer GD et al. Diagnosis and treatment of primary adrenal insufficiency: an Endocrine Society clinical practice guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2016 Feb;101(2):364-89.
6- Parasrampuria J, Schwartz K, Petesch R. Quality control of dehydroepiandrosterone dietary supplement products. JAMA. 1998 Nov 11;280(18):1565.

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Doutor e Mestre em Endocrinologia pela UFRGS
CRM-RS 30.576 - RQE 22.991

Dr. Wellington Santana da Silva Júnior 
Médico Endocrinologista, Doutor em Ciências
Professor Adjunto do Curso de Medicina da UFMA
Presidente da CVNL da SBEM - Biênio 2019/2020
CRM-MA 5188 - RQE 2739

Texto revisado pelo Departamento de Adrenal e Hipertensão.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Termogênicos - vale a pena investir?

Termogênicos prometem...

Os termogênicos, também conhecidos como “fat burners”, são substâncias que alegam propriedades auxiliadoras no processo de emagrecimento. As suas possíveis ações descritas são:
a) aumento da lipólise (quebra das moléculas de gordura);
b) aumento do metabolismo basal (maior gasto energético);
c) desenvolvimento do tecido adiposo marrom (considerado um tecido que aumenta o consumo de energia);
d) redução da resistência insulínica (reduzindo risco de diabetes);
e) redução da lipogênese (redução do acumulo de moléculas de gordura), entre outras.



...porém, não cumprem.

Através de distintas vias metabólicas, essas diversas ações aconteceriam. As explicações bioquímicas muitas vezes são lógicas e fazem todo o sentido. O grande problema é que essas informações são obtidas, na imensa maioria, de modelos experimentais (células isoladas ou animais). Os resultados favoráveis em seres humanos, quando existentes,  costumam ser pífios e em pequeno numero de indivíduos.
Não existe, hoje, evidência científica suficiente que nos habilite a recomendar o uso de termogênicos como uma abordagem efetiva e segura na obesidade.


Efeitos adversos podem ocorrer

Outro grande problema consiste na própria segurança dos produtos em si. Muitas formulações termogênicas (os chamados blends ou pré-treinos) são constituídos por um conjunto de inúmeras substâncias. É frequente a incerteza quanto a totalidade dos componentes presentes e de suas concentrações. Dessa forma, o risco de toxicidade e interações químicas é imprevisível.
Casos de arritmia cardíaca, taquicardia, crises de pânico, ansiedade, crises hipertensivas e até morte súbita já foram descritos com o uso de termogênicos. Também já foram relatados a presença de contaminantes biológicos e químicos com potencial de nefro e hepatotoxicidade elevados.  E, consequentemente, com alto risco de letalidade.


Termogênicos  não têm função no tratamento da obesidade

Infelizmente, o consumo de termogênicos apresenta um crescimento preocupante entre a população brasileira. A busca pela “solução mágica rápida e efetiva”. A procura da “bala de prata” para a obesidade pode seduzir. Precisamos advertir que a obesidade é um grave problema de saúde pública. É uma patologia crônica, progressiva e que precisa ser tratada com seriedade.
Procure um profissional endocrinologista qualificado. Saiba como no vídeo explicativo: https://youtu.be/W4kzNHOMc54

Dr. Fúlvio Clemo Santos Thomazelli
Medico Endocrinologista
CRM-SC 7031 - RQE 12343
Vice-presidente SBEM SC
Membro da CTEEE da SBEM

Texto revisado pela Comissão Temporária de Endocrinologia do Esporte e do Exercício.

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Eficácia e segurança de estatinas utilizadas em crianças por um período de 20 anos

Estatinas são alvo frequente de fake news

Em um texto publicado recentemente em nossas mídias sociais, falamos da forte relação entre hipercolesterolemia e doenças cardiovasculares (infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral). Já está bem estabelecido na literatura médica que as estatinas (um grupo de drogas que reduzem o colesterol) são drogas seguras e eficazes em pacientes adultos, principalmente naqueles com risco aumentado para esses eventos. Mesmo assim, falsas afirmações a respeito desta classe de fármacos vêm sendo propagadas na internet, assustando as pessoas que precisam usar estas medicações de forma contínua. Estudo publicado recentemente numa das maiores revistas médicas do mundo (The New England Journal of Medicine) mostra dados muito importantes, que corroboram a eficácia e segurança das estatinas em pacientes com hipercolesterolemia familiar acompanhados por um período de 20 anos. Nas próximas linhas faremos um breve resumo do estudo e a que conclusões podemos obter com seus dados.

Imagem: Pixabay

Por que estudar o uso de estatinas em portadores de hipercolesterolemia familiar (HF)?

A HF é um grupo de condições genéticas causadas por mutações que impedem que o mau colesterol (LDL-c) seja removido do sangue de forma eficaz, fazendo com que ele se acumule. Pelo fato deste aumento ser intenso e iniciado precocemente (na infância), o risco de doenças cardiovasculares é elevado. O artigo em questão faz o seguimento de um grupo de mais de 200 crianças (isso mesmo, CRIANÇAS), que foram diagnosticadas com HF e selecionadas num primeiro estudo, entre 1997 e 1999. Durante este período foram tratadas com pravastatina (um tipo de estatina) e sua eficácia e segurança foram demonstradas neste primeiro trabalho. 


Como este estudo foi desenvolvido?

Essas crianças foram acompanhadas por um período de 20 anos e comparadas com seus respectivos irmãos sem a doença. Isso foi muito importante, pois eles compartilham muitas outras características semelhantes sendo os altos valores do LDL-c uma das poucas diferenças. A análise feita em ambos os grupos foi o que chamamos de espessura da camada média das carótidas. O aumento desta medida é um dos primeiros eventos na formação da placa aterosclerótica. E o que foi visto? No grupo com a doença, onde a maioria estava em uso de estatinas, a taxa de progressão desta espessura foi muito semelhante ao grupo controle. Ou seja, tudo leva a crer que o uso da medicação reduziu a velocidade de formação da placa de gordura.
O outro braço deste estudo foi a que comparou o número de eventos e morte cardiovascular. Neste caso o grupo controle foi formado por familiares que tinham o diagnóstico de HF. Como eles não participaram do estudo original a maioria não usava estatinas. Aqui novamente temos dados muito importantes: as crianças que utilizaram as estatinas por um longo período de tempo tiveram uma redução significativa de eventos cardiovasculares (infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral).


Quais os principais pontos positivos deste trabalho? 

1. Foi feito inicialmente com crianças, grupo onde ainda temos um número menor de informações a respeito das indicações e possíveis efeitos colaterais das estatinas. Aqui tivemos pouquíssimos efeitos colaterais e quando houveram, foram leves. 
2. Os participantes foram acompanhados por 20 anos, um longo período de observação.
3. Mostrou que, além de segura, a medicação foi eficaz em reduzir a velocidade de progressão da espessura média de carótidas (um evento inicial da aterosclerose) bem como uma redução no número de eventos cardiovasculares.
4. A maior parte dos indivíduos não atingiu as metas de LDL-c preconizados atualmente (a média nos portadores de HF foi de 160 mg/dl) e apenas 20% obtiveram valores abaixo de 100 mg/dl. Mesmo assim os efeitos das estatinas foram benéficos quando iniciadas precocemente. Isso corrobora a hipótese de que seu efeito positivo vai além de simplesmente reduzir o colesterol. A redução das doenças cardiovasculares é inquestionável com as estatinas.
5. Reforça duas ideias em relação ao LDL-c que ganham cada vez mais força na literatura atual: “the lower, the better” (quanto menor, melhor) e também, “the younger, the better” (quanto mais jovem, melhor). É provável que muito em breve iremos rever as indicações de início de tratamento das crianças com HF (atualmente é entre 8 e 10 anos).


Estatinas são seguras, mesmo em crianças

Como conclusão, este é mais um estudo que demostra não só a eficácia como a segurança das estatinas. Não resta mais nenhuma dúvida quanto ao seu papel fundamental na prevenção de doenças cardiovasculares – tanto em crianças como em adultos. Os possíveis efeitos colaterais não são frequentes e na maior parte dos casos, são leves. Portanto, uma vez corretamente indicada a droga deve ser utilizada de forma contínua e desta forma trará diversos benefícios a estes pacientes.  

Referência:
1- Luirink, I. K., Wiegman, A., Kusters, D. M., Hof, M. H., Groothoff, J. W., de Groot, E., Hutten, B. A. (2019). 20-Year Follow-up of Statins in Children with Familial Hypercholesterolemia. New England Journal of Medicine, 381(16), 1547–1556.

Dr. Ricardo Mendes Martins
Médico Endocrinologista
CRM-RJ 778.559 - RQE 15.753
Professor de Medicina da Unigranrio
Professor de Medicina da UFF 
Médico do Instituto Nacional de Cardiologia

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

hCG e emagrecimento – vale a pena correr o risco?

Epidemia de excesso de peso e a busca por opções terapêuticas

Que vivemos em uma epidemia de excesso de peso e obesidade, não há dúvidas. A crescente consciência de que os quilos a mais não trazem somente prejuízo estético, mas também problemas de saúde como diabetes mellitus tipo 2, pressão alta, colesterol alto, risco aumentado de morte por doenças cardiovasculares e câncer, tem feito com que se procure alternativas para o tratamento. Um método que volta e meia reaparece como possível solução é o uso da gonadotrofina coriônica humana ou hCG. Mas será um tratamento válido? Vejamos o que nos dizem as evidências científicas...

Imagem: Wikimedia Commons

O hCG já foi estudado, mostrou ausência de benefício...

Ao contrário do que se imagina, a controvérsia sobre o uso do hCG para o emagrecimento já tem mais de 60 anos. Em 1954, o Dr. Simeons publicou na revista Lancet o artigo intitulado “The action of chorionic gonadotrophin in the obese”. Neste estudo, o hCG era usado em conjunto com uma dieta altamente restritiva, de apenas 500 calorias por dia, com o objetivo de se fazer perder peso sem fome e mantendo a massa muscular. Contudo, estudos melhor desenhados realizados a partir da década de 1970 não mostraram esse efeito benéfico do hCG. No ano de 1995, o Dr. Lijensen publicou na revista British Journal of Clinical Pharmacology uma extensa revisão de todos os estudos científicos realizados com hCG para o emagrecimento até o momento. O artigo “The effect of human chorionic gonadotropin (HCG) in the treatment of obesity by means of the Simeons therapy: a criteria-based meta-analysis” avaliou 16 estudos e concluiu que não existe qualquer evidência de que o hCG seja efetivo no tratamento da obesidade. Além de não auxiliar na perda do peso, o hCG não é melhor que o placebo em manter a massa magra, reduzir a fome ou manter o bem-estar. Em outras palavras, este estudo diz que usar hCG ou injeções de água dá na mesma, ou seja, é um tratamento sem efeito.


...além de potenciais efeitos adversos graves

Como se isso já não bastasse, começaram a aparecer relatos na literatura associando o uso do hCG para emagrecimento com efeitos adversos graves como trombose: artigo publicado em 2013 pelo Dr. Goodbar na revista Annals of Pharmacotherapy: "Effect of the human chorionic gonadotropin diet on patient outcomes".


Não é ético prescrever tratamentos que não funcionam visando o lucro 

Mas se o hCG não funciona e pode fazer tão mal, por que alguns médicos defendem seu uso e o prescrevem? Chegamos aqui a um ponto extremamente delicado...
Segundo os artigos 14, 112, 113 e 114 do Código de Ética Médica é vetado ao médico: praticar ou indicar atos médicos desnecessários ou proibidos pela legislação vigente no País; divulgar informação sobre assunto médico de forma sensacionalista, promocional ou de conteúdo inverídico; divulgar, fora do meio científico, processo de tratamento ou descoberta cujo valor ainda não esteja expressamente reconhecido cientificamente por órgão competente; anunciar títulos científicos que não possa comprovar e especialidade ou área de atuação para a qual não esteja qualificado e registrado no Conselho Regional de Medicina. Um profissional que esteja disposto a ser tão anti-ético só pode ter um conflito de interesse muito grande com a prescrição do hCG, isto é, está ganhando muito dinheiro com isso.


O tratamento da obesidade exige trabalho sério e ético

Não existe milagre no tratamento do excesso de peso e da obesidade. Existe trabalho sério! Medidas como modificação da dieta baseada em protocolos calóricos e nutricionais seguros; programas de exercício adaptados as capacidades e limitações de cada paciente; e aconselhamento comportamental, incluindo desenvolvimento de hábitos alimentares adequados, como lidar com o estresse e ansiedade, e como adaptar a dieta e o estilo de vida dentro do contexto familiar; geralmente demandam trabalho de equipe multidisciplinar responsável e competente.


Fique de olho! Não caia no papo de aproveitadores

Modismos e aproveitadores existem e sempre existirão. Quando você for ler qualquer texto na internet ou em revistas, ou mesmo quando for assistir alguma entrevista na TV, sempre procure conhecer as fontes. Certifique-se de que sejam pessoas sensatas e atualizadas, se são ligadas a centros acadêmicos ou a produção científica. Vá atrás das referências citadas e consulte as sociedades médicas e agências de vigilância sanitária. Cuide-se!

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Doutor e Mestre em Endocrinologia pela UFRGS
CRM-RS 30.576 - RQE 22.991

Texto revisado pelo Departamento de Obesidade da SBEM.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Fazendo uso correto da levotiroxina (hormônio tireoidiano)

O paciente que faz tratamento com levotiroxina, o hormônio tireoidiano, deve estar atento para alguns detalhes importantes. O objetivo das recomendações a seguir é facilitar o ajuste da dose, assim como mantê-la estável.

Imagem: Flickr

Recomendação 1.

Sempre informe seu endocrinologista do horário e maneira como está tomando a levotiroxina. A recomendação da bula, é tomar o hormônio de estômago vazio, na primeira hora da manhã, idealmente 1 hora antes do café, já que alimentos podem interferir na absorção dos comprimidos. No entanto, em algumas situações, seu médico poderá fazer alguma recomendação diferente, adaptando o tratamento as suas necessidades.


Recomendação 2.

Informe seu médico da marca do medicamento em uso e se foram feitas mudanças recentes na dosagem ou na marca. Nestes casos, é recomendado repetir a dosagem do TSH para se certificar que a nova apresentação ou dosagem está de acordo com suas necessidades.


Recomendação 3.

Medicamentos de uso corrente podem interferir na função tireoidiana ou na absorção da levotiroxina. São eles: lítio, amiodarona, xaropes para tosse, carbonato de cálcio, sulfato ferroso, omeprazol, alguns anticonvulsivantes, medicamentos contendo iodo ou que interfiram na imunidade. Avise seu médico se estiver usando alguma destas substâncias, para que ele possa ajustar a dose do seu hormônio.
Também evite ingerir outros comprimidos junto com a levotiroxina, para garantir absorção correta do hormônio tireoidiano. Tome os outros medicamentos após intervalo de 30 a 60 minutos.


Recomendação 4.

Crie uma rotina e tome a levotiroxina todos os dias da mesma maneira. Eventualmente, se esquecer de tomar a medicação, ingira o comprimido assim que puder, independentemente do horário. Faça disso a exceção e não a regra. A tomada diária, de maneira correta, é importante para manter os níveis hormonais estáveis.

Siga corretamente as recomendações acima e visite regularmente seu endocrinologista.

Referência:
1- Jonklaas J, Bianco AC, Bauer AJ, et al. Guidelines for the treatment of hypothyroidism: prepared by the american thyroid association task force on thyroid hormone replacement. Thyroid 2014; 24:1670.

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista do Hospital Universitário de Santa Maria
Doutor em Ciências Médicas - Endocrinologia - UFRGS
CRM-RS 30.576 - RQE 22.991

Dr. Rafael Selbach Scheffel
Médico Endocrinologista da Unidade de Tireoide do Hospital de Clínicas de Porto Alegre
Doutor em Ciências Médicas - Endocrinologia - UFRGS
CRM-RS 30.011 - RQE 19.512
www.facebook.com/carereumatologiaendocrinologia

Texto revisado pelo Departamento de Tireoide em 1 de julho de 2019.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Insulina inalável tecnosfera: novidade para o tratamento do diabetes

Desde a sua descoberta em 1921, a insulina tem sido uma das mais importantes opções para o controle do diabetes. Ela é o tratamento de escolha para todos os pacientes com o diabetes tipo 1 (causado pela destruição imunológica das células produtoras de insulina; é a forma mais comum de diabetes na infância e acomete aproximadamente uma de cada dez pessoas com diabetes) e em muitos casos de pacientes com o diabetes tipo 2 (forma mais comum, que surge geralmente em adultos, especialmente naqueles com obesidade; nesse caso, o uso de insulina pode ser necessário ou não). Porém, um dos maiores inconvenientes relacionados à insulina é que, até recentemente, a única via disponível para a sua utilização era a injetável, gerando preconceito e rejeição ao seu uso por muitos pacientes. Felizmente, uma novidade promete transformar essa realidade: a insulina tecnosfera, uma forma de insulina inalável (1).
Batizada de Afrezza®, a insulina inalável será comercializada em pó, em cartuchos com três tipos de dosagem: 4, 8 ou 12 unidades (2,3). Para utilizá-la, o paciente deverá encaixar o cartucho em um inalador e aspirar o pó (vide foto). Assim, a insulina chegará aos pulmões e será absorvida pela corrente sanguínea, sendo distribuída para todo o corpo. Embora já estivesse liberada para uso nos Estados Unidos desde 2014 (4), Afrezza® só foi aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para uso no Brasil no dia 30 de maio de 2019. O laboratório Biomm será o responsável pela fabricação e distribuição do produto em nosso país (3).

Imagem: Afrezza / Reprodução / CP

Dentre as vantagens da insulina inalável, merecem destaque o maior conforto (redução do número de injeções) e a sua praticidade (a administração é fácil e não há necessidade de refrigeração) (1,3). Ela também parece promover menos ganho de peso (1), ter início de ação mais rápido e duração de ação mais curta do que as formas convencionais injetáveis, causando assim menos hipoglicemias (níveis baixos de açúcar no sangue) (1,2). 
Porém, nem todas as insulinas injetáveis poderão ser substituídas pela insulina inalável.  Afrezza® irá compor o grupo das insulinas prandiais, ou seja, insulinas de ação rápida utilizadas antes das refeições com os objetivos de conter a elevação da glicose no sangue que ocorre após a ingestão dos alimentos e também de corrigir eventuais glicemias elevadas (insulina humana regular e os análogos de insulina rápida - asparte, glulisina e lispro). As chamadas insulinas basais, de ação intermediária (insulina humana NPH, aplicada entre uma a três vezes ao dia); e as insulinas análogas de ação prolongada (glargina, glargina 300, detemir e degludeca), aplicadas em doses fixas uma ou eventualmente duas vezes ao dia, não poderão ser substituídas por essa versão inalável. As principais insulinas disponíveis no mercado brasileiro que, em tese, poderão ou não ser substituídas por Afrezza® encontram-se listadas no quadro abaixo.


Cabe ressaltar que a insulina inalável também apresenta limitações (1,3). Ela está associada ao surgimento de tosse (que parece ser de leve intensidade, transitória e reversível com a suspensão do tratamento) (3) e é contraindicada em pacientes tabagistas e/ou com doenças pulmonares crônicas, como asma, bronquites, enfisema pulmonar. Os pacientes precisam realizar testes de função pulmonar (espirometria) antes de iniciar o uso e anualmente (1). Afrezza® também está contraindicada para pacientes com idade inferior a 18 anos e em gestantes com diabetes, até que existam estudos de eficácia e segurança específicos para essa população (3). A baixa variedade de dosagens disponíveis também representa uma limitação para o uso da Afrezza®, por impossibilitar a flexibilização do tratamento.
Assim, Afrezza®, a insulina inalável tecnosfera, representa um avanço importante para o tratamento do diabetes e atende aos anseios dos pacientes e de seus familiares, que há tempos sonham com a possibilidade de se obter o controle do diabetes com menos injeções.

Referências:
1- Setji TL et al. Technosphere insulin: inhaled prandial insulin. Expert Opin Biol Ther. 2016;16(1):111-7.
2- Leahy JL. Technosphere inhaled insulin: is faster better? Diabetes Care 2015 Dec;38(12):2282-4.
3- Estadão Conteúdo. Anvisa aprova primeira insulina inalável do Brasil. Revista EXAME. 03 jun 2019; Caderno Ciência. Disponível em: https://exame.abril.com.br/ciencia/anvisa-aprova-primeira-insulina-inalavel-do-brasil/
4- Sociedade Brasileira de Diabetes. Anvisa aprova insulina inalável. 04 jun 2019; Notícias SBD. Disponível em: https://www.diabetes.org.br/publico/noticias-sbd/1853-anvisa-aprova-insulina-inalavel

Dr. Wellington Santana da Silva Júnior
Endocrinologista e Metabologista
Professor da Disciplina de Endocrinologia da UFMA
Doutor em Ciências pela UERJ 
Presidente da CVNL da SBEM - Biênio 2019/2020
Membro do DDEE da SBD - Biênio 2018/2019
CRM-MA 5188 - RQE 2739

Texto revisado pelo Departamento de Diabetes.

A Comissão de Valorização das Novas Lideranças agora está no site da SBEM!

  Gostaríamos de agradecer a todos que acompanham o blog da Comissão de Valorização de Novas Lideranças. Seguiremos trabalhando para publica...