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quarta-feira, 11 de março de 2020

Vitamina D e coronavírus (COVID-19)

Desde tempos remotos, aproveitadores usam o medo e o pânico para tirarem vantagem. Surtos e epidemias, como a do coronavírus (COVID-19), são um prato cheio para charlatões. Em meio à desinformação, maus profissionais oferecem tratamentos sem evidência de eficácia, fúteis e até mesmo deletérios, com a única pretensão de lucrar.


É verdade que existem evidências experimentais de que a vitamina D possa ter efeito modulatório sobre o sistema imunológico. Células de defesa, como macrófagos e linfócitos, expressam receptores para vitamina D. Além disso, existe a hipótese de que a diminuição nos níveis de vitamina D, que acontece nos meses de inverno, poderia explicar o aumento no número de infecções respiratórias virais. Porém, defender o uso de vitamina D como estratégia de prevenção ao coronavírus ainda é um grande equívoco! Explico...
Em 2017, o British Medical Journal publicou uma revisão de 25 estudos sobre o uso do vitamina D como estratégia de prevenção de doenças respiratórias agudas. No total, foram avaliados mais de 10.000 pacientes. O uso de vitamina D reduziu em 1,9% a incidência de infecções, especialmente naqueles com níveis basais abaixo de 10 ng/mL. No entanto, o uso da vitamina D não foi capaz de reduzir eventos adversos graves como pneumonias, necessidade de hospitalização ou morte. Esse estudo é frequentemente citado pelos enganadores, que o interpretam de forma equivocada ou tendenciosa. Vamos por partes...
O uso da vitamina D não foi 100% eficaz. Aliás, ficou bem longe disso! Para cada 52 pacientes que fizeram uso do tratamento, apenas 1 se beneficiou. E esse benefício se restringiu a sintomas leves como coriza, tosse e febre. Outro detalhe: o uso de doses de ataque ou megadoses, frequentemente oferecidas pelos picaretas, não foi tão eficaz quanto a suplementação diária em doses habituais.
Vale ressaltar que o uso da vitamina D ainda não foi estudado no contexto da epidemia do coronavírus. Logo, os resultados do estudo acima não podem ser extrapolados para essa condição específica. Não podemos afirmar que a vitamina D possa ajudar, ou mesmo que possa fazer mal neste contexto. Por isso, seu uso não é recomendado.
Pesquisadores sérios estão testando antivirais e vacinas contra o COVID-19 neste momento. Até que tenhamos os resultados destes estudos, as melhores estratégias de prevenção são evitar o contato com pessoas doentes, lavar as mãos e manter medidas de higiene respiratória (como cobrir a boca ao tossir). Vitamina D ainda não é (e talvez nunca seja) uma opção para o tratamento do COVID-19!

Referências:
1- World Health Organization. Director-General's remarks at the media briefing on 2019-nCoV on 11 February 2020. https://www.who.int/dg/speeches/detail/who-director-general-s-remarks-at-the-media-briefing-on-2019-ncov-on-11-february-2020 (Accessed on February 12, 2020).
2- Martineau AR, Jolliffe DA, Hooper RL, et al. Vitamin D supplementation to prevent acute respiratory tract infections: systematic review and meta-analysis of individual participant data. BMJ 2017; 356:i6583.
3- Martineau AR, Jolliffe DA, Greenberg L, et al. Vitamin D supplementation to prevent acute respiratory infections: individual participant data meta-analysis. Health Technol Assess 2019; 23:1.

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Doutor e Mestre em Endocrinologia pela UFRGS
CRM-RS 30.576 - RQE 22.991

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Vale a pena usar hormônios ditos “bioidênticos”?

Nada de novo

Alguns conceitos básicos de como funciona o sistema capitalista podem nos ajudar a entender melhor a “questão dos hormônios bioidênticos”. Imagine que você queira entrar no extremamente concorrido mercado farmacêutico. Seu capital inicial é pequeno tanto para produção quanto para desenvolvimento de novas moléculas. Com pouco dinheiro, é mais sensato investir em substâncias consagradas e que não sejam protegidas por patentes. Espertamente você escolhe alguns hormônios esteroides, o estradiol e a testosterona. Porém, substâncias pouco inovadoras costumam ser amplamente comercializadas por mais de uma empresa. Quando a oferta de um produto é ampla, seu preço despenca. Mas você não está disposto a ganhar pouco. Como diferenciar seus produtos dos demais? Marketing! E pior, marketing não ético! Estratégia infelizmente muito comum em diversos ramos no mercado…

Imagem: Flickr


Jogada de marketing

O termo “hormônio bioidêntico” é uma jogada de markentig! Essa expressão foi cunhada para soar de forma mais suave que “quimicamente biossimilar” ou “quimicamente idêntico” ao hormônio encontrado na natureza ou que circula no nosso organismo. A geração das pessoas nascidas nas décadas de 1960 e 1970, também conhecidas como “geração granola”, tende a interpretar que coisas ditas “naturais” são boas e coisas ditas “sintéticas” são más. Muitas mulheres dessa geração estão agora enfrentando algum sintoma do período perimenopausa. Conhecendo o potencial mercado consumidor, fica fácil de entender a sacada do “hormônio bioidêntico que é mais natural, igualzinho ao que circula no meu organismo”, não é? Outro ponto propagado é que seria um hormônio “customizado” de acordo com a necessidade de cada paciente. Mas não se engane! Os hormônios ditos “bioidênticos”, representados principalmente por esteroides (estradiol, testosterona, DHEA, progesterona e mesmo a vitamina D), são produzidos pela mesma indústria farmacêutica que fabrica os hormônios convencionais. Aliás, no mundo todo, devem existir apenas 6 ou 7 empresas capazes de produzir estes tipos de substâncias em grande quantidade dentro de um padrão de qualidade minimamente aceitável.


Dúvidas quanto ao perfil de segurança

Mas se a grande maioria dos hormônios convencionais também são iguais ao que nosso corpo produz por que os endocrinologistas se preocupam tanto com os “hormônios bioidênticos”? Por um motivo muito importante: segurança.
O problema é que os ditos “hormônios bioidênticos” costumam ser manipulados ou colocados em implantes. A manipulação de uma substância por si só não é o ponto crucial.  O problema é a prescrição de doses e combinações não avaliadas em estudos clínicos, isto é, com perfil de segurança desconhecido, ou pior, já avaliadas nos mesmos estudos e com perfil de segurança deletério. Quando compramos qualquer medicamento em uma farmácia, ao abrirmos a caixinha, encontramos uma bula. A bula é um documento importante. Nela estão contidas as indicações, doses, interações e perfil de efeitos adversos daquela substância. Para possuir uma bula, o medicamento precisa ter passado por estudos clínicos e estar devidamente registrado nas agências regulatórias, no caso do Brasil, a ANVISA.


Modismo potencialmente prejudicial

A “moda dos bioidênticos” não é coisa nova. Outros países, especialmente os Estados Unidos através do FDA, sua agência regulatória, têm se mostrado preocupados com os possíveis riscos associados ao seu uso. A forma mais apropriada de garantir um tratamento seguro, barato e “natural” ainda é procurando profissionais sérios e com amplo conhecimento.
As modas passam, mas complicações de tratamentos indevidos podem ficar pra sempre…

Fonte: 
1- Bioidentical Hormone Therapy: Whats Is It, Might It Have Advantages? – Medscape.
2- Santoro N, Braunstein GD, Butts CL, et al. Compounded Bioidentical Hormones in Endocrinology Practice: An Endocrine Society Scientific Statement. J Clin Endocrinol Metab 2016; 101:1318-1343. Reissued October 2, 2019.

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Doutor e Mestre em Endocrinologia pela UFRGS
CRM-RS 30.576 - RQE 22.991

Texto revisado pelo Departamento de Endocrinologia Feminina e Andrologia.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Seis fatos sobre terapia hormonal com hormônios ditos bioidênticos em mulheres

A terapia hormonal tem diversos usos dentro da Medicina. Em mulheres, a reposição hormonal da menopausa está indicada especialmente para tratamento dos fogachos e dos sintomas genitourinários que surgem no período da perimenopausa e menopausa. O interesse por terapias alternativas, especialmente a feita com hormônios ditos "bioidênticos", cresceu bastante nos últimos anos. A busca por tratamentos popularmente chamados de "mais naturais" e o intenso trabalho de marketing poderiam explicar esse fenômeno. Mas existe alguma evidência de benefício entre esta opção e a convencional?  Vamos aos fatos...



1- Hormônios ditos bioidênticos são iguais aos hormônios convencionais.

Hormônios bioidênticos são substâncias hormonais que possuem exatamente a mesma estrutura química e molecular encontrada nos hormônios produzidos pelo corpo humano. Podem ser fabricados tanto pela indústria farmacêutica convencional (que já faz isso há bastante tempo) quanto pelas farmácias de manipulação. Entretanto, esse termo vem sendo usado indevidamente e vendido como se fossem “novas opções de tratamento”.


2- Os bioidênticos apresentam menor pureza.

Na prática, as doses referidas nas prescrições costumam ser bastante diferentes das doses presentes nos produtos. Segundo o FDA, órgão equivalente a ANVISA nos Estados Unidos, as potências variam de 67,5 a 268 por cento do referido no rótulo ou na prescrição (1). Além disso, a absorção das moléculas costuma ser menor quando comparada ao tratamento convencional. Em outras palavras, o risco de dosagem abaixo ou acima da recomendada é muito alto, especialmente nas formas que não permitem ajuste da posologia, caso dos implantes (figura).


3- Implantes hormonais não são para todo mundo.

A terapia hormonal da menopausa tem indicações muito precisas: sintomas como os fogachos e os sintomas genitourinários (disfunção sexual) em mulheres no período perimenopausa, por exemplo. Implantes hormonais jamais devem ser prescritos com a intenção de melhorar vitalidade, sensação de energia ou aparência física. Mulheres jovens tendem a ser um grupo de maior risco. O uso de testosterona e a liberação hormonal errática do implante podem levar a efeitos deletérios na função reprodutiva, isto é, podem diminuir a fertilidade, além de possíveis efeitos colaterais como acne, aumento de pelos no corpo.


4- O tratamento com bioidênticos custa caro.

Apesar de algumas formulações custarem menos que algumas apresentações comerciais, o custo do tratamento com bioidênticos costuma ser muito maior por dois motivos: solicitação abusiva de exames na tentativa de monitorar a terapia e alto custo da consulta dos profissionais prescritores, possivelmente devido ao risco que assumem ao indicar tratamentos sem comprovação científica. 


5- Não existem dados sobre a segurança da terapia com bioidênticos.

Ausência de estudos evidenciando risco não significa que o tratamento seja seguro. Significa apenas que os dados não foram devidamente avaliados ou estão sendo omitidos. Não dá pra dizer que o uso de bioidênticos não aumenta o risco de câncer de mama ou de trombose sem que bons estudos tenham sido feitos. Todo tratamento precisa ter seu perfil de segurança devidamente estudado antes de ser amplamente prescrito. É dessa forma que conhecemos os possíveis efeitos adversos, quem está mais propenso a apresentá-los e, principalmente, como devemos agir caso apareçam.


6- O uso de bioidênticos não é recomendado pelas sociedades médicas.

Sociedade médicas internacionais (North American Menopause Society, American College of Obstetricians and Gynecologists e Endocrine Society) e a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) não recomendam tratamento com bioidênticos por entenderem que os riscos são maiores que os benefícios. 

Referências:
1- US Food and Drug Administration. Bio-identicals: Sorting myths from facts. http://www.fda.gov/Drugs/GuidanceComplianceRegulatoryInformation/PharmacyCompounding/ucm049311.htm (Accessed on November 20, 2012).
2-  Martin KA, Barbieri RL. Treatment of menopausal symptoms with hormone therapy. UpToDate.
3- Santoro N, Braunstein GD, Butts CL, et al. Compounded Bioidentical Hormones in Endocrinology Practice: An Endocrine Society Scientific Statement. J Clin Endocrinol Metab 2016; 101:1318-1343. Reissued October 2, 2019.
4- Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (https://www.endocrino.org.br/hormonios-bioidenticos/) e Departamento de Endocrinologia Feminina e Andrologia (DEFA).

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Doutor e Mestre em Endocrinologia pela UFRGS
CRM-RS 30.576 - RQE 22.991

Texto revisado pelo Departamento de Endocrinologia Feminina e Andrologia.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

DHEA e envelhecimento

A deidroepiandrosterona (DHEA) e sua forma sulfatada, o sulfato de deidroepiandrosterona (SDHEA), são produzidos predominantemente pelas glândulas adrenais, que estão localizadas acima de cada um dos rins. A DHEA é frequentemente citada como um androgênio fraco, isto é, um hormônio com propriedades masculinizantes. Entretanto, não há evidência de que ela se ligue ao receptor androgênico e, assim, DHEA têm pouca ou nenhuma atividade androgênica intrínseca. Ela é convertida em hormônios ativos para exercer suas funções biológicas.
A produção da DHEA atinge seu pico por volta dos 25 anos. Ela diminui à medida que envelhecemos. Por volta dos 80 anos, a concentração de DHEA é cerca de 80% menor.

Imagem: Wikimedia Commons

Pequenas quantidades da DHEA são convertidas em androgênios mais ativos (androstenediona, androstenediol, testosterona e 5-dihidrotestosterona) ou mesmo em estrogênios (estradiol e estrona) nas glândulas adrenais, nos folículos pilosos (locais onde crescem os pelos), próstata, gônadas e no tecido adiposo (gordura). Nas mulheres, DHEA e SDHEA são fontes importantes de efeito androgênico, o que não acontece nos homens.
O interesse em suplementar DHEA é crescente. Na mídia leiga, vários efeitos benéficos têm sido defendidos, como ação vasodilatadora, antidepressiva, anti-inflamatória, antiaterosclerótica e mesmo antienvelhecimento. Logo, DHEA é uma panaceia, cujos efeitos aventados são oriundos, em sua maioria, de estudos experimentais, sobretudo em roedores. Entretanto, roedores são modelos experimentais inadequados para o estudo da DHEA. Diferentemente dos seres humanos, esses animais apresentam baixas concentrações endógenas de DHEA, cuja origem é predominante gonadal. Além disso, as doses testadas nesses estudos são, via de regra, suprafarmacológicas, inviabilizando a possibilidade de qualquer extrapolação de resultados. Mas será a DHEA a tão procurada "fonte da juventude"?
A primeira associação entre DHEA e aumento de longevidade ocorreu em um estudo realizado em macacos Rhesus machos. Esses animais foram submetidos à restrição calórica, uma intervenção sabidamente capaz de aumentar a sua sobrevida, e foram pesquisados possíveis biomarcadores de longevidade. Dentre esses biomarcadores, o SDHEA foi associado a um aumento na sobrevida dos macacos e esses resultados foram verificados também em seres humanos. Esse paralelismo entre um biomarcador de longevidade em macacos e em seres humanos levantou a hipótese de que a DHEA ou o SDHEA pudessem ter alguma ação relacionada ao aumento da expectativa de vida, hipótese que nunca foi comprovada.
Em mulheres com insuficiência adrenal, doença caracterizada pela redução na produção de corticoides, o uso da DHEA pode ser útil em situações limitadas. Doses entre 25 e 50 mg por dia podem melhorar o bem-estar e sintomas psicológicos. É possível que haja também melhora na função sexual, massa óssea e massa magra. Vale lembrar que esses efeitos benéficos foram observados em mulheres com doença adrenal grave, mas não na redução hormonal relacionada à idade.
Quando utilizada como estratégia "antiaging", a DHEA não mostra resultados tão animadores. Ensaios clínicos randomizados têm resultados conflitantes com relação ao bem-estar. Com relação ao aumento de massa magra, os estudos são categóricos em afirmar que o uso da DHEA para aumento da massa magra não funciona. Apesar de estudos em animais evidenciarem redução de gordura abdominal, a maioria dos estudos com seres humanos não evidenciou esse efeito. Outras propriedades não observadas foram prevenção da perda de memória e prevenção de doenças cardiovasculares.  Por fim, o uso de DHEA pode aumentar, de maneira muito discreta, a densidade mineral óssea, principalmente no fêmur. Contudo, é provável que esta ligeira melhora no tecido ósseo não seja suficiente para determinar prevenção de fraturas.
O uso da DHEA não é isento de efeitos adversos. Aumento da oleosidade da pele, crescimento excessivo de pelos, redução do colesterol HDL ("colesterol bom"), palpitações e surtos maníacos podem acontecer, já que estamos falando de um precursor de androgênios potentes. Outro problema é com relação à sua pureza. Como a DHEA é importada e, nos Estados Unidos, é considerada um suplemento alimentar, muitas vezes as apresentações comerciais têm origem duvidosa e concentrações diferentes das informadas no rótulo. Para exemplificar, um estudo americano evidenciou variações de 0-150% nas quantidades de DHEA em relação ao rótulo dos produtos.
Em resumo, com base nas evidências, há um potencial limitado para o uso da DHEA. Ele restringe-se a mulheres com insuficiência adrenal primária e sintomas depressivos e/ou baixos níveis de energia apesar das reposições otimizadas de glicocorticoides e mineralocorticoides. Associados à eficácia limitada, os raros, porém potencialmente graves efeitos adversos e o controle insatisfatório de qualidade dos suplementos restringem ainda mais o uso da DHEA na prática clínica. Além disso, os estudos que avaliaram esse tipo reposição envolveram poucos participantes e não duraram mais do que 2 anos. Isto compromete muito a capacidade de generalização dos resultados, principalmente em relação à segurança do tratamento.
Ainda não foi desta vez que a ”modulação hormonal” mostrou-se capaz de combater o processo de envelhecimento...

Fontes: 
1- UpToDate On Line - DHEA and its sulfate.
2- Dhatariya KK, Nair KS. Dehydroepiandrosterone: is there a role for replacement? Mayo Clin Proc. 2003 Oct;78(10):1257-73.
3- Roth GS, Lane MA, Ingram DK, Mattison JA, Elahi D, Tobin JD et al. Biomarkers of caloric restriction may predict longevity in humans. Science. 2002 Aug 2;297(5582):811.
4- Alkatib AA, Cosma M, Elamin MB, Erickson D, Swiglo BA, Erwin PJ et al. A systematic review and meta-analysis of randomized placebo-controlled trials of DHEA treatment effects on quality of life in women with adrenal insufficiency. J Clin Endocrinol Metab. 2009 Oct;94(10):3676-81.
5- Bornstein SR, Allolio B, Arlt W, Barthel A, Don-Wauchope A, Hammer GD et al. Diagnosis and treatment of primary adrenal insufficiency: an Endocrine Society clinical practice guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2016 Feb;101(2):364-89.
6- Parasrampuria J, Schwartz K, Petesch R. Quality control of dehydroepiandrosterone dietary supplement products. JAMA. 1998 Nov 11;280(18):1565.

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Doutor e Mestre em Endocrinologia pela UFRGS
CRM-RS 30.576 - RQE 22.991

Dr. Wellington Santana da Silva Júnior 
Médico Endocrinologista, Doutor em Ciências
Professor Adjunto do Curso de Medicina da UFMA
Presidente da CVNL da SBEM - Biênio 2019/2020
CRM-MA 5188 - RQE 2739

Texto revisado pelo Departamento de Adrenal e Hipertensão.

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Selênio e tireoide

Consumo excessivo de selênio pode ser prejudicial

O selênio é um oligomineral com várias funções biológicas e margem terapêutica estreita, isto é, as doses potencialmente tóxicas estão bem próximas das doses diárias recomendadas para o bom funcionamento no organismo. Logo, a suplementação pode ser útil para algumas pessoas com carência do mineral, mas pode trazer danos à saúde de muitas outras que não são deficientes.

Imagem: Pixabay
Fisiologia do selênio

Em seres humanos, a maior parte do selênio encontra-se ligado a aminoácidos: seleno-cisteína (forma ativa) e seleno-metionina (forma de estoque). Em suplementos, o selênio é disponibilizado na forma inorgânica livre. Frutos do mar, vísceras como fígado e rins, e castanha-do-pará são ricos em selênio. Uma única castanha-do-pará proveniente do Amazonas oferece em torno de 180 mcg de selênio, mais de 3 vezes a dose diária recomendada de 55 mcg. Dependendo do teor de selênio presente no solo, diferentes grãos podem ter diferentes concentrações de selênio. Após ingerido, o selênio é prontamente absorvido no duodeno (selênio inorgânico) e intestino delgado (seleno-metionina) independente dos níveis no sangue do indivíduo. Dentro do organismo, o selênio assume sua forma ativa e passa a participar de diferentes funções orgânicas. Já foram identificadas mais de 30 selenoproteínas das quais podemos destacar a glutationa peroxidase (antioxidante) e 3 formas da iodotironina deionidase tipo 2 (participa na fabricação dos hormônios da tireoide).


Consequências da deficiência de selênio

Diferentes estudos associam a deficiência de selênio a diversos problemas de saúde. Alteração no humor, disfunção muscular, alterações no sistema imunológico, câncer e doenças cardiovasculares. Mas quanto uma suplementação rotineira, ou mesmo o uso em pessoas saudáveis, pode ajudar, ainda precisa ser melhor estudado.


Efeitos do selênio na função tireoidiana

A tireoide é o tecido com maior concentração de selênio no corpo humano por expressar deionidades, que, como dito anteriormente, são selenoproteínas. Embora quantidades muito pequenas de selênio já sejam suficientes para manter a produção de hormônios tireoidianos, foi hipotetizado que os níveis de selênio possam ser importantes na regulação do sistema imunológico, que costuma participar no mecanismo de doenças como a tireoidite de Hashimoto (causa de hipotireoidismo) e a doença de Graves (causa de hipertireoidismo). Estudos pequenos e de curta duração mostraram que a suplementação de selênio foi capaz de reduzir os níveis de anticorpos (anti-TPO) além de modificar a estrutura ecográfica da tireoide em pacientes com tireoidite de Hashimoto. No entanto, tal suplementação não influiu na produção hormonal da glândula, isto é, do ponto de vista clínico, não ajudou em nada. Já em mulheres grávidas com elevação dos níveis de anticorpos, a suplementação de selênio ajudou a diminuir a chance de tireoidite pós-parto. Contudo, o estudo foi feito em uma população com alto risco de deficiência de selênio na Itália. Se esse benefício se estende a qualquer mulher em gestação, ainda não podemos afirmar. Por fim, o uso de selênio em pacientes com inflamação leve dos olhos associada ao hipertireoidismo, ou orbitopatia de Graves, parece ter um pequeno benefício.


Risco do uso excessivo de selênio

Nos casos de uso excessivo ou abusivo, a intoxicação por selênio pode causar sintomas com náusea, vômito, queda de cabelo, alterações nas unhas, alterações do estado mental e doença dos nervos (neuropatia), além do aumento do risco de diabetes mellitus tipo 2.


O uso rotineiro de selênio para melhorar a função tireoidiana não é recomendado

Em resumo, apesar do selênio participar da fisiologia da glândula tireoide, até agora, os estudos não foram capazes de mostrar benefícios clínicos que justifiquem seu uso rotineiro. Considerando seu potencial de toxicidade, mais pesquisas precisam ser realizadas para identificar quem realmente poderá ser ajudado por este tipo de tratamento. 

Referência:
Drutel A, Archambeaud F, Caron P.Selenium and the thyroid gland: more good news for clinicians. Clin Endocrinol (Oxf). 2013 Feb;78(2):155-64.

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Doutor e Mestre em Endocrinologia pela UFRGS
CRM-RS 30.576 - RQE 22.991

Texto revisado pelo Departamento de Tireoide.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Dieta da tireoide – dá pra engolir?

O que comemos ou deixamos de comer tem impacto na nossa saúde

“Que teu alimento seja teu remédio”. Atire a primeira pedra quem nunca viu esta frase atribuída a Hipócrates sendo usada em uma rede social para justificar os mais variados tipos de dietas. É verdade que bons hábitos alimentares auxiliam bastante na prevenção e no tratamento de doenças. Obesidade, diabetes mellitus, hipertensão arterial e até mesmo o câncer estão entre elas. Talvez por isso, sempre que um paciente é diagnosticado com qualquer problema na tireoide, vem a pergunta: “O que eu devo comer ou deixar de comer para ajudar no tratamento?” Que orientações o endocrinologista costuma fazer quando recebe este tipo de questionamento?

Imagem: Wikipedia

Iodo

A tireoide usa iodo para produzir seus hormônios. De cara, já dá pra perceber que na deficiência deste micronutriente, a produção hormonal pode diminuir. Isto é, a baixa ingesta de iodo pode ser causa de hipotireoidismo.
Precisamos de uma alimentação que nos forneça 150 mcg de iodo todos os dias. Gestantes e mulheres amentando, precisam um pouco mais. A principal fonte de iodo alimentar é o sal de cozinha, seguido por frutos do mar e de alguns pães e cereais. No Brasil, toda dona de casa tem acesso ao sal iodado. Logo, para nós brasileiros, o hipotireoidismo por deficiência de iodo não é uma doença prevalente. Entre as poucas pessoas que apresentam maior risco de deficiência de iodo estão os veganos, especialmente se além da restrição de produtos de origem animal, também restringirem sal.
Se por um lado, a deficiência é um problema, o excesso é igualmente prejudicial à saúde. Em pessoas predispostas, o iodo a mais pode desencadear quadros tanto de hiper quanto de hipotireoidismo. Por isso, suplementos como o lugol ou o SSKI costumam fazer mais mal do quem bem à saúde.
E quanto a couve e a soja? Dá pra comer à vontade? Existe um grupo de substâncias conhecidas como goitrogênicas, isto é, com potencial de causar bócio (aumento da tireoide). Os exemplos alimentares mais comuns são os vegetais crucíferos (família da couve) e os produtos derivados da soja.


Crucíferas

Os vegetais crucíferos, que pertencem ao gênero Brassica, incluem couve, brócolis, couve-flor, couve-de-bruxelas e repolho entre outros. São ricos em glicosinolatos, compostos que produzem sulforafano e isotiocianatos, substâncias com propriedades anticancerígenas. Porém, os glicosinolatos também incluem o metabólito tiocinato, que é capaz de inibir a síntese de hormônio tireoidiano. Ou seja, teoricamente, o consumo excessivo desses vegetais poderia causar hipotireoidismo.
Felizmente, na prática, o consumo de crucíferas precisa ser enorme para causar disfunção tireoidiana. Em um estudo, o consumo de 1 litro de suco de couve por dia por 7 dias diminuiu a captação de iodo em cerca de 2% sem efeito significativo nos níveis hormonais (2). Em um relato de caso, uma senhora chinesa de 88 anos, que consumiu cerca de 1,5 kg de acelga por dia por vários meses, acabou entrando em coma pelo hipotireoidismo (3). Exemplo extremo! O consumo moderado não tem impacto significativo no funcionamento da tireoide.


Soja

As isoflavonas, encontradas nos derivados de soja, podem inibir a atividade da enzima peroxidase tireoidiana, atrapalhando a síntese hormonal. Mais uma vez, teoricamente, a ingestão de grandes quantidades de derivados de soja poderia causar hipotireoidismo. Mas não é o que vemos na prática. Mesmo populações que consomem muita soja, como os asiáticos, não apresentam maior risco de hipotireoidismo (4).


Selênio

Por fim, existem alguns estudos associando níveis baixos de micronutrientes (selênio, cobre, zinco e magnésio) a doenças autoimunes e ao câncer de tireoide. No entanto, até o momento, não existe evidência mostrando que a suplementação com estes minerais seja capaz de prevenir ou tratar doenças tireoidianas. Exceção para o uso do selênio na doença ocular leve associada a casos de hipertireoidismo (orbitopatia de Graves) (5).


Não existe padrão alimentar específico para prevenir ou tratar doenças da tireoide

Em resumo, frente à evidência atual, apesar de algumas substâncias e nutrientes terem alguma importância na fisiologia tireoidiana, não podemos afirmar que exista um padrão alimentar específico para prevenir ou tratar doenças da tireoide. Em situações muito específicas – gestante vegana, por exemplo –, ajustes na alimentação ou suplementação podem ter algum impacto, embora  não existam estudos robustos avaliando a custo-efetividade deste tipo de estratégia. Se você apresentou alteração em exames tireoidianos, antes de aderir à qualquer dieta ou fazer uso de suplementos, procure um bom endocrinologista. Felizmente, na maioria das vezes, o tratamento é simples e não exige modificação nos hábitos alimentares. 

Fontes:
1 - Leung AM. The Thyroid Diet: Is There Such a Thing? Medscape.
2 - Kim SSR, He X, Braverman LE, Narla R, Gupta PK, Leung AM. Letter to the Editor. Endocr Pract.  2017; 23(7):885-886.
3 - Chu M, Seltzer TF. Myxedema coma induced by ingestion of raw bok choy. N Engl J Med.  2010; 362(20):1945-6.
4 - Messina M, Redmond G. Effects of soy protein and soybean isoflavones on thyroid function in healthy adults and hypothyroid patients: a review of the relevant literature.
Thyroid.  2006; 16(3):249-58.
5 - Marcocci C, Kahaly GJ, Krassas GE, Bartalena L, Prummel M, Stahl M, Altea MA, Nardi M, Pitz S, Boboridis K, Sivelli P, von Arx G, Mourits MP, Baldeschi L, Bencivelli W, Wiersinga W. Selenium and the course of mild Graves' orbitopathy. N Engl J Med.  2011; 364(20):1920-31.

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Doutor e Mestre em Endocrinologia pela UFRGS
CRM-RS 30.576 - RQE 22.991

Texto revisado pelo Departamento de Tireoide.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Termogênicos - vale a pena investir?

Termogênicos prometem...

Os termogênicos, também conhecidos como “fat burners”, são substâncias que alegam propriedades auxiliadoras no processo de emagrecimento. As suas possíveis ações descritas são:
a) aumento da lipólise (quebra das moléculas de gordura);
b) aumento do metabolismo basal (maior gasto energético);
c) desenvolvimento do tecido adiposo marrom (considerado um tecido que aumenta o consumo de energia);
d) redução da resistência insulínica (reduzindo risco de diabetes);
e) redução da lipogênese (redução do acumulo de moléculas de gordura), entre outras.



...porém, não cumprem.

Através de distintas vias metabólicas, essas diversas ações aconteceriam. As explicações bioquímicas muitas vezes são lógicas e fazem todo o sentido. O grande problema é que essas informações são obtidas, na imensa maioria, de modelos experimentais (células isoladas ou animais). Os resultados favoráveis em seres humanos, quando existentes,  costumam ser pífios e em pequeno numero de indivíduos.
Não existe, hoje, evidência científica suficiente que nos habilite a recomendar o uso de termogênicos como uma abordagem efetiva e segura na obesidade.


Efeitos adversos podem ocorrer

Outro grande problema consiste na própria segurança dos produtos em si. Muitas formulações termogênicas (os chamados blends ou pré-treinos) são constituídos por um conjunto de inúmeras substâncias. É frequente a incerteza quanto a totalidade dos componentes presentes e de suas concentrações. Dessa forma, o risco de toxicidade e interações químicas é imprevisível.
Casos de arritmia cardíaca, taquicardia, crises de pânico, ansiedade, crises hipertensivas e até morte súbita já foram descritos com o uso de termogênicos. Também já foram relatados a presença de contaminantes biológicos e químicos com potencial de nefro e hepatotoxicidade elevados.  E, consequentemente, com alto risco de letalidade.


Termogênicos  não têm função no tratamento da obesidade

Infelizmente, o consumo de termogênicos apresenta um crescimento preocupante entre a população brasileira. A busca pela “solução mágica rápida e efetiva”. A procura da “bala de prata” para a obesidade pode seduzir. Precisamos advertir que a obesidade é um grave problema de saúde pública. É uma patologia crônica, progressiva e que precisa ser tratada com seriedade.
Procure um profissional endocrinologista qualificado. Saiba como no vídeo explicativo: https://youtu.be/W4kzNHOMc54

Dr. Fúlvio Clemo Santos Thomazelli
Medico Endocrinologista
CRM-SC 7031 - RQE 12343
Vice-presidente SBEM SC
Membro da CTEEE da SBEM

Texto revisado pela Comissão Temporária de Endocrinologia do Esporte e do Exercício.

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Eficácia e segurança de estatinas utilizadas em crianças por um período de 20 anos

Estatinas são alvo frequente de fake news

Em um texto publicado recentemente em nossas mídias sociais, falamos da forte relação entre hipercolesterolemia e doenças cardiovasculares (infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral). Já está bem estabelecido na literatura médica que as estatinas (um grupo de drogas que reduzem o colesterol) são drogas seguras e eficazes em pacientes adultos, principalmente naqueles com risco aumentado para esses eventos. Mesmo assim, falsas afirmações a respeito desta classe de fármacos vêm sendo propagadas na internet, assustando as pessoas que precisam usar estas medicações de forma contínua. Estudo publicado recentemente numa das maiores revistas médicas do mundo (The New England Journal of Medicine) mostra dados muito importantes, que corroboram a eficácia e segurança das estatinas em pacientes com hipercolesterolemia familiar acompanhados por um período de 20 anos. Nas próximas linhas faremos um breve resumo do estudo e a que conclusões podemos obter com seus dados.

Imagem: Pixabay

Por que estudar o uso de estatinas em portadores de hipercolesterolemia familiar (HF)?

A HF é um grupo de condições genéticas causadas por mutações que impedem que o mau colesterol (LDL-c) seja removido do sangue de forma eficaz, fazendo com que ele se acumule. Pelo fato deste aumento ser intenso e iniciado precocemente (na infância), o risco de doenças cardiovasculares é elevado. O artigo em questão faz o seguimento de um grupo de mais de 200 crianças (isso mesmo, CRIANÇAS), que foram diagnosticadas com HF e selecionadas num primeiro estudo, entre 1997 e 1999. Durante este período foram tratadas com pravastatina (um tipo de estatina) e sua eficácia e segurança foram demonstradas neste primeiro trabalho. 


Como este estudo foi desenvolvido?

Essas crianças foram acompanhadas por um período de 20 anos e comparadas com seus respectivos irmãos sem a doença. Isso foi muito importante, pois eles compartilham muitas outras características semelhantes sendo os altos valores do LDL-c uma das poucas diferenças. A análise feita em ambos os grupos foi o que chamamos de espessura da camada média das carótidas. O aumento desta medida é um dos primeiros eventos na formação da placa aterosclerótica. E o que foi visto? No grupo com a doença, onde a maioria estava em uso de estatinas, a taxa de progressão desta espessura foi muito semelhante ao grupo controle. Ou seja, tudo leva a crer que o uso da medicação reduziu a velocidade de formação da placa de gordura.
O outro braço deste estudo foi a que comparou o número de eventos e morte cardiovascular. Neste caso o grupo controle foi formado por familiares que tinham o diagnóstico de HF. Como eles não participaram do estudo original a maioria não usava estatinas. Aqui novamente temos dados muito importantes: as crianças que utilizaram as estatinas por um longo período de tempo tiveram uma redução significativa de eventos cardiovasculares (infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral).


Quais os principais pontos positivos deste trabalho? 

1. Foi feito inicialmente com crianças, grupo onde ainda temos um número menor de informações a respeito das indicações e possíveis efeitos colaterais das estatinas. Aqui tivemos pouquíssimos efeitos colaterais e quando houveram, foram leves. 
2. Os participantes foram acompanhados por 20 anos, um longo período de observação.
3. Mostrou que, além de segura, a medicação foi eficaz em reduzir a velocidade de progressão da espessura média de carótidas (um evento inicial da aterosclerose) bem como uma redução no número de eventos cardiovasculares.
4. A maior parte dos indivíduos não atingiu as metas de LDL-c preconizados atualmente (a média nos portadores de HF foi de 160 mg/dl) e apenas 20% obtiveram valores abaixo de 100 mg/dl. Mesmo assim os efeitos das estatinas foram benéficos quando iniciadas precocemente. Isso corrobora a hipótese de que seu efeito positivo vai além de simplesmente reduzir o colesterol. A redução das doenças cardiovasculares é inquestionável com as estatinas.
5. Reforça duas ideias em relação ao LDL-c que ganham cada vez mais força na literatura atual: “the lower, the better” (quanto menor, melhor) e também, “the younger, the better” (quanto mais jovem, melhor). É provável que muito em breve iremos rever as indicações de início de tratamento das crianças com HF (atualmente é entre 8 e 10 anos).


Estatinas são seguras, mesmo em crianças

Como conclusão, este é mais um estudo que demostra não só a eficácia como a segurança das estatinas. Não resta mais nenhuma dúvida quanto ao seu papel fundamental na prevenção de doenças cardiovasculares – tanto em crianças como em adultos. Os possíveis efeitos colaterais não são frequentes e na maior parte dos casos, são leves. Portanto, uma vez corretamente indicada a droga deve ser utilizada de forma contínua e desta forma trará diversos benefícios a estes pacientes.  

Referência:
1- Luirink, I. K., Wiegman, A., Kusters, D. M., Hof, M. H., Groothoff, J. W., de Groot, E., Hutten, B. A. (2019). 20-Year Follow-up of Statins in Children with Familial Hypercholesterolemia. New England Journal of Medicine, 381(16), 1547–1556.

Dr. Ricardo Mendes Martins
Médico Endocrinologista
CRM-RJ 778.559 - RQE 15.753
Professor de Medicina da Unigranrio
Professor de Medicina da UFF 
Médico do Instituto Nacional de Cardiologia

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Óleo de coco baseado em evidências

Que cuidados tomar ao ler textos científicos?

A internet é uma grande fonte de informação, e isso é inegável. No entanto, nem tudo que lemos em sites, blogs ou redes sociais passa por crivo científico criterioso. A literatura médica é vasta. E os diferentes estudos são hierarquizados de acordo com sua qualidade metodológica e com a força das evidências. Por exemplo, um estudo pequeno que disse que determinado tratamento em ratinhos pode baixar o colesterol não deve ser interpretado da mesma maneira que outro estudo que avaliou a mesma intervenção em um grande número de seres humanos e observou que este tratamento não serviu para reduzir infartos ou mortes. Em outras palavras, estudos que replicam as situações da vida real de maneira mais apropriada “pesam mais” na balança da ciência. Dito isto, vamos ao óleo de coco...

Imagem: Wikimedia Commons

Existe grande quantidade de material com pouco embasamento disponível na internet

Basta digitarmos “óleo de coco” no Google para nos maravilharmos com efeitos positivos no colesterol e no risco cardiovascular, além de potencial antioxidante e até mesmo emagrecedor. Contudo, ao fazermos a mesma pesquisa na base de dados médicos Pubmed, podemos perceber que o óleo de coco ainda precisa provar muita coisa...


O processo de produção do óleo de coco tem impacto nas suas propriedades

O óleo de coco virgem, que é obtido através da prensagem a frio do coco, retém grande quantidade de fitoesteróis, tocotrienóis, tocoferóis, além de outros compostos bioativos, substâncias que realmente têm potencial de redução do colesterol e efeito antioxidante. Contudo, aqui cabem duas ressalvas. O processo de fabricação do óleo de coco é bastante variável na indústria. Quando o processo de extração do óleo não controla a temperatura de forma apropriada, perde-se grande parte dos antioxidantes. Além disso, o potencial efeito benéfico dos fitoesteróis contidos em sua composição é contrabalanceado pelo alto teor de gordura saturada (92%).


Faltam evidências robustas de qualquer benefício com o óleo de coco

Os defensores do óleo de coco argumentam que a gordura saturada nele presente é diferenciada. Os ácidos láurico e mirístico, por representarem ácidos graxos de cadeia média, seriam rapidamente metabolizados no fígado favorecendo a elevação do colesterol HDL (bom), menor oxidação do colesterol LDL (ruim) e queima de gordura, com potencial redução do risco cardiovascular e do peso. No entanto, os estudos que evidenciaram estes possíveis benefícios foram  realizados em ratos (1) ou apresentam apresentam sérias limitações metodológicas (2). Como vimos no início deste texto, a Medicina Baseada em Evidências hierarquiza a pesquisa clínica. Até o presente momento, o óleo de coco permanece no nível mais baixo de evidência, precisando, no mínimo, ser melhor estudado.


Os efeitos do consumo de óleo de coco ainda não foram estudados dentro do padrão alimentar Ocidental 

Em março de 2016, um grupo de pesquisadores da Nova Zelândia compilou toda a literatura disponível sobre os potenciais benefícios do óleo de coco e publicou na revista Nutrition Reviews o artigo intitulado “Coconut oil consumption and cardiovascular risk factors in humans” (3). Foram localizados 21 estudos (8 controlados e 13 observacionais). Segundo os autores, o óleo de coco aumentou os níveis de colesterol total e colesterol LDL (ruim). Apesar de aumentar os níveis de colesterol, o óleo de coco aparentemente não aumentou o risco de doenças cardiovasculares, pelo menos em populações que culturalmente o consomem. Ou seja, o óleo de coco parece não aumentar o risco de problemas cardíacos dentro da dieta dos povos polinésios, mas não podemos dizer o mesmo dentro da dieta Ocidental.


Óleo de coco não é suplemento. Muito menos remédio!

Em resumo, não existem provas definitivas de que o óleo de coco ajude a melhorar a imunidade e o metabolismo ou ajude a reduzir o risco de doenças cardíacas. Não deve ser considerado um suplemento, muito menos um remédio. A preferência pelo seu uso restringe-se mais a uma opção culinária do que uma indicação médica, e deve ser feita com moderação. 


Fica a dica...

Aos interessados em aumentar o consumo de antioxidantes e fitoesteróis, a sugestão é consumir a polpa do coco - que também é rica em fibras – e, idealmente, inserida no contexto de uma alimentação equilibrada, com atividades físicas regulares e... sem esperar milagres!

Referências:
1 - Nevin KG, Rajamohan T. Beneficial effects of virgin coconut oil on lipid parameters and in vitro LDL oxidation. Clin Biochem. 2004 Sep;37(9):830-5.
2 - Cardoso DA, Moreira AS, de Oliveira GM, Raggio Luiz R, Rosa GA. COCONUT EXTRA VIRGIN OIL-RICH DIET INCREASES HDL CHOLESTEROL AND DECREASES WAIST CIRCUMFERENCE AND BODY MASS IN CORONARY ARTERY DISEASE PATIENTS. Nutr Hosp. 2015;32(5):2144.
3 - Eyres L, Eyres MF, Chisholm A, Brown RC. Coconut oil consumption and cardiovascular risk factors in humans. Nutr Rev. 2016 Apr;74(4):267-80.

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Doutor e Mestre em Endocrinologia pela UFRGS
CRM-RS 30.576 - RQE 22.991

Texto revisado pelo Departamento de Dislipidemia e Aterosclerose.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

hCG e emagrecimento – vale a pena correr o risco?

Epidemia de excesso de peso e a busca por opções terapêuticas

Que vivemos em uma epidemia de excesso de peso e obesidade, não há dúvidas. A crescente consciência de que os quilos a mais não trazem somente prejuízo estético, mas também problemas de saúde como diabetes mellitus tipo 2, pressão alta, colesterol alto, risco aumentado de morte por doenças cardiovasculares e câncer, tem feito com que se procure alternativas para o tratamento. Um método que volta e meia reaparece como possível solução é o uso da gonadotrofina coriônica humana ou hCG. Mas será um tratamento válido? Vejamos o que nos dizem as evidências científicas...

Imagem: Wikimedia Commons

O hCG já foi estudado, mostrou ausência de benefício...

Ao contrário do que se imagina, a controvérsia sobre o uso do hCG para o emagrecimento já tem mais de 60 anos. Em 1954, o Dr. Simeons publicou na revista Lancet o artigo intitulado “The action of chorionic gonadotrophin in the obese”. Neste estudo, o hCG era usado em conjunto com uma dieta altamente restritiva, de apenas 500 calorias por dia, com o objetivo de se fazer perder peso sem fome e mantendo a massa muscular. Contudo, estudos melhor desenhados realizados a partir da década de 1970 não mostraram esse efeito benéfico do hCG. No ano de 1995, o Dr. Lijensen publicou na revista British Journal of Clinical Pharmacology uma extensa revisão de todos os estudos científicos realizados com hCG para o emagrecimento até o momento. O artigo “The effect of human chorionic gonadotropin (HCG) in the treatment of obesity by means of the Simeons therapy: a criteria-based meta-analysis” avaliou 16 estudos e concluiu que não existe qualquer evidência de que o hCG seja efetivo no tratamento da obesidade. Além de não auxiliar na perda do peso, o hCG não é melhor que o placebo em manter a massa magra, reduzir a fome ou manter o bem-estar. Em outras palavras, este estudo diz que usar hCG ou injeções de água dá na mesma, ou seja, é um tratamento sem efeito.


...além de potenciais efeitos adversos graves

Como se isso já não bastasse, começaram a aparecer relatos na literatura associando o uso do hCG para emagrecimento com efeitos adversos graves como trombose: artigo publicado em 2013 pelo Dr. Goodbar na revista Annals of Pharmacotherapy: "Effect of the human chorionic gonadotropin diet on patient outcomes".


Não é ético prescrever tratamentos que não funcionam visando o lucro 

Mas se o hCG não funciona e pode fazer tão mal, por que alguns médicos defendem seu uso e o prescrevem? Chegamos aqui a um ponto extremamente delicado...
Segundo os artigos 14, 112, 113 e 114 do Código de Ética Médica é vetado ao médico: praticar ou indicar atos médicos desnecessários ou proibidos pela legislação vigente no País; divulgar informação sobre assunto médico de forma sensacionalista, promocional ou de conteúdo inverídico; divulgar, fora do meio científico, processo de tratamento ou descoberta cujo valor ainda não esteja expressamente reconhecido cientificamente por órgão competente; anunciar títulos científicos que não possa comprovar e especialidade ou área de atuação para a qual não esteja qualificado e registrado no Conselho Regional de Medicina. Um profissional que esteja disposto a ser tão anti-ético só pode ter um conflito de interesse muito grande com a prescrição do hCG, isto é, está ganhando muito dinheiro com isso.


O tratamento da obesidade exige trabalho sério e ético

Não existe milagre no tratamento do excesso de peso e da obesidade. Existe trabalho sério! Medidas como modificação da dieta baseada em protocolos calóricos e nutricionais seguros; programas de exercício adaptados as capacidades e limitações de cada paciente; e aconselhamento comportamental, incluindo desenvolvimento de hábitos alimentares adequados, como lidar com o estresse e ansiedade, e como adaptar a dieta e o estilo de vida dentro do contexto familiar; geralmente demandam trabalho de equipe multidisciplinar responsável e competente.


Fique de olho! Não caia no papo de aproveitadores

Modismos e aproveitadores existem e sempre existirão. Quando você for ler qualquer texto na internet ou em revistas, ou mesmo quando for assistir alguma entrevista na TV, sempre procure conhecer as fontes. Certifique-se de que sejam pessoas sensatas e atualizadas, se são ligadas a centros acadêmicos ou a produção científica. Vá atrás das referências citadas e consulte as sociedades médicas e agências de vigilância sanitária. Cuide-se!

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Doutor e Mestre em Endocrinologia pela UFRGS
CRM-RS 30.576 - RQE 22.991

Texto revisado pelo Departamento de Obesidade da SBEM.

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Mitos sobre a pregnenolona: neuroesteroide com função cognitiva?

O que é a pregnenolona afinal?

A pregnenolona é um esteroide que se origina a partir da clivagem do colesterol dentro de um compartimento celular denominado mitocôndria. A pregnenolona é um precursor dos principais hormônios esteroides, ou seja, vai sofrer uma série de reações enzimáticas e pode dar origem ao cortisol, aldosterona, progesterona e a um tipo de andrógeno (hormônio masculino) mais fraco denominado dehidroepiandrosterona (DHEA). A formação do cortisol e da aldosterona ocorre somente nas glândulas suprarrenais, já a formação da progesterona e do DHEA pode ocorrer nas adrenais e no ovário.


Hormônio com ação no sistema nervoso central

Recentemente, estudos em ratos demonstraram que a pregnenolona tem ação no sistema nervoso central, sendo então denominada de neuroesteroide. A pregnenolona age nos receptores do neurotransmissor ácido gama-aminobutírico (GABA), o principal neurotransmissor inibitório no sistema nervoso central. A ativação do sistema GABA leva a redução da atividade cerebral. Já a pregnenolona inibe a ligação do GABA aos seus receptores, impedindo a sua ação em inibir a atividade cerebral.


Ainda faltam evidências de benefício

Por causa desse efeito da pregnenolona em inibir o sistema GABA, muito tem sido falado sobre potenciais benefícios da pregnenolona em melhorar memória, atenção e em impedir a perda cognitiva durante o envelhecimento. Apesar disso, os estudos em humanos mostram, até o momento, que os benefícios citados acima ainda não foram confirmados. Em humanos, o tratamento com pregnenolona já foi realizado em pacientes com doenças neuropsiquiátricas, como esquizofrenia, transtorno de ansiedade generalizada, fobia social, entre outras. O único benefício foi demonstrado em indivíduos com esquizofrenia, que apresentaram melhora dos sintomas negativos e da função cognitiva (principalmente atenção) após 8 semanas de tratamento com pregnenolona, mas sem nenhum efeito na memória.


A pregnenolona não deve ser usada para melhorar a memória nem prevenir o envelhecimento

Não existem até o momento, estudos bem conduzidos que avaliem os benefícios da pregnenolona em melhorar os déficits cognitivos e a perda de memória em pessoas durante o processo normal de envelhecimento. Dessa forma, o uso da pregnenolona não está indicado com o propósito de melhorar a memória e atenuar as perdas cognitivas do processo de envelhecimento.

Referência:
1- Ratner et al. Neurosteroid Actions in Memory and Neurologic/Neuropsychiatric Disorders. Frontiers in Endocrinology 2019; 10:169.

Dr. Madson Queiroz de Almeida
Médico Endocrinlogista
Professor Livre-Docente da Disciplina de Endocrinologia e Metabologia do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Presidente do Departamento de Adrenal e Hipertensão da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (biênio 2019/2020)
CRM-SP 102.257

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Diabettic (adesivo antidiabetes): não caia nesse golpe!

A  suposta "bala mágica"...

Há poucos dias, viralizou na internet um anúncio sobre um adesivo capaz de curar o diabetes. O dispositivo, batizado de Diabettic, seria supostamente capaz de “estabilizar definitivamente o quadro de diabetes tipo 1 e 2”. Ainda de acordo com o site, “através de sua fórmula exclusiva, combinando compostos 100% naturais, Diabettic foi testado e 'unanimemente' aprovado”.

O site também prometia a cura da neuropatia diabética (uma complicação do diabetes nos nervos), efeitos rápidos (em 15 dias), 100% de eficácia e o fim da dependência de medicamentos e de seus efeitos nocivos ao organismo. Esses efeitos foram atestados por um suposto médico endocrinologista chamado de Gerônimo Telmann, cuja foto foi divulgada no site. Tudo isso, por um preço que variava de R$ 9,90-24,50 por adesivo, a depender do pacote comprado (com 6, 18 ou 30 adesivos).

Imagem veiculada no anúncio do suposto tratamento

...é somente mais um golpe!

Infelizmente, tudo não passava de um GIGANTESCO golpe. As substâncias listadas no adesivo não têm respaldo científico para o tratamento do diabetes ou de qualquer uma de suas complicações. Não há registros de estudos clínicos que corroborem a utilização desse dispositivo em seres humanos. O suposto Dr. Gerônimo Telmann também não consta no site do Conselho Federal de Medicina, tampouco nos registros da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.

Outros pontos merecem comentários sobre o site: o registro é “.com” e não “.com.br”, sugerindo que é criado numa conta fora do Brasil. Não existe nenhum nome de empresa ou CNPJ na divulgação. Não existe um endereço para correspondência; apenas um número de telefone celular. Todos os indicativos de que a pessoa por trás desse golpe não quer ser identificada.


Não é a primeira vez que um "produto natural" promete benefícios milagrosos

Esta não é a primeira vez que supostos produtos naturais com benefícios milagrosos para o diabetes viralizam nas redes sociais. Substâncias como água de quiabo, suco de maxixe, farinha da casca do maracujá e os mais variados chás (chá verde, camomila, hibisco, supervit, pata de vaca, ban-chá, carqueja, sálvia e chá preto)[1] já foram apontados como remédios ou curas para o diabetes em sites de origem duvidosa. Muitas vezes, esses produtos são também colocados à venda na internet.


Pacientes com diabetes são alvos frequentes de charlatões

Mas quais as motivações para as práticas de charlatanismo relacionadas ao diabetes? Sem dúvida, a principal delas é a existência de um mercado favorável. Pense bem: quantas pessoas você conhece que se interessariam por comprar uma possível cura para o diabetes?

A Sociedade Brasileira de Diabetes estima que existam mais de 14 milhões de pessoas com diabetes no Brasil.[2] De acordo com o VIGITEL BRASIL 2018, a frequência do diagnóstico médico de diabetes em adultos nas 27 capitais brasileiras é de 7,7%, sendo maior entre as mulheres (8,1%) do que entre os homens (7,1%).[3] Ou seja: é muita gente! Somado a isso o fato do diabetes ser uma doença crônica cujos custos associados ao tratamento são frequentemente elevados, a venda de qualquer “cura” para esse problema se torna uma alternativa atrativa para o público e extremamente lucrativa para os charlatões.


Tratamentos falsos podem causar prejuízos graves

Em um mercado onde faltam escrúpulos, precisamos estar atentos. A interrupção do tratamento com insulina em pacientes com diabetes tipo 1 (forma mais comum de diabetes em crianças) pode levar à morte por cetoacidose diabética em poucos dias. Efeitos desastrosos podem ocorrer também em pacientes com diabetes tipo 2 (forma mais comum da doença). Por isso, diante de qualquer informação sobre novas alternativas de tratamento para qualquer doença, todo cuidado é pouco. Aqui, vale a máxima “quando a esmola é demais, o santo desconfia”.


Aprenda a identificar anúncios falsos e fake news

Com um pouco de atenção, é possível se identificar diversos elementos que sugerem que o Diabettic se trate de um golpe. São evidentes a “polarização” (“remédio natural barato” x “remédio caro da indústria”), a “promessa de cura de doença crônica”, a “falta de rigor científico” etc. Para auxiliá-los nesse processo, sugiro a leitura das doze dicas para identificar charlatanismo,[4] aqui no blog.
É inegável o enorme potencial das redes sociais para o compartilhamento de informações relacionadas à saúde. Infelizmente, as informações compartilhadas nem sempre são confiáveis. Tome muito cuidado com esses produtos “milagrosos” vendidos pela Internet. Não coloque sua vida ou de seus familiares em risco. Antes de tomar qualquer atitude relacionada à sua saúde ou ao tratamento de qualquer doença sua ou de seus familiares, consulte um médico de sua confiança. Esse ainda é o melhor remédio para não cair nas armadilhas criadas pelos charlatões!

Referências:
1- Sociedade Brasileira de Diabetes. Chás e ervas são capazes de auxiliar no tratamento e combate do diabetes? Coluna Diabetes em Debate; 2019. Disponível em: <https://www.diabetes.org.br/publico/diabetes-em-debate/1828-coluna-verdadeiro-ou-falso-4-chas-e-ervas-sao-capazes-de-auxiliar-no-tratamento-e-combate-do-diabetes>.
2- Sociedade Brasileira de Diabetes. Mais de 14 milhões de pessoas têm diabetes no Brasil e 72 mil morrem todos os anos no país. SBD na Imprensa; 2016. Disponível em: <https://www.diabetes.org.br/publico/para-voces/sbd-na-imprensa/1413-mais-de-14-milhoes-de-pessoas-tem-diabetes-no-brasil-e-72-mil-morrem-todos-os-anos-no-pais>.
3- Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Análise em Saúde e Vigilância de Doenças não Transmissíveis. Vigitel Brasil 2018: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico: estimativas sobre frequência e distribuição sociodemográfica de fatores de risco e proteção para doenças crônicas nas capitais dos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal em 2018 / Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Análise em Saúde e Vigilância de Doenças não Transmissíveis. – Brasília: Ministério da Saúde, 2019. Disponível em: <https://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2019/julho/25/vigitel-brasil-2018.pdf>.
4- Severo MD. Doze dicas para identificar charlatanismo. Blog da Comissão de Valorização de Novas Lideranças da SBEM; 2019. Disponível em: <https://novasliderancassbem.blogspot.com/2019/06/doze-dicas-para-identificar.html>.

Dr. Wellington Santana da Silva Júnior
Endocrinologista e Metabologista
Professor da Disciplina de Endocrinologia da UFMA
Doutor em Ciências pela UERJ 
Presidente da CVNL da SBEM - Biênio 2019/2020
CRM-MA 5188 - RQE 2739

Texto revisado pelo Presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Dr. Rodrigo O. Moreira.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Fadiga adrenal: cuidado para não receber o diagnóstico de uma doença falsa

Entre os sintomas mais comuns nos dias de hoje estão a fadiga e o estresse. Quando percebe-se que os níveis de energia estão baixos, as pessoas buscam por respostas e soluções. Algumas procuram por uma “bala mágica” e acreditam que o complexo vitamínico correto será capaz de restabelecer o vigor. Outras querem saber se existem medicamentos ou estimulantes para tratar o quadro. A verdade é que a avaliação de sintomas vagos pode ser um verdadeiro desafio. Muitos de nós temos vidas movimentadas, que por vezes não nos permitem praticar exercícios ou mesmo dormir de forma adequada. A alimentação também acaba prejudicada pela falta de tempo e pela conveniência. A fadiga e o estresse podem fazer parte da vida, mas também podem ser sintomas de doenças mais graves. É justamente o fato de serem sintomas inespecíficos que tornam sua avaliação e tratamento, algumas vezes, não tão fáceis.
Para alguns defensores de “práticas alternativas”, esses sintomas vagos e inespecíficos foram agrupados em uma “doença inventada”, a “fadiga adrenal”. Contudo, não há até o momento qualquer evidência de que a “fadiga adrenal” exista como patologia. A Endocrine Society, uma das mais respeitadas organizações médicas do mundo, posicionou-se sobre o assunto recentemente:

“A fadiga adrenal não é uma condição médica real. Não existem fatos científicos para suportar a teoria que estresse físico, mental ou emocional esgotem as glândulas adrenais e causem sintomas.”

Imagem: TheraSpecs
Palavras inequívocas! Mas a medicina baseada em evidências é ainda mais categórica em refutar uma doença falsa...
As adrenais são um par de glândulas localizadas uma sobre cada rim e produzem diversos hormônios, entre eles os hormônios do estresse adrenalina, noradrenalina e cortisol. Será que estas glândulas podem cansar se estimuladas em excesso? Mesmo na ausência de qualquer fato científico, o naturopata James Wilson cunhou o termo “fadiga adrenal” em um livro publicado em 1998. Dê uma olhada no questionário de Wilson abaixo. Você apresenta algum destes sintomas?
1- Cansado sem razão aparente.
2- Dificuldade em acordar de manhã.
3- Necessidade de café, refrigerantes tipo cola, doces ou salgadinhos para ter energia.
4- Sentindo-se para baixo ou estressado.
5- Fissurado em doces ou salgadinhos.
6- Lutando para manter as tarefas de rotina.
7- Não consegue se desenvencilhar do estresse e da doença.
8- Não se diverte.
9- Não tem vontade em manter relações sexuais.
Segundo Wilson, se você convive com qualquer um desses sintomas, você tem “fadiga adrenal”, a “doença falsa” mais prevalente no mundo, já que dificilmente alguém já não apresentou algum desses sintomas.
Porém, este questionário jamais foi validado, não existem provas nem literatura pertinente que possam embasá-lo. Uma busca detalhada na base de estudos médicos Pubmed com os termos “adrenal” AND “fatigue” retorna apenas um resultado relevante, que é uma revisão que não cita as fontes revisadas!
Doenças falsas são agrupamentos de diferentes sintomas dentro de condições sem nenhum embasamento científico. É da natureza do ser humano querer entender os padrões das doenças para propor tratamentos. Porém, definir um simples grupo de sintomas é o primeiro erro nesse processo de compreensão. Isto porque os sintomas precisam ser organizados de uma maneira racional para fazerem sentido dentro de uma síndrome clínica. No caso da “fadiga adrenal”, não existe esta explicação racional da progressão e gravidade dos diferentes sintomas, apenas um agrupamento simples. O segundo grande erro é usar uma lista desorganizada de sintomas para identificar pacientes com a doença. O terceiro erro é usar testes laboratoriais em sangue ou saliva, com suas diversas complicações metodológicas, para diagnosticar uma patologia que não é ao menos descrita de forma apropriada. Por fim, o pior de todos os erros é propor tratamento, seja ele qual for, para algo pobremente definido. Como saber se algo tão “amorfo” está melhorando ou piorando com um tratamento? Como saber se o próprio tratamento não está fazendo mal?
Enquanto a “fadiga adrenal” não existe, os sintomas que muitas pessoas apresentam são sim reais. Estes mesmos sintomas podem ser causados por doenças verdadeiras como apneia do sono, hipotireoidismo, diabetes, depressão, anemia, insuficiência adrenal, neoplasias, entre outras. Ao aceitar o diagnóstico de uma “doença falsa” perde-se tempo em realizar o diagnóstico correto de algo que pode ser potencialmente grave. Por fim, pode ser frustrante apresentar sintomas e após uma avaliação médica pormenorizada não se identificar uma causa. Mas esta situação é melhor do que ter a distração de tratar uma condição fictícia.

Texto adaptado de Sciece-Based Medicine.

Referências: 
2 - Adrenal fatigue does not exist: a systematic Review - Cadegiani FA, Kater CE – BMC Endocrine Disorders (2016) 16:48.

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista do Hospital Universitário de Santa Maria
Doutor em Ciências Médicas - Endocrinologia - UFRGS
CRM-RS 30.576 - RQE 22.991

Texto revisado pelo Departamento de Adrenal e Hipertensão.

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Informações seguras sobre temas da Endocrinologia: conheça as mídias sociais da Comissão de Valorização de Novas Lideranças da SBEM

Hormônios para curar o câncer? Chás para tratar o diabetes? Óleo de coco para reduzir o colesterol? Iodo para aprimorar a tireoide?
É inegável o enorme potencial das redes sociais para o compartilhamento de informações. Infelizmente, as informações compartilhadas nem sempre são confiáveis. As perguntas acima retratam algumas "fake news", notícias falsas que circulam na internet, promovendo desinformação e riscos potenciais à saúde.

Créditos da imagem: Portal SAPO

Buscando combater as fake news e garantir à população uma fonte confiável de informações na área da Endocrinologia, a Comissão de Valorização de Novas Lideranças (CVNL) da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) tem a satisfação de anunciar a criação das suas mídias sociais. Esses canais de comunicação serão estratégicos para a divulgação de conteúdos devidamente embasados e voltados para o público em geral.
Nossas publicações periódicas contarão com o respaldo dos Departamentos Científicos da SBEM e trarão informações pautadas na ética e na medicina baseada em evidências, visando promover educação em saúde.
Sinta-se à vontade para sugerir temas e compartilhar os conteúdos da CVNL em nosso Blog, Instagram e Facebook. Ajude-nos na missão de combater as fake news na saúde! Além de danosas, essas notícias tumultuam a Endocrinologia, uma das áreas mais instigantes da Medicina.
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Saudações,

Dr. Wellington Santana da Silva Júnior
Endocrinologista e Metabologista
Professor da Disciplina de Endocrinologia da UFMA
Doutor em Ciências pela UERJ 
Presidente da CVNL da SBEM - Biênio 2019/2020
CRM-MA 5188 - RQE 2739

A Comissão de Valorização das Novas Lideranças agora está no site da SBEM!

  Gostaríamos de agradecer a todos que acompanham o blog da Comissão de Valorização de Novas Lideranças. Seguiremos trabalhando para publica...