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segunda-feira, 3 de junho de 2019

Doze dicas para identificar charlatanismo

Nas mais diversas áreas, existem pessoas mal intencionadas e aproveitadores. Quando envolvemos ciência e, especialmente saúde, pode ser muito difícil identificar se uma informação, tratamento ou profissional são de fato éticos e estão embasados em evidências sólidas. Chamo de evidências sólidas resultados de pesquisas científicas com alto rigor metodológico, isto é, avaliações realmente justas e bem feitas de uma determinada intervenção. Abaixo, alguns indícios que sugerem que você está sendo enganado...

Imagem: Wikimedia Commons

1- Retórica: o processo de tomada de decisão compartilhado entre médico e paciente é uma das prerrogativas da Medicina atual. Para que uma pessoa possa optar entre este ou aquele procedimento é importante que seja informada de maneira clara e compreensível. Linguagem excessivamente técnica muitas vezes é usada como artifício para induzir o paciente a escolhas menos corretas, já que este é levado a acreditar que o profissional de saúde detém conhecimento de ponta, quando não é verdade.

2- Pseudotítulos: no Brasil, médicos se tornam especialistas após realizarem estágio supervisionado em programas de residência médica ou através de provas de título rigorosas ministradas por sociedades médicas reconhecidas pelo Conselho Federal de Medicina. Não raro, maus profissionais apresentam "pseudotítulos", isto é, titulação conferida por "sociedades" não reconhecidas, muitas vezes criadas por eles próprios.

3- Glamourização: ostentação de clínicas luxuosas frequentadas por celebridades, consultas e tratamentos a preços exorbitantes, exclusividade, servem para passar uma imagem de "sucesso" ao público geral. É uma estratégia há muito usada por marcas de luxo para agregar valor e criar um certo desejo no consumidor (no caso, no paciente).

4- Falta de rigor científico: o método científico é rigoroso e hierarquiza os estudos de acordo com sua qualidade metodológica e força de evidência. Isto quer dizer que a conclusão de um estudo feito numa cultura de células não tem o mesmo peso que a conclusão de um estudo realizado em grande número de pessoas. O mesmo serve para estudos metodologicamente bem feitos e mal feitos. É comum que estudos ruins e de baixa qualidade sejam usados para justificar as opiniões pessoais do mau profissional. Assim como estudos robustos e bem desenhados são deixados de lado, se assim convier. É uma leitura viciada da literatura médica.

5- Excessos de exames e tratamentos: aprendemos desde cedo que um exame só deve ser solicitado quando for capaz de beneficiar o paciente de alguma forma, seja prevenindo, identificando ou monitorando o tratamento de uma doença. O excesso de exames disfarça a falta de perícia clínica. Passa a falsa impressão de que se está sendo bem avaliado. Exames não devem ser solicitados sem uma indicação precisa sob a pena de levarem a mais exames e a mais tratamentos desnecessários ou, inclusive, deletérios.

6- Cointervenções: são frequentes as prescrições com extensas fórmulas manipuladas, associadas a dietas restritivas e outras mudanças na rotina para pacientes saudáveis ou pouco doentes. Grande parte do que consta na receita serve para passar a falsa impressão de exclusividade do tratamento que, diversas vezes, é muito parecido ao convencional, com alguns floreios, além de disfarçar o uso de substâncias ilícitas ou de indicação controversa. "Esta receita é tão exclusiva que precisa ser manipulada de acordo com minhas necessidades biológicas". Será? "Esse HCG está me ajudando a emagrecer". Nananão.

7- Ritualização: duas pílulas de açúcar, funcionam melhor do que uma. Uma injeção de água destilada, funciona melhor que 2 pílulas de açúcar. Uma infusão de soro colorido por vitaminas, funciona melhor que a injeção de água. Quanto mais complexo e ritualístico for o tratamento, mais forte é o sugestionamento e o efeito placebo. Alguns tratamentos têm a complexidade de verdadeiros rituais esotéricos.

8- Promessas: corpo perfeito, desintoxicação, juventude, vigor físico, antes versus depois, cura de doenças crônicas são promessas frequentes.

9- Gurus: o conhecimento científico é de livre disponibilidade. Qualquer profissional de saúde bem intencionado consegue, com boa vontade, ter acesso, interpretar a literatura científica e citar suas referências. O mau profissional muitas vezes costuma citar outro charlatão de maior destaque. "Eu faço, porque o Dr. Fulano, super famoso, faz". Muitos destes "gurus" ministram cursos e ganham a vida vendendo informações distorcidas para os maus profissionais.

10- Polarização: é frequente a polarização entre "produtos naturebas" versus "indústria farmacêutica", "Medicina moderna e inovadora" versus "Medicina tradicional e retrógrada", "hormônio bioidêntico que previne" versus "remédio que promove a doença", "eu que quero ajudar meus pacientes" versus "todos os outros médicos que têm inveja do meu sucesso". O discurso do "bem contra o mal" visa criar uma aura de pureza e honestidade em quem usa a Medicina para ludibriar e lucrar.

11- Incriticabilidade: a crítica faz parte da ciência. Como evoluir se algo é inquestionável? O mau profissional gosta de criticar a "Medicina tradicional" com discurso filosófico e fracamente embasado, como vimos anteriormente. Contudo, se torna extremamente agressivo quando se vê encurralado e lhe faltam argumentos para defender o indefensável.

12- Intangibilidade: é frequente que tais profissionais sofram com processos éticos ou mesmo judiciais. Contudo, se dizem injustiçados e perseguidos. Discurso infelizmente frequente no Brasil dos dias atuais...

Sugestão de leitura:
Ciência Picareta - Ben Goldacre - Ed. Civilização Brasileira

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista do Hospital Universitário de Santa Maria
Doutor em Ciências Médicas - Endocrinologia - UFRGS
CRM-RS 30.576 - RQE 22.991

6 comentários:

  1. Muito bom o texto.
    Acho fundamental a SBEM orientar à sociedade, hoje temos inúmeras clínicas populares com "falsos especialistas", e infelizmente os Conselhos Federais não se manifestam diante disso.

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  2. PORQUE EXISTEM INÚMERAS FARMÁCIAS? ENRIQUECIMENTO ABSURDO DA INDUSTRIA FARMACÊUTICA.CADA RUA 10 FARMÁCIAS.ESTRANHO ISSO ? NÃO

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  3. Os próprios pacientes podem comprar medicações, ainda que não prescritas por médico nenhum. Sempre tem um leigo que acha que sabe mais que o profissional. O próprio farmaceutico pode ser responsável pela mudança de orientações e induzir o paciente a comprar medicacoes.
    Se as medicações da indústria farmacêutica fossem inúteis, eles nao seriam ricos. São ricos porque sao de certa forma úteis; o aumento da expectativa de vida não é a toa. O mundo sempre foi e vai ser assim. Eles enriquecerem contribuindo ao mundo não é errado, ou é?

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    1. É uma selva sem lei se remedio fosse bom , nimguem morri a de infato, dibetis etc é apenas um negocioe td que tiver no caminho atrapalhando vai ser eliminado.
      a industria pode vender drogas que matan legalmente, quer exemplos
      victoza, hipontesores, recentemente retirados por causar cancer, sibutramina, causa arritimia, e outros tantos

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  4. entendo e concordo em muitos pontos , mas nao posso concordar com remedios liberados , ditos revolucionarios como é o caso do victoza ( liraglutida ) agonista GLp1, que nao resolve o problema do diabetico e ainda foi liberado para emagrecimento, nesse caso o falso emagrecedor ta liberado oficialimente.
    o poder do laboratorio que manda prtender e soltar, e em outras palavras faz dos endocrinologistas seus vendedores de carteirina, ai pode ??? e pasmen é orientadousar por apenas 6 meses, mais do que isso nao nos responsabilizamos....??????????? victoza e similares espolia o pancreas ate nao pode mais depois associamos com insulina e seguimos até a morte, é o que vem acontecendo , játem relatos de3 obitos pelo victoza, mas ai pode é liberado.

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  5. Bem intencionado, mas da famigerada industria nao se falou. Das vantagens oferecidas pelos propagandistas nao se falou. Dos patrocinios que as sociedades medicas recebem tambem nao se falou. Falou muito pouco na verdade.

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