segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Eficácia e segurança de estatinas utilizadas em crianças por um período de 20 anos

Estatinas são alvo frequente de fake news

Em um texto publicado recentemente em nossas mídias sociais, falamos da forte relação entre hipercolesterolemia e doenças cardiovasculares (infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral). Já está bem estabelecido na literatura médica que as estatinas (um grupo de drogas que reduzem o colesterol) são drogas seguras e eficazes em pacientes adultos, principalmente naqueles com risco aumentado para esses eventos. Mesmo assim, falsas afirmações a respeito desta classe de fármacos vêm sendo propagadas na internet, assustando as pessoas que precisam usar estas medicações de forma contínua. Estudo publicado recentemente numa das maiores revistas médicas do mundo (The New England Journal of Medicine) mostra dados muito importantes, que corroboram a eficácia e segurança das estatinas em pacientes com hipercolesterolemia familiar acompanhados por um período de 20 anos. Nas próximas linhas faremos um breve resumo do estudo e a que conclusões podemos obter com seus dados.

Imagem: Pixabay

Por que estudar o uso de estatinas em portadores de hipercolesterolemia familiar (HF)?

A HF é um grupo de condições genéticas causadas por mutações que impedem que o mau colesterol (LDL-c) seja removido do sangue de forma eficaz, fazendo com que ele se acumule. Pelo fato deste aumento ser intenso e iniciado precocemente (na infância), o risco de doenças cardiovasculares é elevado. O artigo em questão faz o seguimento de um grupo de mais de 200 crianças (isso mesmo, CRIANÇAS), que foram diagnosticadas com HF e selecionadas num primeiro estudo, entre 1997 e 1999. Durante este período foram tratadas com pravastatina (um tipo de estatina) e sua eficácia e segurança foram demonstradas neste primeiro trabalho. 


Como este estudo foi desenvolvido?

Essas crianças foram acompanhadas por um período de 20 anos e comparadas com seus respectivos irmãos sem a doença. Isso foi muito importante, pois eles compartilham muitas outras características semelhantes sendo os altos valores do LDL-c uma das poucas diferenças. A análise feita em ambos os grupos foi o que chamamos de espessura da camada média das carótidas. O aumento desta medida é um dos primeiros eventos na formação da placa aterosclerótica. E o que foi visto? No grupo com a doença, onde a maioria estava em uso de estatinas, a taxa de progressão desta espessura foi muito semelhante ao grupo controle. Ou seja, tudo leva a crer que o uso da medicação reduziu a velocidade de formação da placa de gordura.
O outro braço deste estudo foi a que comparou o número de eventos e morte cardiovascular. Neste caso o grupo controle foi formado por familiares que tinham o diagnóstico de HF. Como eles não participaram do estudo original a maioria não usava estatinas. Aqui novamente temos dados muito importantes: as crianças que utilizaram as estatinas por um longo período de tempo tiveram uma redução significativa de eventos cardiovasculares (infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral).


Quais os principais pontos positivos deste trabalho? 

1. Foi feito inicialmente com crianças, grupo onde ainda temos um número menor de informações a respeito das indicações e possíveis efeitos colaterais das estatinas. Aqui tivemos pouquíssimos efeitos colaterais e quando houveram, foram leves. 
2. Os participantes foram acompanhados por 20 anos, um longo período de observação.
3. Mostrou que, além de segura, a medicação foi eficaz em reduzir a velocidade de progressão da espessura média de carótidas (um evento inicial da aterosclerose) bem como uma redução no número de eventos cardiovasculares.
4. A maior parte dos indivíduos não atingiu as metas de LDL-c preconizados atualmente (a média nos portadores de HF foi de 160 mg/dl) e apenas 20% obtiveram valores abaixo de 100 mg/dl. Mesmo assim os efeitos das estatinas foram benéficos quando iniciadas precocemente. Isso corrobora a hipótese de que seu efeito positivo vai além de simplesmente reduzir o colesterol. A redução das doenças cardiovasculares é inquestionável com as estatinas.
5. Reforça duas ideias em relação ao LDL-c que ganham cada vez mais força na literatura atual: “the lower, the better” (quanto menor, melhor) e também, “the younger, the better” (quanto mais jovem, melhor). É provável que muito em breve iremos rever as indicações de início de tratamento das crianças com HF (atualmente é entre 8 e 10 anos).


Estatinas são seguras, mesmo em crianças

Como conclusão, este é mais um estudo que demostra não só a eficácia como a segurança das estatinas. Não resta mais nenhuma dúvida quanto ao seu papel fundamental na prevenção de doenças cardiovasculares – tanto em crianças como em adultos. Os possíveis efeitos colaterais não são frequentes e na maior parte dos casos, são leves. Portanto, uma vez corretamente indicada a droga deve ser utilizada de forma contínua e desta forma trará diversos benefícios a estes pacientes.  

Referência:
1- Luirink, I. K., Wiegman, A., Kusters, D. M., Hof, M. H., Groothoff, J. W., de Groot, E., Hutten, B. A. (2019). 20-Year Follow-up of Statins in Children with Familial Hypercholesterolemia. New England Journal of Medicine, 381(16), 1547–1556.

Dr. Ricardo Mendes Martins
Médico Endocrinologista
CRM-RJ 778.559 - RQE 15.753
Professor de Medicina da Unigranrio
Professor de Medicina da UFF 
Médico do Instituto Nacional de Cardiologia

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Testosterona em mulheres: dosar ou não dosar?

A dosagem e reposição de testosterona nas mulheres é um tema bastante atual e um dos motivos que as fazem procurar atendimento médico. Embo...