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sábado, 20 de junho de 2020

Testosterona em mulheres: dosar ou não dosar?

A dosagem e reposição de testosterona nas mulheres é um tema bastante atual e um dos motivos que as fazem procurar atendimento médico. Embora ainda existam lacunas na literatura médica, muitos dados já estão bem definidos.

Um dos pontos que gera muita confusão e custos desnecessários em grande parte dos casos é a dosagem laboratorial da testosterona. A dosagem da testosterona no sangue, em laboratórios comerciais, é sujeita a diversos “erros” provocados pelos métodos que são utilizados, o que tornam valores abaixo de 150 ng/dL muito imprecisos, situação na qual se encontram, habitualmente, mulheres e crianças.
Pesquisa realizada pelo Colégio Americano de Patologistas procurou avaliar a precisão diagnóstica da dosagem de testosterona por métodos comercialmente disponíveis. Uma mesma amostra de sangue foi enviada a diversos laboratórios e o coeficiente de variação entre os laboratórios utilizando uma mesma metodologia variou de 13-32% em mulheres normais. Esses números demonstram uma confiabilidade inaceitável na dosagem de testosterona na mulher normal, o que compromete de fato a sua utilidade clínica. 

Imagem: Wikimedia Commons

Se existe tanta possibilidade de erros e imprecisão, por que dosar? Vamos fazer algumas perguntas para responder essa questão:


Seriam erros laboratoriais ou laboratórios sem competência?

Não, todos foram feitos em laboratórios de ponta. Essa diferença se dá pela limitação própria dos métodos que usamos para fazer as dosagens. Existem métodos mais acurados para a dosagem de testosterona, mas são caros e frequentemente não disponíveis na maioria dos laboratórios


Se existe tanta imprecisão, por que dosar a testosterona em mulheres?

As únicas indicações da dosagem de testosterona em mulheres estão ligadas à possibilidade de excesso de testosterona ou no acompanhamento da terapia com testosterona, quando indicada e instituída.

Suspeitamos de excesso de testosterona quando há excesso de oleosidade de pele, acne, calvície, aumento de pelos, aumento de massa muscular, irregularidade ou parada da menstruação, atrofia mamária, aumento do libido, alteração no tom da voz e aumento do tamanho do clitóris.  Esses sinais e sintomas podem ser encontrados nas doenças e nos tumores de adrenal e de ovários que produzem testosterona em excesso.

Nos casos onde há sintomas clínicos, frequentemente as dosagens da testosterona são elevadas e podem ultrapassar o valor de 200 ng/dL, o que aumenta a precisão da avaliação laboratorial a qual, aliada à clínica, nos traz o diagnóstico de uma síndrome hiperandrogênica.


Toda mulher deve dosar testosterona?

Não, a dosagem da testosterona na mulher deve ser realizada apenas naquelas onde há suspeita de ter seus níveis aumentados, ou seja, no contexto de sintomas clínicos sugestivos de hiperandrogenismo.


O custo do exame é irrelevante?

Não. Surpreendentemente, uma avaliação realizada por uma operadora de saúde na cidade de Curitiba verificou que se gastou mais com a dosagem de testosterona nas mulheres do que com os homens - valores na cifra de R$ 2.400.000,00 no período de avaliação de 1 ano.



Este problema de precisão ocorre somente com a testosterona ou com outros hormônios também?

Em geral, quanto menor o nível de circulação do hormônio, menor a precisão da sua análise. Sendo assim, qualquer hormônio de ação masculinizante (androgênios), na mulher, só deve ser dosado na suspeita de excesso dele, e não na falta. Exemplos de dosagens hormonais de androgênios que não devem ser realizadas sem uma indicação precisa: DHEA, sulfato de DHEA, androstenediona, 17-OH progesterona, di-hidrotestosterona.


Se não dá para dosar níveis baixos, como definir se devo ou não repor testosterona?

A reposição de testosterona na mulher é ponto bastante controverso. Não há uma correlação direta entre os sintomas de hipogonadismo e os níveis séricos de testosterona. Por esse motivo e pela baixa acurácia da dosagem, a mesma não deve ser dosada.

O diagnóstico presumível de deficiência deve ser feito com base unicamente na história clínica. Dados relevantes como queixas sexuais, história reprodutiva/menopausa, sintomas sugestivos de insuficiência adrenal e passado de cirurgias em adrenal e ovários são informações que devem sempre ser questionadas.

As sociedades científicas divergem quanto à utilidade da reposição de testosterona na mulher. Os estudos são limitados em número de pacientes, demonstram resultados discordantes e os efeitos a longo prazo da reposição da testosterona ainda são desconhecidos, fazendo com que a indicação de repor esteja reservada para casos bastante específicos. Para o Departamento de Endocrinologia Feminina e Andrologia da SBEM, o “Transtorno da Excitação e do Desejo Sexual Hipoativo” é a única indicação para uso da terapia com testosterona na mulher. É uma entidade clínica que precisa ser bem caracterizada através de um escore de sintomas. Tais manifestações precisam estar associadas a sofrimento pessoal e por um período superior a 6 meses. Caso se opte pelo tratamento, essa escolha deve ser individualizada com o seu médico, já que não existem formulações específicas para a população feminina no mercado brasileiro. Desencoraja-se o uso de implantes hormonais nesse contexto. Se benefícios clínicos não forem observados em um período de uso de 3-6 meses, a terapia deve ser interrompida.


Concluindo

Nos casos em que existe a suspeita de excesso de testosterona, a dosagem de testosterona e eventualmente algum outro andrógeno deve sempre ser considerada, com o intuito de se identificar a causa dessa alteração hormonal.

Já nos casos em que se suspeita de baixos níveis de testosterona ou andrógenos, a dosagem, além de ser inútil, gera custos desnecessários e pode levar a um diagnóstico incorreto com tratamentos que podem ser prejudiciais.


Referências:

1- Endocrine Society. Utility, limitations, and pitfalls in measuring testosterone: an Endocrine Society Position Statement. J Clin Endocrinol Metab. Feb 2007;92(2):405–13.
2- Endocrine Society. Androgen therapy in women - a reappraisal: an Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. Oct 2014;99(10):3489–510.
3- Weiss RV et al. Testosterone therapy for women with low sexual desire: a position statement from the Brazilian Society of Endocrinology and Metabolism. Arch Endocrinol Metab. 2019;63(3):190-8.
4- Davis SR et al. Global Consensus Position Statement on the use of testosterone therapy for women. Climacteric. 2019;22(5):429-34.
5- Testosterone therapy for menopausal women. Drug Ther Bull. 2017;55(5):57-60.

Dr. Emerson Cestari Marino
Médico Endocrinologista
CRM-PR 31.440 - RQE 17.221

Texto revisado pelo DEFA.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

O uso de anabolizantes interfere na sexualidade?

Testosterona, seus derivados e libido

A resposta para esta pergunta é sim, porém esta interferência tem aspectos bastante antagônicos.

Se, por um lado, os esteroides anabolizantes, principalmente representados pelo hormônio testosterona e seus derivados sintéticos, podem ter efeito estimulatório sobre a libido, por outro trazem consequências que, em longo prazo, podem reduzi-la, além de outros efeitos deletérios ao organismo que serão listados a seguir:



Efeitos dos anabolizantes no organismo

O uso de anabolizantes pode provocar dependência química e psíquica, assim como outras drogas, ainda provocar disfunções em outros órgãos, como coração, fígado, rins, pele e órgãos sexuais.

Levando em consideração a sexualidade, vamos especificar a ação dos anabolizantes na parte física, comportamental, no sistema reprodutor e o cardiovascular.

O efeito androgênico dos anabolizantes provoca aumento da oleosidade da pele, acne e queda de cabelo, como principais efeitos colaterais, além da masculinização que ocorre nas mulheres, representada principalmente e pelo aumento do clitóris e do timbre vocal. Nos homens podemos ter aumento das mamas, chamado de ginecomastia.

No comportamento, temos um aumento dos transtornos de humor, como depressão, da agressividade e impulsividade, com registros até de aumento da criminalidade e casos de violência, além da dependência química e psíquica, com demandas por doses cada vez maiores, buscando sentir os mesmos efeitos do início do uso, assim como acontece, por exemplo,  com uso  de drogas como cocaína e crack. Alterações do sono como apneia obstrutiva também podem ser identificados.

No sistema reprodutor temos a inibição da liberação de hormônios chamados gonadotrofinas, que são liberados pela glândula hipófise, e controlam o funcionamento dos testículos e ovários, podendo levar desde distúrbios menstruais, prejudicando a fertilidade nas mulheres até interrupção definitiva da produção de testosterona e espermatozoides nos homens, levando à impotência e também infertilidade, e ainda sintomas do aumento da glândula prostática.

A função sexual está diretamente ligada e dependente da integridade do sistema cardiovascular (coração e vasos sanguíneos), neste caso, o uso de anabolizantes, tanto os similares à testosterona, quanto do hormônio do crescimento, trazem consequências drásticas ao coração e artérias.

No músculo cardíaco especificamente, diversos estudos mostram disfunção, com aumento do tamanho cardíaco, perda de força e desenvolvimento de insuficiência cardíaca no longo prazo.

Já nas artérias, pode ocorrer aumento da pressão arterial, do estímulo a deposição das placas de gordura (aterosclerose) devido a piora do perfil lipídico (colesterol), que levam ao aumento de risco para infarto agudo do miocárdio, AVE (AVC/derrame), além de eventos em membros inferiores e rins.  Outra alteração fisiopatológica com o uso da testosterona é o estímulo à eritrocitose, que leva ao aumento da viscosidade do sangue, podendo contribuir para os fenômenos tromboembólicos.


Mais prejuízos do que benefícios

Portanto, a busca pelo corpo ideal, maior vigor físico e melhor desempenho sexual através do uso de anabolizantes, passa a ser contraditório quando temos conhecimento dos efeitos deletérios destas substâncias em nosso organismo em longo prazo. Nos restringindo a sexualidade, alertamos que o uso pode provocar a perda de libido, infertilidade e outras alterações físicas e mentais não desejadas. 

Referências: 
1- Off-label use and misuse of testosterone, growth hormone, thyroid hormone, and adrenal supplements: risks and costs of a growing problem. Endocrine Practice vol 26 no. 3 march 2020.
2- Compounded Bioidentical Hormones in Endocrinology Practice: An Endocrine Society Scientific Statement. J Clin Endocrinol Metab 101:1318-1343, 2016.

Dr. Emerson Cestari Marino
Médico Endocrinologista
CRM-PR 31.440 - RQE 17.221

Texto revisado pelo DEFA.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Incongruência de gênero - terapia hormonal no transgênero feminino (male to female – MTF, mulher transgênero)

Para a boa compreensão deste texto, é importante a compreensão dos seguintes termos:
1- Identidade de gênero: a percepção do indivíduo em sentir-se pertencente ao gênero masculino, feminino ou de nenhum (gênero não binário).
2- Sexo biológico: determinado ao nascimento em função do aspecto da genitália externa ou pelo sexo cromossômico (masculino, feminino ou intersexo) 
3- Expressão do gênero: como o indivíduo expressa seu gênero no mundo real, por meio da forma de agir, de se vestir, de se comportar.
4- Incongruência ou disforia de gênero: desconforto ou sofrimento que pode ocorrer quando existe uma incompatibilidade entre o sexo determinado ao nascimento e o gênero de identificação.
5- Orientação sexual: relaciona-se ao desejo sexual, atração física (homossexual, heterossexual, bissexual ou assexual). 
6- Mulher transgênero: indivíduo com sexo biológico masculino que se identifica com o gênero feminino.
7- Homem transgênero: indivíduo com sexo biológico feminino que se identifica com gênero masculino.
8- Cisgênero: Quando existe congruência entre o sexo biológico e o de identificação.

Imagem: Joint Base San Antonio

Após o diagnóstico apropriado da incongruência de gênero e discussão dos riscos e benefícios do tratamento, a mulher transgênero poderá iniciar a terapia hormonal com o endocrinologista. O tratamento consiste basicamente na supressão dos androgênios produzidos pelos testículos e administração de estrogênio, com a pretensão de tornar este corpo mais feminino e com níveis hormonais mais próximos daqueles encontrados nas mulheres cisgênero em fase reprodutiva. Desta forma, podemos perceber redução do crescimento dos pelos corporais, da oleosidade da pele, da produção de espermatozoides, aumento do volume mamário, redistribuição da gordura corporal com aumento do depósito em regiões como os quadris e redução da massa muscular. Vamos entender, passo a passo, como funciona.

A terapia hormonal com estrogênios usualmente é feita através da administração de 17ß estradiol por via oral ou transdérmica. O 17ß estradiol é especialmente útil por permitir que os níveis no sangue sejam monitorados, além de apresentar menor risco de trombose, quando comparado ao etinilestradiol (este, não recomendado). A terapia com estrogênio, além de ser responsável pelas mudanças corporais desejadas pela mulher transgênero, também é capaz de suprimir a produção de androgênios. A administração do 17 ß estradiol sozinha já é capaz de inibir a produção das gonadotrofinas (LH e FSH), assim diminuindo a produção de testosterona pelos testículos. A paciente é monitorada regularmente para que os níveis de estradiol sejam mantidos entre 100-200 pg/mL de testosterona, abaixo de 50 ng/dL. Em grande parte dos casos, além do uso de estrogênios, também são usados medicamentos para inibir a secreção ou a ação dos androgênios. Para "combater" os androgênios, cujo principal é a testosterona, temos à disposição como primeira linha de tratamento a espironolactona e a ciproterona. A espironolactona é um antagonista estruturalmente semelhante aos progestógenos. Ela compete com a diidrotestosterona no receptor androgênico, inibindo a 5 α-redutase e, também, compete com o androgênio na ligação à SHBG (Globulina Ligadora dos Hormônios Sexuais). Desta forma é capaz de bloquear tanto a produção quanto a ação da testosterona. Também, pode ter uma pequena atividade estrogênica. Já a ciproterona tem efeito de suprimir a produção de gonadotrofinas, devido ao seu efeito progestágeno, além de bloquear a ação dos androgênios. Como segunda linha, temos os agonistas do GnRH, medicamentos injetáveis e de alto custo, que inibem a produção do FSH/LH e consequentemente de testosterona. Estas modalidades de tratamento podem ser usadas enquanto a paciente ainda tiver os testículos. O uso da progesterona para desenvolvimento mamário ainda é controverso, não sendo advogado por falta de evidências na literatura. 

Os efeitos esperados da terapia hormonal da mulher transgênero são:

Pelos (início do efeito em 3 a 6 meses - efeito máximo a partir de 3 anos): alguns pelos como os da barba podem ser resistentes à terapia hormonal, necessitando do uso de medidas complementares como o laser.

Mamas (início do efeito em 3 a 6 meses - efeito máximo em 2 a 3 anos): pode haver queixa de aumento da sensibilidade durante o desenvolvimento mamário. A adequada inibição dos androgênios potencializa o efeito do 17 ß estradiol. As pacientes precisam participar de exames de rastreamento de câncer de mama como qualquer mulher.

Pele (início do efeito em 3 a 6 meses): com o tratamento a pele costuma ficar menos oleosa e mais macia. 

Composição corporal (início do efeito em 3 a 6 meses - efeito máximo em 1 a 3 anos): é esperada uma redução no volume e na força muscular com acúmulo de gordura nos quadris, tornando as medidas corporais mais femininas.

Voz: as alterações da voz são praticamente imperceptíveis com o tratamento. A paciente deve ser aconselhada a fazer terapia da fala com fonoaudiólogo ou se submeter a procedimento cirúrgico nas cordas vocais.

Testículos e próstata (início do efeito em 3 a 6 meses - efeito máximo com muitos anos): o tratamento leva a atrofia progressiva dos testículos e redução do volume da próstata. Logo, pacientes que desejem manter a fertilidade devem ser devidamente aconselhados antes do início do tratamento. Paciente que permanecem com a próstata também devem fazer exames periódicos de prevenção como qualquer paciente do sexo masculino.

Função sexual (início do efeito em 1 a 3 meses - efeito máximo em 3 a 6 meses): a terapia hormonal da mulher transgênero leva a redução da libido, das ereções e da ejaculação em graus variados. Algumas pacientes, que desejam manter a função sexual, precisam ter as doses da terapia ajustadas. Nas pacientes que fazem cirurgia genital, a função sexual é variável e dependente da função sexual antes do procedimento, do tipo da cirurgia realizada e dos níveis hormonais.

Por fim, o acompanhamento regular com endocrinologista familiarizado com este tipo de tratamento deve ser frequente e regular para que se evite consequências tanto do excesso quanto da deficiência hormonal, tais como: problemas na libido, fragilidade óssea, aumento no risco de trombose ou mesmo de câncer.

Fonte: 
1- Hembree WC, Cohen- Kettenis PT, Gooren L et al. Endocrine Treatment of Gender-disforic/Gender-Incongruence Persons: An Endocrine Society Clinical Practice Guidelines. J Clin Endocrinol Metab 2017; 102:3869-3903. 

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Doutor e Mestre em Endocrinologia pela UFRGS
CRM-RS 30.576 - RQE 22.991

Texto revisado pelo Departamento de Endocrinologia Feminina e Andrologia.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Vale a pena usar hormônios ditos “bioidênticos”?

Nada de novo

Alguns conceitos básicos de como funciona o sistema capitalista podem nos ajudar a entender melhor a “questão dos hormônios bioidênticos”. Imagine que você queira entrar no extremamente concorrido mercado farmacêutico. Seu capital inicial é pequeno tanto para produção quanto para desenvolvimento de novas moléculas. Com pouco dinheiro, é mais sensato investir em substâncias consagradas e que não sejam protegidas por patentes. Espertamente você escolhe alguns hormônios esteroides, o estradiol e a testosterona. Porém, substâncias pouco inovadoras costumam ser amplamente comercializadas por mais de uma empresa. Quando a oferta de um produto é ampla, seu preço despenca. Mas você não está disposto a ganhar pouco. Como diferenciar seus produtos dos demais? Marketing! E pior, marketing não ético! Estratégia infelizmente muito comum em diversos ramos no mercado…

Imagem: Flickr


Jogada de marketing

O termo “hormônio bioidêntico” é uma jogada de markentig! Essa expressão foi cunhada para soar de forma mais suave que “quimicamente biossimilar” ou “quimicamente idêntico” ao hormônio encontrado na natureza ou que circula no nosso organismo. A geração das pessoas nascidas nas décadas de 1960 e 1970, também conhecidas como “geração granola”, tende a interpretar que coisas ditas “naturais” são boas e coisas ditas “sintéticas” são más. Muitas mulheres dessa geração estão agora enfrentando algum sintoma do período perimenopausa. Conhecendo o potencial mercado consumidor, fica fácil de entender a sacada do “hormônio bioidêntico que é mais natural, igualzinho ao que circula no meu organismo”, não é? Outro ponto propagado é que seria um hormônio “customizado” de acordo com a necessidade de cada paciente. Mas não se engane! Os hormônios ditos “bioidênticos”, representados principalmente por esteroides (estradiol, testosterona, DHEA, progesterona e mesmo a vitamina D), são produzidos pela mesma indústria farmacêutica que fabrica os hormônios convencionais. Aliás, no mundo todo, devem existir apenas 6 ou 7 empresas capazes de produzir estes tipos de substâncias em grande quantidade dentro de um padrão de qualidade minimamente aceitável.


Dúvidas quanto ao perfil de segurança

Mas se a grande maioria dos hormônios convencionais também são iguais ao que nosso corpo produz por que os endocrinologistas se preocupam tanto com os “hormônios bioidênticos”? Por um motivo muito importante: segurança.
O problema é que os ditos “hormônios bioidênticos” costumam ser manipulados ou colocados em implantes. A manipulação de uma substância por si só não é o ponto crucial.  O problema é a prescrição de doses e combinações não avaliadas em estudos clínicos, isto é, com perfil de segurança desconhecido, ou pior, já avaliadas nos mesmos estudos e com perfil de segurança deletério. Quando compramos qualquer medicamento em uma farmácia, ao abrirmos a caixinha, encontramos uma bula. A bula é um documento importante. Nela estão contidas as indicações, doses, interações e perfil de efeitos adversos daquela substância. Para possuir uma bula, o medicamento precisa ter passado por estudos clínicos e estar devidamente registrado nas agências regulatórias, no caso do Brasil, a ANVISA.


Modismo potencialmente prejudicial

A “moda dos bioidênticos” não é coisa nova. Outros países, especialmente os Estados Unidos através do FDA, sua agência regulatória, têm se mostrado preocupados com os possíveis riscos associados ao seu uso. A forma mais apropriada de garantir um tratamento seguro, barato e “natural” ainda é procurando profissionais sérios e com amplo conhecimento.
As modas passam, mas complicações de tratamentos indevidos podem ficar pra sempre…

Fonte: 
1- Bioidentical Hormone Therapy: Whats Is It, Might It Have Advantages? – Medscape.
2- Santoro N, Braunstein GD, Butts CL, et al. Compounded Bioidentical Hormones in Endocrinology Practice: An Endocrine Society Scientific Statement. J Clin Endocrinol Metab 2016; 101:1318-1343. Reissued October 2, 2019.

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Doutor e Mestre em Endocrinologia pela UFRGS
CRM-RS 30.576 - RQE 22.991

Texto revisado pelo Departamento de Endocrinologia Feminina e Andrologia.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Seis fatos sobre terapia hormonal com hormônios ditos bioidênticos em mulheres

A terapia hormonal tem diversos usos dentro da Medicina. Em mulheres, a reposição hormonal da menopausa está indicada especialmente para tratamento dos fogachos e dos sintomas genitourinários que surgem no período da perimenopausa e menopausa. O interesse por terapias alternativas, especialmente a feita com hormônios ditos "bioidênticos", cresceu bastante nos últimos anos. A busca por tratamentos popularmente chamados de "mais naturais" e o intenso trabalho de marketing poderiam explicar esse fenômeno. Mas existe alguma evidência de benefício entre esta opção e a convencional?  Vamos aos fatos...



1- Hormônios ditos bioidênticos são iguais aos hormônios convencionais.

Hormônios bioidênticos são substâncias hormonais que possuem exatamente a mesma estrutura química e molecular encontrada nos hormônios produzidos pelo corpo humano. Podem ser fabricados tanto pela indústria farmacêutica convencional (que já faz isso há bastante tempo) quanto pelas farmácias de manipulação. Entretanto, esse termo vem sendo usado indevidamente e vendido como se fossem “novas opções de tratamento”.


2- Os bioidênticos apresentam menor pureza.

Na prática, as doses referidas nas prescrições costumam ser bastante diferentes das doses presentes nos produtos. Segundo o FDA, órgão equivalente a ANVISA nos Estados Unidos, as potências variam de 67,5 a 268 por cento do referido no rótulo ou na prescrição (1). Além disso, a absorção das moléculas costuma ser menor quando comparada ao tratamento convencional. Em outras palavras, o risco de dosagem abaixo ou acima da recomendada é muito alto, especialmente nas formas que não permitem ajuste da posologia, caso dos implantes (figura).


3- Implantes hormonais não são para todo mundo.

A terapia hormonal da menopausa tem indicações muito precisas: sintomas como os fogachos e os sintomas genitourinários (disfunção sexual) em mulheres no período perimenopausa, por exemplo. Implantes hormonais jamais devem ser prescritos com a intenção de melhorar vitalidade, sensação de energia ou aparência física. Mulheres jovens tendem a ser um grupo de maior risco. O uso de testosterona e a liberação hormonal errática do implante podem levar a efeitos deletérios na função reprodutiva, isto é, podem diminuir a fertilidade, além de possíveis efeitos colaterais como acne, aumento de pelos no corpo.


4- O tratamento com bioidênticos custa caro.

Apesar de algumas formulações custarem menos que algumas apresentações comerciais, o custo do tratamento com bioidênticos costuma ser muito maior por dois motivos: solicitação abusiva de exames na tentativa de monitorar a terapia e alto custo da consulta dos profissionais prescritores, possivelmente devido ao risco que assumem ao indicar tratamentos sem comprovação científica. 


5- Não existem dados sobre a segurança da terapia com bioidênticos.

Ausência de estudos evidenciando risco não significa que o tratamento seja seguro. Significa apenas que os dados não foram devidamente avaliados ou estão sendo omitidos. Não dá pra dizer que o uso de bioidênticos não aumenta o risco de câncer de mama ou de trombose sem que bons estudos tenham sido feitos. Todo tratamento precisa ter seu perfil de segurança devidamente estudado antes de ser amplamente prescrito. É dessa forma que conhecemos os possíveis efeitos adversos, quem está mais propenso a apresentá-los e, principalmente, como devemos agir caso apareçam.


6- O uso de bioidênticos não é recomendado pelas sociedades médicas.

Sociedade médicas internacionais (North American Menopause Society, American College of Obstetricians and Gynecologists e Endocrine Society) e a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) não recomendam tratamento com bioidênticos por entenderem que os riscos são maiores que os benefícios. 

Referências:
1- US Food and Drug Administration. Bio-identicals: Sorting myths from facts. http://www.fda.gov/Drugs/GuidanceComplianceRegulatoryInformation/PharmacyCompounding/ucm049311.htm (Accessed on November 20, 2012).
2-  Martin KA, Barbieri RL. Treatment of menopausal symptoms with hormone therapy. UpToDate.
3- Santoro N, Braunstein GD, Butts CL, et al. Compounded Bioidentical Hormones in Endocrinology Practice: An Endocrine Society Scientific Statement. J Clin Endocrinol Metab 2016; 101:1318-1343. Reissued October 2, 2019.
4- Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (https://www.endocrino.org.br/hormonios-bioidenticos/) e Departamento de Endocrinologia Feminina e Andrologia (DEFA).

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Doutor e Mestre em Endocrinologia pela UFRGS
CRM-RS 30.576 - RQE 22.991

Texto revisado pelo Departamento de Endocrinologia Feminina e Andrologia.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

DHEA e envelhecimento

A deidroepiandrosterona (DHEA) e sua forma sulfatada, o sulfato de deidroepiandrosterona (SDHEA), são produzidos predominantemente pelas glândulas adrenais, que estão localizadas acima de cada um dos rins. A DHEA é frequentemente citada como um androgênio fraco, isto é, um hormônio com propriedades masculinizantes. Entretanto, não há evidência de que ela se ligue ao receptor androgênico e, assim, DHEA têm pouca ou nenhuma atividade androgênica intrínseca. Ela é convertida em hormônios ativos para exercer suas funções biológicas.
A produção da DHEA atinge seu pico por volta dos 25 anos. Ela diminui à medida que envelhecemos. Por volta dos 80 anos, a concentração de DHEA é cerca de 80% menor.

Imagem: Wikimedia Commons

Pequenas quantidades da DHEA são convertidas em androgênios mais ativos (androstenediona, androstenediol, testosterona e 5-dihidrotestosterona) ou mesmo em estrogênios (estradiol e estrona) nas glândulas adrenais, nos folículos pilosos (locais onde crescem os pelos), próstata, gônadas e no tecido adiposo (gordura). Nas mulheres, DHEA e SDHEA são fontes importantes de efeito androgênico, o que não acontece nos homens.
O interesse em suplementar DHEA é crescente. Na mídia leiga, vários efeitos benéficos têm sido defendidos, como ação vasodilatadora, antidepressiva, anti-inflamatória, antiaterosclerótica e mesmo antienvelhecimento. Logo, DHEA é uma panaceia, cujos efeitos aventados são oriundos, em sua maioria, de estudos experimentais, sobretudo em roedores. Entretanto, roedores são modelos experimentais inadequados para o estudo da DHEA. Diferentemente dos seres humanos, esses animais apresentam baixas concentrações endógenas de DHEA, cuja origem é predominante gonadal. Além disso, as doses testadas nesses estudos são, via de regra, suprafarmacológicas, inviabilizando a possibilidade de qualquer extrapolação de resultados. Mas será a DHEA a tão procurada "fonte da juventude"?
A primeira associação entre DHEA e aumento de longevidade ocorreu em um estudo realizado em macacos Rhesus machos. Esses animais foram submetidos à restrição calórica, uma intervenção sabidamente capaz de aumentar a sua sobrevida, e foram pesquisados possíveis biomarcadores de longevidade. Dentre esses biomarcadores, o SDHEA foi associado a um aumento na sobrevida dos macacos e esses resultados foram verificados também em seres humanos. Esse paralelismo entre um biomarcador de longevidade em macacos e em seres humanos levantou a hipótese de que a DHEA ou o SDHEA pudessem ter alguma ação relacionada ao aumento da expectativa de vida, hipótese que nunca foi comprovada.
Em mulheres com insuficiência adrenal, doença caracterizada pela redução na produção de corticoides, o uso da DHEA pode ser útil em situações limitadas. Doses entre 25 e 50 mg por dia podem melhorar o bem-estar e sintomas psicológicos. É possível que haja também melhora na função sexual, massa óssea e massa magra. Vale lembrar que esses efeitos benéficos foram observados em mulheres com doença adrenal grave, mas não na redução hormonal relacionada à idade.
Quando utilizada como estratégia "antiaging", a DHEA não mostra resultados tão animadores. Ensaios clínicos randomizados têm resultados conflitantes com relação ao bem-estar. Com relação ao aumento de massa magra, os estudos são categóricos em afirmar que o uso da DHEA para aumento da massa magra não funciona. Apesar de estudos em animais evidenciarem redução de gordura abdominal, a maioria dos estudos com seres humanos não evidenciou esse efeito. Outras propriedades não observadas foram prevenção da perda de memória e prevenção de doenças cardiovasculares.  Por fim, o uso de DHEA pode aumentar, de maneira muito discreta, a densidade mineral óssea, principalmente no fêmur. Contudo, é provável que esta ligeira melhora no tecido ósseo não seja suficiente para determinar prevenção de fraturas.
O uso da DHEA não é isento de efeitos adversos. Aumento da oleosidade da pele, crescimento excessivo de pelos, redução do colesterol HDL ("colesterol bom"), palpitações e surtos maníacos podem acontecer, já que estamos falando de um precursor de androgênios potentes. Outro problema é com relação à sua pureza. Como a DHEA é importada e, nos Estados Unidos, é considerada um suplemento alimentar, muitas vezes as apresentações comerciais têm origem duvidosa e concentrações diferentes das informadas no rótulo. Para exemplificar, um estudo americano evidenciou variações de 0-150% nas quantidades de DHEA em relação ao rótulo dos produtos.
Em resumo, com base nas evidências, há um potencial limitado para o uso da DHEA. Ele restringe-se a mulheres com insuficiência adrenal primária e sintomas depressivos e/ou baixos níveis de energia apesar das reposições otimizadas de glicocorticoides e mineralocorticoides. Associados à eficácia limitada, os raros, porém potencialmente graves efeitos adversos e o controle insatisfatório de qualidade dos suplementos restringem ainda mais o uso da DHEA na prática clínica. Além disso, os estudos que avaliaram esse tipo reposição envolveram poucos participantes e não duraram mais do que 2 anos. Isto compromete muito a capacidade de generalização dos resultados, principalmente em relação à segurança do tratamento.
Ainda não foi desta vez que a ”modulação hormonal” mostrou-se capaz de combater o processo de envelhecimento...

Fontes: 
1- UpToDate On Line - DHEA and its sulfate.
2- Dhatariya KK, Nair KS. Dehydroepiandrosterone: is there a role for replacement? Mayo Clin Proc. 2003 Oct;78(10):1257-73.
3- Roth GS, Lane MA, Ingram DK, Mattison JA, Elahi D, Tobin JD et al. Biomarkers of caloric restriction may predict longevity in humans. Science. 2002 Aug 2;297(5582):811.
4- Alkatib AA, Cosma M, Elamin MB, Erickson D, Swiglo BA, Erwin PJ et al. A systematic review and meta-analysis of randomized placebo-controlled trials of DHEA treatment effects on quality of life in women with adrenal insufficiency. J Clin Endocrinol Metab. 2009 Oct;94(10):3676-81.
5- Bornstein SR, Allolio B, Arlt W, Barthel A, Don-Wauchope A, Hammer GD et al. Diagnosis and treatment of primary adrenal insufficiency: an Endocrine Society clinical practice guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2016 Feb;101(2):364-89.
6- Parasrampuria J, Schwartz K, Petesch R. Quality control of dehydroepiandrosterone dietary supplement products. JAMA. 1998 Nov 11;280(18):1565.

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Doutor e Mestre em Endocrinologia pela UFRGS
CRM-RS 30.576 - RQE 22.991

Dr. Wellington Santana da Silva Júnior 
Médico Endocrinologista, Doutor em Ciências
Professor Adjunto do Curso de Medicina da UFMA
Presidente da CVNL da SBEM - Biênio 2019/2020
CRM-MA 5188 - RQE 2739

Texto revisado pelo Departamento de Adrenal e Hipertensão.

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Uso de anabolizantes para melhorar a massa muscular em idosos: vale a pena?

O paciente idoso deve usar anabolizantes para melhorar a massa muscular?
A resposta é simples: NÃO.
Vejamos detalhadamente as razões para essa resposta:

Imagem: FE Warren Air Force Base

1) Não há evidências na literatura científica que confirmem que substâncias anabolizantes consigam melhorar a força muscular.

Nem esteroides semelhantes a testosterona - como ésteres de testosterona (Deposteron, por exemplo) ou nandrolona (Decadurabolin) – nem o hormônio do crescimento são considerados efetivos no tratamento da perda muscular. Eles aumentam o músculo, provocam retenção de água, mas não tornam o músculo mais forte e potente. Sem a força muscular adequada, o idoso perde a própria autonomia e se torna muito dependente da ajuda de outras pessoas para realizar suas atividades habituais. Além disso, ele corre grande risco de quedas e consequentemente de fraturas, hospitalizações e morte.
A perda de massa e de força musculares constitui uma doença denominada sarcopenia frequentemente associada a problemas cardíacos, respiratórios, e problemas de cognição. O diagnóstico dessa doença é facilmente realizado pela aplicação de um questionário prático e accessível composto por 5 perguntas sobre a capacidade do indivíduo de levantar peso, de se levantar de uma cadeira, de caminhar, de subir escadas e sobre a ocorrência de quedas. A presença de uma circunferência de panturrilha inferior a 31 cm aumenta a probabilidade de sarcopenia.
Recentemente, foi publicado o Consenso Europeu de Sarcopenia que salientou a importância da avaliação não apenas da massa muscular, mas também da força muscular, especialmente em indivíduos idosos. Sendo assim, medicamentos que não melhoram consistentemente a força muscular, não podem ser considerados eficazes e consequentemente não devem ser usados pelos pacientes portadores de sarcopenia.


2) Anabolizantes podem causar efeitos colaterais indesejáveis, múltiplos, graves e muito prejudiciais para o sistema cardíaco e vascular, especialmente. 

Eles aumentam os níveis do LDL colesterol (“colesterol ruim”) e reduzem os níveis de HDL colesterol (“colesterol bom”). Também elevam a pressão arterial e podem aumentar a quantidade de gordura dentro do fígado o que aumenta o risco de várias doenças como diabetes e infarto.


3) O melhor tratamento da sarcopenia é a prevenção. 

A perda de massa muscular é mais precoce do que se imaginava! A partir dos 50 anos, já começa a ocorrer uma mudança na composição corporal com perda substancial de massa magra. A sarcopenia acomete 5-13% dos indivíduos com 60 a 70 anos e até 50% dos indivíduos com mais de 80 anos. Portanto, durante a infância e a adolescência, é fundamental maximizar o ganho de força muscular. Na fase adulta, ao menos, se deve manter a força muscular para então prevenir a perda na fase do envelhecimento.


4) A adoção de uma dieta equilibrada é fundamental para a saúde muscular.

Uma dieta com teor adequado de calorias, de proteínas, vitaminas e minerais minimiza a perda muscular. Os anabolizantes não substituem uma dieta adequada e bem equilibrada!


5) O anabolizante não substitui o exercício resistido!

Com cargas ou com a sustentação do próprio corpo, o exercício resistido, quando é adequadamente orientado, promove ganhos efetivos de massa e de força musculares. Durante a contração, o músculo libera substâncias denominadas miocinas fundamentais para a preservação do ganho de massa e força musculares. Além disso, essas substâncias exercem vários benefícios: previnem perda óssea, melhoram o metabolismo da glicose e transformam o tecido adiposo branco que passa a ser mais ativo ou seja passa a liberar energia, ao invés de acumular gordura. Em repouso, por outro lado, o músculo produz miostatina que impede o crescimento muscular. Sendo assim, quando não praticamos exercício, passamos a ter uma grande doença – o sedentarismo que piora, e muito, nossa massa e força musculares.

Portanto, caro portador de sarcopenia, adote uma dieta equilibrada, pratique exercício e assim, trate adequadamente a sarcopenia

Referências:
1- Barbosa-Silva TG, Menezes AMB, Bielemann RM, Malmstrom TK, Gonzalez MC. Enhancing SARC-F: Improving Sarcopenia Screening in the Clinical Practice. JAMDA, 2016: 17, Issue 12, Pages 1136–1141.doi: https://doi.org/10.1016/j.jamda.2016.08.004
2- Cruz-Jentoft AJ, Baeyens JP, Bauer JM et al. Sarcopenia: European consensus on definition and diagnosis: report of the European working group on sarcopenia in older people. Age Ageing 2010; 39: 412–23.
3- Cruz-Jentoft AJ, Bahat G JP, Bauer JM et al. Sarcopenia: revised European consensus on definition and diagnosis. Age and Ageing 2019; 48: 16–31 doi: 10.1093/ageing/afy169 39: 412–23.
4- Dent JE, j.e. Morley JE, Cruz-Jentoft AJ, Arai H, Kritchevsky SB, Guralnik J, International Clinical Practice Guidelines for Sarcopenia (ICFSR): screening, diagnosis and management. Nutr Health Aging. 2018;22(10):1148-1161
5- Hittel, DS., Axelson M, Sarna N, Shearer J, Huffman KM, Kraus WE. Myostatin Decreases with Aerobic Exercise and Associates with Insulin . Med. Sci. Sports Exerc, 2010; 42(11): 2023–2029.

Dra. Andréa Messias Britto Fioretti
Médica Endocrinologista – CRM-SP 61414 - RQE 65.451
Mestrado em Endocrinologia Clínica pela Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP
Especialista em Medicina do Exercício e do Esporte pela Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP
Coordenadora do Ambulatório de Endocrinologia do Exercício, junto ao Serviço de Medicina do Esporte da UNIFESP
Membro do Departamento de Diabetes, Exercício e Esportes da Sociedade Brasileira de Diabetes
Membro da Comissão Temporária de Estudos em Endocrinologia do Exercício da SBEM

Texto revisado pela Comissão Temporária de Estudos em Endocrinologia do Exercício.

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Uso de esteroides anabolizantes: um breve histórico do problema

Uso indevido de esteroides androgênicos, um velho problema

O uso de esteroides androgênicos para melhorar o desempenho físico, ao contrário do que se possa imaginar, é tema antigo na prática médica. Em 1893, um médico idoso chamado Brown-Séquard reportou “um ganho importante de força” após auto injetar um “fluido testicular” desenvolvido em laboratório de animais. Esta descoberta criou bastante entusiasmo e marcou o início da andrologia. Após algum tempo, já na década de 1930, começaram a ser desenvolvidos os primeiros andrógenos sintéticos derivados da testosterona. Desde então, diversos esteroides androgênicos foram sintetizados e aprovados para o tratamento de diversos problemas de saúde, incluindo deficiência de testosterona, caquexia, osteoporose, atraso no desenvolvimento da puberdade e até câncer de mama.



Ganho de massa muscular, as custas de efeitos adversos potencialmente graves

Os derivados sintéticos da testosterona possuem graus variados de atividade androgênica e anabólica, isto é, são capazes de aumentar a massa muscular, queimar gordura e melhorar o desempenho esportivo. Contudo, o uso de esteroides anabolizantes não se faz sem um custo muito alto à saúde. Efeitos adversos são frequentes e incluem toxicidade ao fígado e coração, aumento da viscosidade sanguínea (policitemia) com risco de trombose, aumento das gorduras do sangue (colesterol e triglicerídeos), pressão alta, depressão, crescimento de mamas em homens (ginecomastia), atrofia dos testículos, problemas sexuais e infertilidade em graus variados.


Falta de informação confiável dificulta a abordagem do problema

Como a maioria dos usuários destas substâncias não costuma procurar atenção médica, a literatura científica ainda carece de informações principalmente sobre as sequelas causadas pelo seu uso. Isso é problemático, pois o usuário não vê o médico como alguém com capacidade de fornecer informações apropriadas e acaba por buscá-las na internet ou com outros usuários. Já o médico, por não ter acesso a estudos confiáveis, fica desconfortável em abordar o assunto e acaba por adotar uma postura repressiva. Esta falta de empatia afasta paciente e médico, e o assunto vira tabu.


#BombaTôFora, uma luz no fim do túnel

Com o intuito de melhorar a assistência, prevenindo o uso e tratando as complicações, tanto médicos quanto pacientes devem estar dispostos a dialogar abertamente e a estudar sobre o assunto. Só desta maneira cooperativa, seremos capazes de construir conhecimento apropriado e confiável sobre o uso de esteroides anabolizantes. O projeto #BombaTôFora, apoiado pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, cumpre muito bem esta função.

Referência:
1- Pope HG Jr, Wood RI, Rogol A, Nyberg F, Bowers L, Bhasin S. Adverse health consequences of performance-enhancing drugs: an Endocrine Society scientific statement. Endocr Rev. 2014 Jun;35(3):341-75.

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Doutor e Mestre em Endocrinologia pela UFRGS
CRM-RS 30.576 - RQE 22.991

Texto revisado pelo Dr. Ricardo Meirelles, presidente da Comissão de Comunicação Social da SBEM.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Fitoterápicos estimuladores da testosterona – vale a pena investir?

Existem diversas plantas medicinais as quais são atribuídas propriedades afrodisíacas e que poderiam funcionar como potencializadores da secreção de testosterona. Entre elas podemos destacar o Tribulus terrestris, a maca peruana, o extrato de Long Jack (Eurycoma longifolia Jack), a mucuna (Mucuna pruriens), a ashwagandha (Withania somnifera) e o feno-grego (Trigonella foenum-graceum L., Fabaceae). Destas, a mais conhecida e estuda é o Tribulus terrestris, que é uma planta da família Zygophyllaceae. Ele possui em sua composição princípios ativos como flavonoides, alcaloides, saponinas, lignina, amidas e glicosídeos.  A crença popular afirma que o Tribulus terrestris seria capaz de aumentar a produção de testosterona devido a ação desses fitocomponentes. No entanto, os estudos clínicos não mostram aumento da produção de testosterona nem melhora da composição corporal ou da performance esportiva com o uso desta erva.

Tribulus terrestris
Imagem: Wikepedia
Em um estudo randomizado duplo cego controlado com placebo jogadores de rugby de elite foram submetidos a treinamento de força associado a dieta hipercalórica e rica em proteínas. O grupo intervenção usou 450 mg por dia de Tribulus, durante cinco semanas. Não houve ganho de massa magra nem de desempenho físico em relação ao placebo. Em outro estudo, homens jovens saudáveis, seguindo dieta controlada, não apresentaram melhora na composição corporal ou na força após oito semanas de suplementação com 3,21 mg/kg/dia de Tribulus, quando comparados ao placebo. Uma revisão sistemática feita em 2014 mostrou que a eficácia de Tribulus em relação ao aumento da testosterona é limitada ou inexistente.
Nessa mesma revisão, as únicas duas plantas afrodisíacas que mostraram algum grau de aumento na secreção de testosterona foram a mucuna e a ashwagandha (151 e 143 ng/dL, respectivamente) quando utilizadas por um período de 12 semanas em pacientes com oligozoospermia. Os autores também destacam que havia muita heterogeneidade entre os estudos, que em sua maioria possuíam pequeno número de pacientes e curtos períodos de seguimento, o que impossibilita qualquer conclusão sobre os desfechos clínicos do uso dessas ervas afrodisíacas a longo prazo.
Tendo em vista a falta de estudos clínicos e os resultados limitados deste fitoterápicos, a recomendação é evitar o uso até que haja dados mais conclusivos sobre o tema.

Referências :
1- GamalEl Din SF. Role of Tribulus terrestris in Male Infertility: Is It Real or Fiction? J Diet Suppl. 2018 Nov 2;15(6):1010-1013.
2- Santos HO, Howell S, Teixeira FJ. Beyond tribulus (Tribulus terrestris L.): The effects of phytotherapics on testosterone, sperm and prostate parameters. J Ethnopharmacol. 2019 May 10;235:392-405.

Yuri Galeno Pinheiro Chaves de Freitas
Médico Endocrinologista
CRM-RN 4.878 - RQE 2.959

Texto revisado pelo Departamento de Endocrinologia Feminina e Andrologia.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

O uso de esteroides anabolizantes e similares em fitness é um grave e alarmante problema de saúde pública

O uso indiscriminado de esteroides anabolizantes e outras drogas similares (EAS) para ganho de performance e melhora da aparência em indivíduos atletas e não atletas é atualmente considerado na literatura mundial como um problema não apenas do esporte de elite, mas sim um grande problema social e de saúde pública.

Imagem: Public Domain Files

Os esteroides anabolizantes androgênicos são derivados sintéticos da testosterona originalmente desenvolvidos no final dos anos 1930. Algumas condições clínicas específicas têm indicação médica para seu uso como o hipogonadismo masculino, raros tipos de anemia e em casos muito bem selecionados de portadores de doenças de consumo com grande perda de massa muscular, como câncer, AIDS, doença pulmonar grave, grandes queimados, entre outras.
O uso não-médico de EAS foi principalmente confinado a atletas de elite e fisioculturistas na década de 1960, que usavam como um meio para melhorar o desempenho. Nas últimas décadas, no entanto, o uso de EAS se espalhou para a população geral.
A taxa de prevalência global de uso de EAS ao longo da vida foi estimada em 3,3% de toda a população. A taxa de prevalência para os homens, 6,4%, foi significativamente superior à taxa para as mulheres, 1,6%. Os esportistas recreacionais apresentaram a maior taxa de prevalência global: 18,4%, seguidos por atletas: 13,4%, prisioneiros e detidos: 12,4%, e tóxico-dependentes: 8,0%. Além disso, a taxa de prevalência para os estudantes do ensino médio foi de 2,3%.  
Na visão do usuário dos EAS o uso é aceito porque a) a mídia exalta como modelo ideal um corpo definido, magro e musculoso, com exemplos de astros do esporte, atores e cantores e outros “popstars”, b) os riscos são considerados pequenos e podem ser controlados e minimizados, c) os benefícios são considerados significativos, d) os resultados parecem naturais e podem ser atribuídos a uma boa genética e treinamento adequado, e) o corpo parece ser a forma de obtenção de admiração e sucesso, f) as atitudes em relação ao uso de são neutras ou mesmo favoráveis no seu grupo de relacionamento, e) o controle é considerado negligenciável e flexível.
Muitos usuários de EAS estão de tal forma preocupados com a sua aparência que se acham insuficientemente grandes e musculosos, consumindo suas vidas por atividades destinadas a aumentar a musculatura, como halterofilismo, dieta e uso de drogas. A dismorfia muscular ou vigorexia, distúrbio que caracteriza esse quadro, foi incluída no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, quinta edição, "DSM-5" como uma variante do transtorno dismórfico corporal.
A British Broadcasting Corporation informou recentemente que 10% dos membros masculinos de academias do Reino Unido apresentaram algum grau de dismorfia muscular. Um estudo americano evidenciou que até 10% dos fisioculturistas podem ser afetados, com estimativas conservadoras que relatam cem mil homens nos Estados Unidos.
Numerosos estudos identificaram fatores de risco para o uso dos EAS, incluindo imagem corporal negativa, idade mais jovem, o exemplo bem sucedido de outros usuários, o grande tempo gasto em treinamento físico,  a preocupação exagerada com a alimentação e o uso de outras drogas ilícitas. 
Um importante estudo da Islândia evidenciou uma forte correlação entre o uso de EA e de outras substâncias ilícitas e uma relação moderada com o consumo de álcool e cigarro. Alunos do ensino médio que participam de treinamento físico informal e fora de clubes esportivos formalmente organizados seriam o principal grupo de risco para o uso de EA e devem ser alvo de programas educativos e preventivos.
Embora os efeitos secundários dos EAS sejam raros ou leves em doses terapêuticas, os abusadores usam tipicamente doses 5 a 15 vezes maiores que as doses clínicas recomendadas. Em tais doses, os efeitos adversos podem ser severos e associados às trágicas complicações e mortes de atletas e não atletas.  
Os usuários de EAS acreditam que podem evitar efeitos colaterais indesejados ou maximizar os efeitos das drogas tomando-os de maneiras que incluem: a) ciclos - tomando doses por um período de tempo, parando por um tempo e reiniciando, b) associações - combinando dois ou mais tipos diferentes de esteroides e c) pirâmides - aumentando lentamente a dose ou frequência de abuso, atingindo um pico e, em seguida, diminuindo gradualmente. Não há evidência científica de que qualquer uma dessas práticas reduza as conseqüências médicas nocivas desses medicamentos.
Efeitos colaterais gerais incluem a supressão dose-dependente da função gonadal, infertilidade, hirsutismo, ginecomastia, hepatotoxicidade e perturbações psicológicas, como agressividade e violência, depressão, suicídio, dependência e efeitos cardíacos e metabólicos.
Calcula-se que a mortalidade entre os atletas que utilizam EAS é 6 a 20 vezes maior que a dos atletas limpos e aproximadamente um terço dessas mortes pode ser atribuída a causas cardiovasculares. Cardiomiopatia, infarto do miocárdio, dislipidemia, anormalidades da condução cardíaca e anormalidades da coagulação são efeitos colaterais cardiovasculares bem definidos dos EAS. 
O uso de EAS no esporte competitivo é rigidamente regulamentado, fiscalizado e penalizado, com inúmeras entidades e programas mundiais envolvidos. No entanto, o uso de EAS fora do esporte de elite não é abordado de forma adequada e programas e estratégias eficazes são mandatórias e urgentes para minimizar esse grave problema. 
O projeto #BombaTôFora, idealizado pelo grupo da Endocrinologia do Exercício da UNIFESP em parceria gratuita com a agência de publicidade Y&R, se propôs a abordar o tema de forma ampla, envolvendo a ciência, a comunidade e o Estado para que o uso de esteroides anabolizantes e similares seja minimizado, a população esclarecida e os usuários sejam adequadamente atendidos e reabilitados. 
O projeto foi, de imediato, apoiado pelas sociedades médicas envolvidas: SBEM – Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, SBD – Sociedade Brasileira de Diabetes, SBMEE – Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte, SBOTE – Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia do Esporte e ABRAN – Associação Brasileira de Nutrologia, além do Conselho Federal de Medicina e da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem.
Participe dessa corrente de ação contra o uso indevido dessas substâncias. Acesso o site: www.bombatofora.com.br. Visite nossas redes sociais, curta e compartilhe nossos posts. Juntos, vamos mostrar que os danos são bem maiores do que os ganhos. E diga sempre para amigos, familiares e pacientes: Bomba Tô Fora!

Dr. Clayton Luiz Dornelles Macedo
Médico Endocrinologista
CRM-RS 14.857 - RQE 8.744
Doutorado em Endocrinologia Clínica pela Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP Especialista em Medicina do Esporte pela Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP
Chefe do Núcleo de Endocrinologia do Exercício e Coordenador do Ambulatório de Endocrinologia do Exercício, junto ao Serviço de Medicina do Esporte da UNIFESP
Professor Preceptor do Programa de Residência Médica e da PG em Medicina do Esporte da UNIFESP
Professor do Programa de Pós-graduação em Endocrinologia Clínica e Ciências Endocrinológicas da Disciplina de Endocrinologia da UNIFESP
Coordenador do Departamento de Diabetes, Exercício e Esporte da SBD – Sociedade Brasileira de Diabetes 
Presidente da Comissão Temporária de Estudos em Endocrinologia do Exercício da SBEM – Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.
Membro do Departamento de Atividade Física da Associação Brasileira para Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica – ABESO

A Comissão de Valorização das Novas Lideranças agora está no site da SBEM!

  Gostaríamos de agradecer a todos que acompanham o blog da Comissão de Valorização de Novas Lideranças. Seguiremos trabalhando para publica...